2 Jul 2020

Ao morrer, aos 94 anos, o escritor Rubem Fonseca deixa a sua grande arte. Melhor simbolizada pelo romance com esse título, de 1983, a obra que reúne suas melhores qualidades, Fonseca marcou toda uma geração de escritores e leitores por fazer ao mesmo tempo um gênero popular - o policial - com alta qualidade literária.

Trazia para as histórias policiais algo do refinamento do conhecimento - no caso de A Grande Arte, a do uso da faca - e uma profundidade inédita num gênero que, no passado, visava apenas entreter. Em A Grande Arte, o tema pro trás do tomance é a ciência da vingança.

Os personagens de Fonseca eram profundos, quase existencialistas. E seus dilemas sobressaíam ao crime, que ressaltava, pela sua natureza extrema, as preocupações existenciais.

Ele foi também um escritor ligado ao Brasil e à história brasileira. Seu romance mais ambicioso, Agosto, tem como pano de fundo o fim da vida de Getúlio Vargas - e a degradação, que é da política, refletida em seu personagem principal.

Sua obra foi das primeiras a retratar o crescimento exponencial da violência, no tempo ainda da ditadura militar, em que expôr esse tipo de coisa era considerado caso de segurança nacional. O conto Feliz Ano Novo, onde a ultraviolência é o tema central, é o grande marco que abriu caminho para o tema no país.

O livro chegou a ser proibido em 1974 pelo então ministro da Justiça, Armando Falcão, sob a alegação de que continha material contrário "à moral e os bons costumes".

Nos últimos livros, Fonseca pareceu repetir-se um pouco, preso ao estilo e às mesmas fórmulas narrativas que o tornaram célebre. Ainda assim, está entre os maiores escritores de sua geração, e pode ser considerado um dos maiores romancistas contemporâneos do Brasil, não importa o gênero. Foi mestre numa gênero difícil - o conto, a história curta - onde conseguia precisão e grande impacto. E trouxe a literatura brasileira para o cenário urbano, após gerações que retratavam mais o sertanejo.

Nascido em 1925 na cidade mineira de Juiz de Fora, José Rubem Fonseca viveu a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro. Era considerado recluso, por recusar-se a dar entrevistas, mas era uma pessoa cordial e personagem carioca. Fazia caminhadas pelo Leblon, de boné e óculos escuros.

Advogado de formação, trabalhou como comissário de polícia no 16º Distrito Policial, em São Cristóvão, e cuidava do trabalho de relações públicas. Estudou com outros policiais cariocas nos Estados Unidos, entre setembro de 1953 e março de 1954, e fez administração de empresas na New York University.

Sem jamais ter sido policial de rua, juntou ali as histórias que o inspirariam na carreira como escritor, iniciada depois de sua exoneração, em 6 de fevereiro de 1958. Trabalhou na Light e começou a escrever.

Publicado em República livre
Sexta, 10 Abril 2020 22:57

Bem vindos ao meu mundo

Bem vindos ao meu mundo. Eu sabia que um dia o estilo de vida dos escritores, tão decantado no período em que eles saem a beber, dizer besteiras e fazer enormidades, mostraria seu outro lado: o da vida de toupeira, enfiado num escritório, com a cabeça dentro de um laptop.

Escritores são, na maior parte do tempo, trabalhadores domésticos. Estou acostumado a longos períodos dentro de casa. Dias a fio, semanas, meses. Escritores vivem periodicamente quarentenas voluntárias. E bem. Por isso, a vida hoje não está muito diferente para mim. E talvez a minha experiência possa ajudar outros a conviver melhor com o isolamento.

Publicado em República livre