19 Fev 2020

Vaidade, vaidade, tudo é vaidade

Por   Ter, 22-Out-2019

Cuidar da aparência é permitido aos homens ou é coisa de mulherzinha?

Considerada por filósofos e religiosos como sinais orgulho, soberba, egoísmo e até idolatria, a vaidade é um sentimento condenado por praticamente todo mundo. Até pelos mais profundamente vaidosos. Mas, tomada em doses moderadas, essa cachaça não costuma fazer mal a ninguém nem causar ressaca. O duro é saber quando parar, depois que o vaidoso encostou o umbigo no balcão.

“Antigamente, a preocupação de um homem com sua estética resumia-se a cortar o cabelo e fazer a barba; hoje, vai muito além disso. Temos visto, cada vez mais, homens adeptos de cosméticos, produtos e serviços específicos para o público masculino”, diz o texto do site Canção Nova sobre vaidade masculina. “Sim! Podemos dizer que o homem de hoje aprendeu a ser vaidoso, e aquilo que, há alguns anos, só imaginávamos uma mulher fazendo, tornou-se, atualmente, procedimento comum da vaidade masculina”, segue o texto de Formação para os cristãos da organização católica.

Na verdade, o que houve é um incremento de um velho hábito milenar dos homens, sejam os maoris da Nova Zelândia com suas espetaculares tatuagens, os apaches norte-americanos com seus cocares coloridos ou os cortesãos de Luiz XV, com a viaderie completa. Eu trabalhei em barbearia, na adolescência, nos anos 60.

O sujeito chegava, recebia toalha quente no rosto enquanto a manicure cuidava das unhas e o barbeiro afiava a navalha. No mínimo duas boas ensaboadas seguidas de escanhoadas cuidadosas. Depois, cabelo lavado e cortado, sobrancelha aparada, tinta e tesoura no bigode. A essas alturas, unhas esmaltadas de incolor, a manicure já cedera espaço ao engraxate, que polia o bibo de cromo alemão.

Trabalho terminado, o cidadão dobrava o jornal, pegava a pasta, pagava a conta, dava uma última conferida no visual e se dirigia ao ponto de ônibus, rumo ao trabalho. Sim, era um homem simples.

Os homens andavam com pente e espelho no bolso e sempre usavam fixador de cabelo. Se voltarmos mais algumas décadas, a coisa ficará ainda mais acentuada. Então, pautas de comportamento falando de aumento da vaidade masculina soam como falta absoluta de assunto. A menos que se trate de matéria de negócios.

O fato é que há hoje uma indústria próspera nesse filão sempre promissor, no qual se investem pesado. “São 675 itens só para homens: esmalte, creme pra depilar, para tirar ruga, para reduzir abdome e vários tipos de modeladores para cabelo”, informa reportagem do G1 sobre o fenômeno.

Mas seria ingênuo acreditar que só os inventores de moda e a publicidade seriam capazes de incrementar tão pesadamente os negócios nessa área. O crescimento do setor de beleza masculina acertou em cheio ao acreditar que os machos são tão zelosos com a aparência quanto as fêmeas. Um zelo que levou os negócios às alturas, mesmo em tempos de vacas magras.

“Recente levantamento da Euromonitor Internacional, líder mundial em pesquisas do setor de beleza em 80 países, mostrou que, nos últimos cinco anos, a fatia masculina do segmento dobrou no Brasil. O setor, em 2016, movimentou 19,6 bilhões, de reais mesmo com o país em crise”, informa a edição virtual do Hoje Em Dia.

O fato é que até os anos 60 os homens se cuidavam muito bem. A coisa começou a degringolar nos anos 70, sob influência dos hippies e beatniks, dos quais se dizia não gostavam de tomar banho, e uma estética misto de Sierra Maestra com roqueiro junkie.

Nos anos 80, chegada a era dos yuppies, os rapazes voltaram ao salão. De lá para cá, a coisa só fez crescer, até desembocar nas barbearias gourmet, de onde os jovens saem com cara de lenhador do Oregon que acabou de tomar seu banho semanal.

Homens e mulheres sempre serão muito diferentes. Mas no quesito vaidade e cuidados com as aparências José e Maria rezam pela mesma cartilha, desde que Eva tungou a folha de parreira com a qual Adão escondia seu frontal não se sabe de quem, naqueles ermos do Éden.