2 Jul 2020

Uma faca para a História

Por   Qui, 18-Out-2018

Uma faca estava na prateleira de uma loja de utensílios domésticos. Uma faca comum, de cabo preto, daquelas que se usa para descascar frutas. Uma mão pegou-a, levou ao caixa, pagou o valor em dinheiro. Depois colocou-a no bolso do blusão.

 A faca achou que ia para um destino comum a todas as suas iguais. Dali a pouco estaria cortando as cascas de uma manga, de um pêssego. Mas não.

Quando viu, estava no meio de uma gritaria tremenda, bem em frente a uma loja Riachuelo. Sim, poderia ser uma feira. O seu novo dono seria proprietário de uma banca. Ela seguiu naquele escuro onde não dava para divisar nada. 

 Foi quando veio a iluminação forte, que cegava. Rapidamente ela saia das trevas e entrava em algo que, num primeiro momento, pareceu carne.

A grita aumentou. Seu dono correndo feito doido, uma galera berrando "mata, mata!" e ela foi de volta para dentro do breu do blusão.

Momentos depois era lavada, fichada e jogada num arquivo de delegacia.

Lá dentro do móvel metálico, a faca não desconfia de nada. Mas nunca mais vai despelar uma manga coquinho ou um pêssego argentino. Também não vai mais picar cebola e alho para aquele feijão do almoço cotidiano.

Até uma faca doméstica paga um preço alto quando entra para a História.