19 Set 2019

“Time de viado” não pode

Por   Ter, 27-Ago-2019
Daronco paralisa o jogo: comigo, não Daronco paralisa o jogo: comigo, não

Juiz interrompe o jogo e cala a torcida mal-educada

“Preconceito é crime”, publicou o Vasco da Gama em comunicado no qual condenou a atitude de sua torcida no jogo contra o São Paulo.

A certa altura da disputa, o árbitro Anderson Daronco paralisou a partida e, dirigindo-se ao técnico do time local, determinou: “Clube de viado não pode!”.

Condenava o coro que a torcida cruzmaltina entoava para atanazar os tricolores. Ciente do risco de punição ao clube, Wanderley Luxemburgo acalmou a galera.

Houve um tempo no qual os torcedores de outro tricolor, o carioca Fluminense, era chamado de pó de arroz, apelido que lhe teria sido aplicado pelos torcedores do América, em 1914. Aconteceu que Carlos Alberto, craque americano, tinha o hábito de usar pó de arroz como pós-barba. Enquanto era atleta da equipe do Andaraí, tudo bem. Mas no momento em que se transferiu para o Fluminense esse costume foi lembrado pelos americanos, que, durante uma partida entre as duas equipes, tentaram desestabilizá-lo com o coro de “pó de arroz”.

Em vez de se ofender, o Fluminense assumiu o epíteto e nos anos seguintes era lindo de ver a nuvem perfumada que tomava o ar do Maracanã, quando o time das Laranjeiras entrava em campo.

Mais recentemente, numa atitude flagrantemente ofensiva, as torcidas de São Paulo faziam o coro de “porco”, quando o Palmeiras entrava em campo. Dizem que isso remete à entrada do Brasil na Segunda Grande Guerra, quando apoiamos os Aliados contra Itália, Alemanha e Japão, os países do Eixo. O Palmeiras teve de abandonar o nome de fundação, Palestra Itália, e os imigrantes italianos e seus descendentes passaram a ser hostilizados e chamados de porcos.

Lá pela metade da década de 80, o diretor de marketing João Roberto Gobbato teria decidido aplicar um golpe nos adversários assumindo o apelido. Com isso esvaziou a gozação. A princípio os torcedores alvi-verdes não aceitaram bem a ideia e se mantiveram fiéis ao mascote tradicional, o Periquito. Mas em 1986, durante um jogo contra o Santos, no Pacaembu, a torcida finalmente vestiu a camisa e encheu o estádio com um vibrante “Dá-lhe porco! Dá-lhe porco!”.

São duas histórias que ilustram bem a velha máxima a qual diz que apelido só pega se irritar. Se aceitar numa boa, ele perde o efeito e é esquecido pelos algozes. No caso do pó de arroz e do porco, não foi esquecido, uma vez aceitos os apelidos foram mesmo consagrados. Já é conhecido o grito de guerra “Corintiano, maloqueiro e sofredor”. Houve tempo em que a torcida da Zona Leste paulistana se ofendia com o pecha de maloqueiro. Até decidir a sacar dos adversários essa bandeira.

Tudo isso para dizer que nos tempos atuais a coisa deixou de se resolver pelo fair play dos torcedores ofendidos. Sob a égide do politicamente correto as coisas precisam ser criminalizadas.

A saída é um trabalho de educação em casa, na escola e na sociedade em geral. Mas em se tratando de frequentadores de estádios de futebol parece não ser o suficiente.

Há um esforço mundial para banir as manifestações de homofobia e racismo dos estádios. Esse esforço inclui multa e já se fala em perda de pontos do time do torcedor infrator e interdição do estádio por tempo determinado. É uma forma de solução coercitiva, que dribla o fato de o torcedor se beneficiar do anonimato, punindo seu clube. Tem dado resultado na repressão ao velho hábito de atirar coisas no gramado.

Hoje, os próprios torcedores reprimem os colegas infratores, detendo-os e os entregando às autoridades. Infelizmente, é essa a única linguagem que alguns entendem. Mas erra a direção do Vasco.

Preconceito não é crime, ou estaríamos todos presos, já que ainda não nasceu humano sem algum. O crime acontece quando o preconceito leva à ofensa ou discriminação. De qualquer modo, é sempre bom quando a equipe puxa a orelha de sua torcida, quando ela perde as estribeiras. Afinal, na selva do futebol, os nativos estão sempre inquietos.