21 Jul 2019

Quero teclar em paz

Por   Sex, 15-Mar-2019

A ridícula patrulha contra o telefone celular

Os boêmios do velho Rio costumavam desdenhar o banho de mar: “Intelectual não vai à praia, intelectual bebe”, diziam. Bobagem. Millôr era “o” intelectual e jogava frescobol, esporte do qual foi um dos criadores, nas areias de Ipanema.

Esse é só um exemplo, mas há muitas situações nas quais fiscais do comportamento alheio, como a polícia de costumes iraniana, chicoteiam o vulgo e seus hábitos “alienados” ou “vulgares”. Não veja televisão, em vez disso leia bons livros. Muito bem, mas dá para fazer as duas coisas, pois não? Novela, nem pensar. Dançar? Nunca. Pilotar uma moto? Nada. Sair para paquerar? Coisa mequetrefe. Bloco de Carnaval? Hummm. Um sujeito superior não se presta a essas vulgaridades típicas do povinho alienado.

É dentro desse quadro que surge o vigilante de celular. E há legiões deles. Cartuns ironizam a falta de comunicação entre os mortais, que reunidos à mesa só têm atenção para a telinha. Restaurantes metidos a bistrô francês exibem placas sugerindo que as pessoas conversem, em vez de ficar lidando com o aparelhinho. Antes de mais nada é preciso dizer que celular une a comunicação telefônica tradicional com recursos modernos, como o torpedo, aplicativos de comunicação por texto e voz e programas de amplo uso.

Quer dizer, a evolução da informática e das comunicações permite que nos conectemos com pessoas e serviços ao redor do mundo, enquanto aguardamos o prato feito ou o bisque de homard. Enquanto você fala um monte de bobagem com a boca cheia, para escândalo da secretária do RH que o acompanha à mesa, aquele mal educado ao celular pode estar faturando num negócio o que você ganha em seis meses.

As redes sociais, além de nos unir a estranhos com interesses em comum, nos reaproximam de parentes e amigos que há muito não víamos. Como dizer que precisamos nos comunicar e deixar o celular de lado? Em geral, essas pessoas que criticam o uso exagerado do aparelho são as que o usam para besteiras e amenidades, como jogos e fofocas em redes sociais, e julgam que os outros fazem o mesmo.

Por esta razão ignoram que um celular hoje é um escritório, um estúdio, uma ferramenta de trabalho e lazer. Vivem me mandando largar o celular. E essas pessoas são exatamente as que não usam o recurso para nada de importante e necessário. A cada dia utilizo mais o celular. Fico mais dependente dele. E a razão disso é que ele vem substituindo um monte de outros recursos e facilitando um sem fim de atividades diárias.

A função primeira do celular é a ligação telefônica, cada vez menos usada. O que é possível comunicamos por torpedo, pelo Messager, pelo Whatsapp etc. No celular está minha agenda de atividades com lembretes sonoros que me impedem de atrasar um compromisso. Nele eu pago contas, faço transferências e controlo meu minguado dinheirinho. É lá que está, criptografado, meu banco de senhas. É nele que leio as notícias do Brasil e do mundo. É onde acesso minhas assinaturas de jornal e revista. O celular me fez aposentar a máquina fotográfica e o laptop. Fotografo e escrevo direto no aparelhinho (e olha que não tenho a destreza da garotada que usa os dois polegares para redigir seus erros de português na velocidade da luz).

É no celular que dou acabamento nos meus desenhos, escrevo meus textos e é através dele que envio meu material para editoras. É com o celular que atualizo meu perfil na rede social e as quatro páginas que lá mantenho. É com ele que acesso e edito meus cinco blogs na rede. Não entro no carro sem instalar o aparelho com o aplicativo que me orienta sobre a velocidade local, presença de lombada eletrônica, rota para meu destino e situação do trânsito. É nele que guardo mais de 14 mil fotos e 30 gigas de boas músicas.

Esnobar alguém que utiliza seu celular enquanto toma um café sem saber que tarefa ele está executando é presunção. Se você se senta num Starbucks com um laptop aberto vão julgar que você é um executivo ocupado. Mas se estiver usando um celular para fazer a mesma coisa é um babaca alienado. É comum o sujeito ficar postando essas aleivosias no Facebook, como se não tivesse espelho. Como se toda crítica que faz aos usuários inveterados do celular não fosse veiculada através de seu celular.

Em geral, esses fiscais do rabo alheio são exatamente os que fazem uso ocioso e improdutivo do aparelho. Quando não divulgam fake news. Por favor, macacos, olhem o próprio rabo e nos deixem teclar em paz. Uma dica: na função “vibrar” ele pode até dar algum prazer a desocupados carentes, que se defendem da solidão cuidando da vida dos outros.