17 Out 2019

Os últimos dias no poder

Por   Qua, 12-Dez-2018

É uma linda manhã e o sol banha de dourado o espelho d’água do Paranoá.

O telefone da portaria tocou e o Severino veio me chamar, pobre homem subindo sete andares pela escada. O elevador do ministério está em manutenção.

A chamada era do gabinete do ministro. Ele tinha uma missão para mim. Havia três décadas que não me acionavam. Desde que descobriram que eu não passava de um burocrata com desvio esquerdista. Intriga que quase me custou uma temporada nos porões do regime e o retorno para uma função no kardex da fábrica de radiadores de São Bernardo.

Deixaram-me na geladeira esse tempo todo. Saudade da ditadura. Reabilitado, acabei sendo destacado para esse oco de mundo. Vim parar nesse inferno de ar seco, pelos bagos de Geisel, sem uma mísera esquina para se tomar uma cerva.

Cheguei na rodoviária, que não tinha verba para avião, onde me venderam uma cachaça do Recôncavo Baiano, que eles chamam de etanol. Muito fraquinha. Minha missão é top. Espionar e seguir os passos do número 1.

As escutas no palácio estão a toda, e aproveitei para ouvir as últimas e me informar a respeito dos mexericos do poder. Nada de muito importante.

“Fulana, troca a frauda do Michel!”. “Mas o Michel já foi brincar no parquinho”. “Não, do outro”. “Hum, já fez merda outra vez?”. “É a idade”. “Mas o velho não estava com prisão de ventre?”, perguntou uma das serviçais (não se sabe ao certo quantas somam, mas são muitas). “Pois é, passou a semana viajando, quando voltou foi ao trono e soltou”, disse a moça bonita do Jaburu. “Soltou assim, de repente?”, perguntou a serviçal. “Vai ver foi obra do Gilmar (risinhos maliciosos das duas)”.

Nada importante no diálogo de dona bonita com as serviçais.

Uma ou outra orientação para a visita daquela manhã. “Fulana, o nariz nervoso de Minas vem aí. Tira o pó dos móveis!”. Coisas da rotina de uma dona de casa recatada e do lar.

Um desses encontros em casa acabou virando um escândalo. Não entendi a razão. O homem não pode receber visita fora da agenda? Parece que pega mal. Pelo jeito, só pode receber se for na calada da noite. Ainda assim, só se for usando nome falso e entrando sorrateiramente pela garagem. Quanto amadorismo.

“Só pode receber se a visita vier com uma mala 007 recheada de alface”, disse o meu motorista, mas não entendi. O que o serviço secreto britânico tem a ver com a verdura?

O encontro se deu no Palácio do Jaburu. Embora a presidente anterior tenha sido defenestrada, seu vice, ao assumir, manteve o nome do palácio, não quis retaliar. Pelo que andei lendo, o homem não toma jeito.
Continua recebendo gente fora da agenda nas horas mais incertas, mesmo depois que o encontro com o Rei do Gado resultou em gravação cheia de revelações comprometedoras que quase causaram seu impeachment e pode comprometer sua futura liberdade.

Quando ouvi a gravação pela primeira vez, pensei que tivesse sacanagem no meio. Mas era apenas a velha e boa corrupção (são craques nisso). Parece que o Rei do Gado fornecia filé grátis para o ex-chefe governista do legislativo, uma espécie de Rasputin, preso por excesso de velocidade no cometimento de crimes. Além de outros pequenos deslizes remontando a milhões.

O chefão, informado, teria decretado: “Mantém isso, viu? Não deixe faltar filé na cela do mané!”. Mas, voltando ao encontro escabroso, na época, os tucanos deram xilique, acusando o presidente de estar cooptando seus camaradas para manter forte a base de apoio com vistas à aprovação de seu plano de bloqueio das tentativas de cassação. Que gente mais chata.

Felizmente consegui abastecer meu frigobar de cerveja. É sempre mais fácil enfrentar essa roubada brasiliense no meu estado normal. Bem fez o Neymar, que virou cidadão do Catar. Ora, chega de divagar. Vou fazer meu relatório para a central.

O sol banha de dourado as torres do Congresso neste lindo final de tarde primaveril. Mas não posso ver, estou a 30 quilômetros de distância, no meu muquifo na cidade satélite, cuspindo poeira e raspando o rabo no toco neste fim de mundo, com esse clima seco dos infernos. Por hoje, nada de relevante a reportar.”

(Agente Peixoto)