16 Nov 2019

O trem do desgoverno em São Paulo

Por   Qui, 14-Fev-2019

Na saída do aeroporto de Guarulhos, com certo tempo, pouco dinheiro e nenhuma bagagem, eu e minha filha adolescente resolvemos experimentar o serviço de trem que leva à estação da Luz, em São Paulo.

Projetada originalmente para atender à demanda da Copa do Mundo em 2014, a linha foi inaugurada apenas três anos depois (a tempo para a Copa da Rússia, ufa!) e, ainda assim, com limitações. Os trens expressos viajam apenas de duas em duas horas, das 10 às 22h, e somente de segunda a sexta – afinal ninguém viaja e nem trabalha no aeroporto nos finais de semana, certo Brasil?

Mas eu erro o caminho logo de cara, absorta em uma ligação telefônica que não acaba mais, e tomo as escadas para a linha não expressa, o chamado trem pinga-pinga. Minha filha percebe, mas não se dá ao trabalho de contestar porque pareço tão determinada que ela acha que a aventura faz parte da missão. O trem expresso custaria R$ 8,60, o exato dobro do valor da linha com paradas, e cerca de um quinze-avos do valor cobrado pelo serviço de táxi do aeroporto. Entre um e outro, estariam os preços dos aplicativos de táxi, todos indisponíveis para mim na ocasião, uma vez que acabo de ser assaltada e estou sem cartões de crédito.

A primeira impressão não é ruim: às 15h, o trem é vazio, há lugar para sentar e ele não demora para sair. Mas logo a sorte nos abandona. Sem velocidade regular, o trem freia várias vezes e leva uma eternidade para alcançar a estação seguinte. Bom para os vendedores ambulantes, que, por causa das portas que conectam os vagões, podem circular livremente entre os carros em movimento e gerenciar seus comércios sem impedimento algum. Cumprimentam-se de uma ponta à outra, e seguem uma ordem bastante coerente para vender carteiras, carregadores, água gelada, chocolates e balas.

Depois das vendas ostensivas, os ambulantes continuam a conversar, mas sem tomar qualquer cuidado de se aproximarem ou baixarem o tom de voz. A linguagem se transforma imediatamente, e o “prezados passageiros, peço um minuto de sua atenção” passa para “mano, ceé loco, os baguio ta zoado”. O cenário em volta está todo transformado pela dura realidade das favelas, invadidas pela linha Safira da CPTM, e vice-versa.

Sabendo que aquilo vai levar horas, e já consciente de que perdera a linha expressa, desisto do trajeto férreo e resolvo pedir um Uber na próxima estação. O carro chega bastante rápido e eu puxo a filha para apertar o passo e encontrar o motorista na avenida. Pela passarela de pedestres, olho para a rua e não o vejo. Ele entra em contato por telefone para avisar que não está dirigindo o carro cadastrado no aplicativo, mas sim outro modelo com outra placa. Ah, não! Em outras situações, seria bem possível que eu compreendesse a situação e aceitasse a troca de carro, mas a minha versão mãe não permite um vacilo desse tamanho. Proponho à filha que voltemos ao trem, mesmo tendo que pagar novamente a passagem.

O segundo trajeto é ainda pior. Depois de oferecer seis chocolates por “dois real”, os vendedores passam a conversar entre si sobre a situação do policiamento da região, contando a dificuldade que seus amigos, colegas (e a “mina” de um deles) estavam enfrentando para passar drogas no campus da USP ali na zona Leste. Com as aulas prestes a começar, a polícia estava atrapalhando toda a operação.

A conversa da malandragem é ostensiva e interminável, assim como o percurso de 4 estações que ainda falta percorrer até chegar à linha de metrô. Cada vez mais lento, a ponto de ser perfeitamente possível embarcar com a composição em movimento, o pinga-pinga fura bairros lotados de favelas, lambendo as janelas e varais do entorno.

Finalmente, atingimos a estação Tatuapé que faz primeira a conexão com o sistema de metrô, e passamos para a linha vermelha. Dali para casa, não faltam mais que alguns minutos, mas o nosso objetivo principal é chegar de volta ao silêncio e ao anonimato dos passageiros.

Como moro em região central, levamos afinal duas horas para chegar, o que não é um absurdo total, considerando o tamanho da cidade e a distância do aeroporto. Mas não posso deixar de pensar na dificuldade que qualquer estrangeiro carregado de malas e sem falar a língua teria para entender o sistema todo.

Ainda assim, apesar de não ter sido das melhores experiências da vida, sigo acreditando na viabilidade do trem, pois sou brasileira e não desisto desse projeto de país. Não posso dizer o mesmo da previsibilidade, pontualidade, serviços, sinalização, infraestrutura e segurança. E o sistema de transportes do aeroporto, desenhado para atender ao turista internacional, mostrou-se mais uma prova de que o caminho do Brasil continua tão lento, tortuoso, imprevisível e inseguro quanto o trem pinga-pinga.