19 Set 2019

O rico, o pobre e a arte

Por   Qui, 01-Ago-2019
Zola e Cezanne, no filme: obra prima Zola e Cezanne, no filme: obra prima

Ao colocar na tela a história da amizade entre o escritor Émile Zola e o pintor Paul Cezanne, a diretora francesa Danièle Thompson produziu também uma pequena obra-prima do cinema, que vai passando discretamente no circuito mais cult das cidades brasileiras.

Thompson retrata com grande beleza o relacionamento de Cezanne e Zola, amigos de infância, com trajetórias sempre opostas. Ligado à pintura, Cezanne nasce rico. Zola, que é poeta e mais tarde seria romancista, nasce pobre. Enquanto Cezanne permanece na obscuridade, recusado nas grandes mostras e vai caindo na miséria e amargura, Zola vira sucesso de público e crítica, fica rico e tenta levantar o velho amigo.

Essa inversão de papéis acaba ressaltando não apenas a relação de amizade em torno do que ambos têm em comum, que é o amor à arte, como a relação entre a arte, os sonhos e a própria vida, que por vezes os aproxima e afasta.

Cezanne e Eu é também um incentivo à persistência, para todos aqueles que se acham abandonados pelo sucesso. Menos favorecido da dupla durante a vida, Cezanne acabaria sendo o mais importante, por mais que se goste do autor de Germinal, obra maior de Zola, icônica da literatura francesa.

Crítico do impressionismo, início da negação da arte clássica, Cezanne deixou a descrição fiel do objeto retratado para a nascente ciência da fotografia. Para ele, o importante na arte era a interpretação da realidade pelo artista - o seu ponto de vista.

Essa reintepretação da realidade, tão frustrante para os retratados por Cezanne em sua época, foi a base da arte moderna. Assim, ele se tornou seu precursor, reconhecido até mesmo por Picasso, que o considerava "o pai de todos nós".

Filme apaixonante, com fotografia digna de pintura e cenas que falam ao coração de quem gosta da arte e da vida, Cezanne e Eu é ainda um ode do cinema francês à cultura, à história, à tradição, à arte e aos personagens da França.

Boa lição. Os franceses não cospem em si mesmos ou em seus artistas, de qualquer origem ou matiz ideológico. Ao contrário, valorizam e idolatram o que é seu, especialmente o artista e sua arte, base da cultura, da diversidade e da própria civilização francesa.

Cezanne e Eu surpreende e deleita até o final. Incluindo os créditos, que são parte integrante e fundamental do filme - o grand finale. Recomenda-se que o espectador assista tudo até o fim. Nos créditos, esse pedaço geralmente desprezado como sobras de uma refeição, Cezanne e Eu traz um toque final de emoção e inteligência. Matéria rara no cinema contemporâneo, onde a exploração da tecnologia digital tem se sobreposto ultimamente aos temas humanos e às boas ideias.