25 Mai 2019

O pai da folia

Por   Seg, 25-Fev-2019
Zé Espinguela Zé Espinguela

O concurso das escolas de samba e seu pitoresco criador 

Os desfiles carnavalescos são a grande tradição da nossa folia. Dos cordões e ranchos de antigamente aos blocos de embalo de anos mais recentes, chegamos hoje aos gigantescos blocos de rua que reúnem milhares de foliões no Rio, São Paulo, Recife e de modo mais modesto em cada cidade do país, numa folia espontânea e crescente. Mas desde as grandes sociedades, surgidas no Século XIX, que chegaram ao século passado com carros alegóricos suntuosos e elementos móveis iluminados por gambiarras, o ponto alto dos festejos tem sido o concurso de agremiações.

Alguns puristas acham que as agremiações carnavalescas não deviriam competir, mas apenas desfilar, que esta seria sua finalidade primordial. Estão errados. A competição entre escolas de samba, por exemplo, é da essência do folguedo. Está em suas raízes. Aliás, a competição é anterior aos desfiles.

A disputa entre os redutos do samba é anterior até mesmo às próprias escolas. Os blocos indisciplinados que as antecederam não podiam se cruzar pela cidade sem que houvesse um entrevero. “A Vila não quer abafar ninguém, só quer mostrar que faz samba também”, cantou Noel Rosa. Estava claro que havia uma rivalidade, que ele pretendia superar, pois tinha bom trânsito nos morros e recantos do samba. “Salve Estácio, Salgueiro e Mangueira, Osvaldo Cruz e Matriz, que sempre souberam muito bem, que a Vila (Isabel) não quer abafar ninguém. Só quer mostrar que faz samba também”, conciliou Noel, que não falava de escolas de samba mas de bairros e morros da cidade onde se cultuava o ritmo com grande talento.

A disputa durante o Carnaval era feroz, não havendo julgamento oficial, com cada bloco querendo se impor no grito. À frente do cortejo vinha o estandarte do grupo, que era cobiçado como troféu pelos rivais. Armado o conflito, o objetivo maior era voltar para o reduto exibindo o pavilhão do adversário. Por esta razão, para protegê-lo, um dançarino bom de briga sambava ao redor da porta-estandarte fazendo malabarismos com uma espécie de bengala, que se convertia em porrete nos entreveros. Era o baliza, que junto com sua protegida originaram as figuras do mestre-sala e da porta-bandeira das escolas de samba.

Mas, voltando à vaca fria, a disputa antecede os desfiles. E começou de pelas mãos de uma das figuras mais pitorescas do Rio da primeira metade do Século XX.

José Gomes da Costa, o Zé Espinguela, que, juntamente com Cartola e Carlos Cachaça, fundou o Bloco dos Arengueiros, semente da escola de samba Estação Primeira de Mangueira. Jornalista, compositor, cantor, escritor, pai de santo e folião, Espinguela é o responsável por botar ordem nas disputas, tirando-a dos embates violentos para um nível de competição saudável. Ele promoveu o primeiro concurso de escolas de samba, em 20 de janeiro de 1929, no Engenho de Dentro, subúrbio carioca onde morava e mantinha seu terreiro de macumba. Paulo Benjamim de Oliveira, o Paulo da Portela, comandou a vitória do conjunto de Osvaldo Cruz. Razão pela qual a Portela é consagrada como a primeira campeã.

Participaram grupos da Mangueira e da Deixa Falar, a primeira escola de samba, recém-criada, no bairro do Estácio. Não se tratava ainda de um cortejo carnavalesco. No concurso, realizado no quintal da casa de Espinguela, na atual rua Adolfo Bergamini, cada grupo apresentou dois sambas puxados pelos autores, com auxílio de um coral de pastoras, e o júri decidiu qual era o melhor conjunto.

Espinguela era um sujeito eclético, já se viu. Jornalista, pai de santo e sambista, era ainda profundo conhecedor do folclore carioca e das festas do povo. Foi por esse conhecimento que teve contato com o maestro Heitor Villa-Lobos, a quem apresentou as nuanças dos folguedos populares do Rio de então, com seus rituais africanos e rodas de jongo e samba. Em troca, Villa-Lobos o indicou a Leopoldo Stokowski (1882-1977), que em 1940 buscava músicos populares brasileiros para fazer uma gravação destinada ao Congresso Pan-Americano de Folclore.

“Stokowski viajava sob o patrocínio do Departamento de Estado americano, que desenvolvia na América do Sul a Política da Boa Vizinhança, criada pelo presidente Franklin Delano Roosevelt”, conta o jornalista e crítico musical Ary Vasconcelos. O resultado do trabalho do maestro inglês foi um disco que só saiu no Brasil em 1987, 47 anos depois das gravações, produzido pelo Museu Villa-Lobos. Gravado a bordo do navio Uruguai, sob a supervisão de Stokowski e organização de Villa-Lobos, como informou o jornalista Aramis Millarch, na época de seu lançamento, o disco reuniu autores como Pixinguinha, Cartola, Donga e João da Baiana.

Ainda sob inspiração de Villa-Lobos, Espinguela criou em 1940 o nostálgico Sodade do Cordão, grupo carnavalesco que tentava reviver os “bons tempos da folia”. Espinguela viveria pouco. Em 1945, pressentindo que o fim se aproximava, convocou seus fiéis do terreiro do Engenho de Dentro e foi à Mangueira despedir-se dos amigos e das namoradas, que sempre manteve longe do olhar da patroa ciumenta.

O morro foi acordado de madrugada pelo canto do cortejo em homenagem ao morto que, ainda vivo, puxava o coro com ajuda das pastoras. “Ele acordou o morro todo anunciando que iria falecer. Fez uma música apenas para a ocasião. E morreu dois dias depois”, diz Raymundo de Castro, velho mangueirense. Eis a letra cantada pela turma do Espinguela:

Bem que eu quero esperar
Mas existe um porém
Sinto a minha memória cansada
Essa simples melodia
Serve de último adeus
Adeus, escola de samba
Adeus, Mangueira
Adeus

O crescimento desmedido dos blocos de rua nos últimos anos e os bandos de bate-bolas e Clóvis (herdeiros anárquicos do Entrudo do Século XIX), que atazanam o suburbano carioca, rivalizam com o organizado Carnaval de cortejo, representado pelas Escolas de Samba, blocos de enredo, blocos afros, maracatus e afoxés. Mas é onde há competição, como no desfile das escolas, que a festa brilha mais. E a semente dessa grandiosa festa foi plantada no quintal de Zé Espinguela, no subúrbio carioca do Engenho de Dentro, no longínquo janeiro de 1929