19 Nov 2019

O gênio que criou a Bossa Nova

Por   Dom, 07-Jul-2019
João: mudou o Brasil João: mudou o Brasil

Morreu nesse dia 6 de julho, aos 88 anos, o compositor, cantor e pai da Bossa Nova João Gilberto. Ele estava recluso há anos, em seu apartamento no Rio, onde recebia pouquíssimas pessoas. Quando completou 80 anos, em 2011, João Gilberto, um dos mais respeitados músicos deste país, planejava uma turnê com um total de oito apresentações, por cidades como Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Brasília, com início previsto para 29 de agosto e término em 30 de novembro daquele ano. Era o projeto 80 anos.

Uma Vida Bossa Nova, que deveria gerar CDs e DVDs. Por motivos de saúde, a turnê foi adiada. Nunca mais houve show do gênio do violão minimalista que se valia da batida de uma mão direita originalíssima para encantar gerações de ouvintes pelo mundo todo.

O baiano João Gilberto Prado Pereira de Oliveira nasceu no dia 10 de junho, na cidade de Juazeiro. Ainda menino começou a dedilhar um violão que ganhou do pai e formou um grupo musical adolescente chamado Enamorados do Ritmo, no qual experimentou o gosto pelo exercício vocal que o levaria a tentar a carreira de cantor em Salvador, no final da década de 40.

Em 1949 foi contratado pela rádio Sociedade da Bahia, como crooner. Na década seguinte, seguiu para o Rio, onde integrou o grupo Garotos da Lua, com o qual gravou dois discos, em 1951, e onde conheceu jovens de classe média apaixonados pela música americana. Entre eles, Antonio Carlos Jobim, com quem se tornaria fundador da Bossa Nova, um movimento inspirado no melhor da canção brasileira, notadamente o samba, com uma influência cool do jazz, que ouviam sem parar nas reuniões dos apartamentos da Zona Sul carioca.

O novo ritmo encontrou palco privilegiado nas pequenas casas noturnas do Rio, de clima mais aconchegante. Seus intérpretes são herdeiros de um jeito de cantar que destoa da tradição dos cantores de voz exuberante, como Francisco Alves, Vicente Celestino, Carlos Galhardo, Gilberto Alves e outros tantos. Sua escola remonta a Mário Reis, passa por Tito Madi, com um jeito de cantar mais leve, de voz pequena, mais intimista.

 João Gilberto com os Garotos da Lua

Os músicos da Bossa Nova eram fortemente influenciados não apenas pelo jazz e pelas canções que marcaram a era de ouro do rádio, que ouviam loucamente, mas também pela fossa, pela dor-de-cotovelo cantada no samba-canção, que marcou a música brasileira dos anos 50 e emprestou-lhes seu tom recatado.

O marco oficioso do surgimento do novo subgênero musical brasileiro é o lançamento de Chega de Saudade (Tom e Vinicius) na voz de João Gilberto, em 1958. No mesmo ano, ele lançaria a ousada Desafinado, um hino do movimento, que pregava a despretensão, o minimalismo, a parcimônia harmônica e poética, em contraponto à exuberância de nossa tradição musical de então, que sobrevivia forte na voz de jovens como Cauby Peixoto, Ângela Maria e tantos outros grandes intérpretes que assumiam o bastão que lhes foi entregue por Chico Viola, Dalva de Oliveira e Orlando Silva. Há quem afirme que foi a batida de violão de João Gilberto que consolidou a Bossa como um novo estilo musical.

Um violão que segura o ritmo com sutis desenhos assimétricos nos acordes. Não à toa ele se deu tão bem cantando sambas sincopados. O espanto do violão heterodoxo de João Gilberto se fez notar primeiramente no LP Canção do Amor Demais (1958), de Elizeth Cardoso, a quem acompanha na faixa Chega de saudade (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), causando escândalo em uns e provocando muxoxos de outros.

 

Primeiro álbum: um marco na MPB

Em 1959 ele lançou seu primeiro álbum, Chega de Saudade, produzido por Aluysio de Oliveira, com arranjos e parcerias de Jobim. Lá estavam alguns clássicos da nossa canção em releituras que os marcaram para sempre, entre eles Aos Pés da Santa Cruz (Marino Pinto e Zé da Zilda), Morena Boca de Ouro e É Luxo Só (Ary Barroso e Luís Peixoto), Rosa Morena (Dorival Caymmi). Os velhos sucessos ganhavam roupa nova e rivalizavam com as composições de jovens autores da Bossa, como Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli (Lobo Bobo) e o próprio João (Bim Bom).

Com Tom Jobim: primeiras bossas

A Bossa ganhou as ondas do rádio e ultrapassou as fronteiras do país, com seu sotaque universal, que tornava nosso samba mais palatável ao gosto estrangeiro. A partir daí, a carreira de João subiu acelerada como um foguete. Seu reconhecimento internacional foi instantâneo e tão vigoroso quanto as críticas conservadoras de nacionalistas empedernidos, que acusavam os bossa-novistas de serem americanizados.

No ano de 1960 João lançou o álbum O Amor, o Sorriso e a Flor, com a atrevida Samba de Uma Nota Só (Tom Jobim e Newton Mendonça). Em 1961, o terceiro LP, que levava seu nome no título, repetindo a fórmula: O Barquinho, dos jovens bossa-novistas Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, e clássicos como Samba da Minha Terra e Saudade da Bahia, de Caymmi, que ele cantaria ao longo de toda a carreira.