16 Nov 2019

O Carnaval da propaganda

Por   Seg, 25-Fev-2019

O samba é puxa-saco e mercenário

POR JULIO CESAR DE BARROS

Dependentes crônicas dos poderes públicos, as escolas de samba nunca perderam tempo na hora de demonstrar subserviência e sabujice diante do poder. Mas recentemente passaram a vender seus carnavais a quem quiser e puder pagar.

É uma lástima. Mas pior que puxar o saco dos governantes, ou se vender a picaretas endinheirados, essas teúdas e manteúdas do governo às vezes permanecem fiéis aos seus ídolos de pés de barro mesmo quando nem eles mesmos acreditam em si.

A troco de quê? Só seguindo o dinheiro. Faz parte desse delírio de ilusão com os poderosos, o enredo deste ano na Escola de Samba Paraíso do Tuiuti.

Inconformado com a tratorada que a Lava Jato e os eleitores deram no Partido dos Trabalhadores, o carnavalesco Jack Vasconcelos baba no ovo de Lula: “Vocês que fazem parte dessa massa irão conhecer um mito de verdade: nordestino, barbudo, baixinho, de origem pobre, amado pelos humildes e por intelectuais, incomodou a elite e foi condenado a virar símbolo da identidade de um povo. Um herói da resistência!”

Então tá.

Escola de Samba sendo Escola de Samba. Isso vem de longe. A Portela, a azul e branco de Osvaldo Cruz, foi campeã, em 1942, com uma homenagem a Pedro Ernesto, prefeito do Distrito Federal por dois mandatos.

E foi campeã novamente nos três anos seguintes, durante a Segunda Grande Guerra, com enredos elaborados pela Liga de Defesa Nacional, entidade fundada em 1916 por Olavo Bilac e o presidente Venceslau Braz, entre outros, para exaltar o espírito patriótico entre nós.

Os enredos foram, Carnaval de Guerra (1943), Brasil Glorioso (1944) e Motivos Patrióticos (1945).

No Carnaval de 1943, com samba de Nilson e Alvaiade, a escola se engajou na onda anti-autoritária e, mesmo sob a ditadura de Getúlio, cujo Departamento de Imprensa e Propaganda, criado em 1939, vinha exigindo das escolas enredos patrióticos e temas nacionais, atacou os países do Eixo, o que só foi possível porque o ditador aderira aos aliados no ano anterior, depois de muito vacilar, dadas as suas simpatias pelos regimes da Alemanha e Itália.

O ufanismo sempre presente: "Democracia/ Palavra que nos traz felicidade/ Pois lutaremos/ Para honrar a nossa liberdade / Brasil, oh! meu Brasil!/U nidas nações aliadas/ Para o front eu vou de coração/ Abaixo o Eixo/ Eles amolecem o queixo/ A vitória está em nossa união

Mal saído da vida para entrar na história, o ex-ditador Getúlio Vargas foi homenageado pela Mangueira, em 1956, com um enredo exaltação que mereceu samba do mestre do gênero, o compositor Padeirinho: Salve o estadista/ Idealista e realizador/ Getúlio Vargas/ Um grande presidente de valor.

Em 1972, a Imperatriz Leopoldinense, sob pretexto de homenagear o poeta Cassiano Ricardo, levou para a avenida o enredo Martin Cererê, com samba de Zé Catimba, que claramente exaltava o governo militar e o milagre econômico:

Vem cá, Brasil/Deixa eu ler a sua mão, menino/Que grande destino/Reservaram pra você (...)/Gigantes pra frente a evoluir/Milhões de gigantes a construir.

Outras escolas seguiram na mesma linha. Ainda durante o governo militar, com o general Ernesto Geisel na presidência, a Beija-flor de Nilópolis levou o ufanismo ao extremo do mau gosto, com o enredo O Grande Decênio, de 1975, que exaltou as realizações do regime. “Lembrando PIS e PASEP/ E também o FUNRURAL/ Que ampara o homem do campo/ Com segurança total” (Bira Quininho)

Um show de horrores no Carnaval. Mais recentemente, as escolas têm vendido caro a bajulação. A Vila Isabel por exemplo, resolveu bajular o chavismo a peso de ouro, num enredo que cantava as maravilhas do socialismo moreno: “Apagando fronteiras/ desenhando Igualdade por aqui/ Arriba, Vila !!!/ Forte e unida/ Feito o sonho do libertador/ A essência latina é a luz de Bolívar/ Que brilha num mosaico multicor”.

Talvez influenciada pelo ingresso de Martinho da Vila no PCdoB, em 2005, a escola pagou um mico histórico no ano seguinte ao exaltar a fartura de uma Venezuela onde falta tudo. Mas não faltou verba para montar o enredo.

E funcionou. O Júri, formado por gente das universidades, intelectuais e artistas, deu à Vila o título daquele ano. A Carta Maior descreveu a situação: “A idéia de divulgar os ideais bolivarianos propagados pela Venezuela através daquele que é considerado 'o maior espetáculo da Terra' - e que se materializou através do aporte financeiro dado à escola carioca pela estatal venezuelana de petróleo, a PDVSA - revelou-se para o governo Chávez uma tremenda bola dentro.”

A Carta Maior sendo Carta Maior.

A Beija-flor, em 2015, com o enredo "Um Griô conta a história: um olhar sobre a África e o despontar da Guiné Equatorial. Caminhemos sobre a trilha de nossa felicidade", também conquistou o título, mas abriu uma polêmica. Sob o pretexto de exaltar a cultura africana, a escola homenageou a ditadura da Guiné Equatorial, ao preço de 10 milhões de reais, segundo O Globo, saídos de empreiteiras brasileiras com obras naquele país.

Do puxa-saquismo ao mercenarismo, as agremiações vão se tornando longos e cansativos comerciais do tipo testemunhal ao vivo. Os patrocinadores são fortes, a mercadoria é que é de lascar.