21 Jul 2019

Jô Soares ainda olha para os outros

Por   Sex, 03-Mai-2019
Jô: lição contra o egocentrismo Jô: lição contra o egocentrismo

Depois de publicar o segundo volume de suas memórias, O Livro de Jô, o multihomem Jô Soares resolveu contar histórias de sua vida no palco do teatro Faap, no espetáculo O Livro ao Vivo, de quinta a domingo. Sentado diante da plateia, usando apenas o seu magnetismo pessoal como instrumento, ao lado do jornalista Matinas Suzuki Jr como um "entrevistador", é o mesmo Jô de sucesso garantido: o Jô do teatro, do cinema, das entrevistas e das colunas na imprensa, com inteligência aguda, virtude cada vez mais rara, tão rara quanto fundamental.

Jô diz que o livro não tem a inflexão de voz, o mesmo sopro de vida de quem fala, daí suas "memórias ao vivo". Nos livros ou fora deles, as histórias de Jô são sobre ele mesmo, mas acima de tudo sobre os outros - as pessoas que encontrou pela vida e passaram assim a fazer parte dela. Para Jô, são as pessoas que tornam o mundo interessante. Ele não fala de cidades, paisagens ou ideias. Fala de gente.

Às vezes, é gente famosa, ou importante. Outras, é gente anônima, ou quase anônima, que ele conheceu e chamou sua atenção por algum motivo. Como o português pão duro que pediu desconto para uma prostituta, de quem Jô tirou a inspiração para o bordão "Querias", celebrizado em seus programas de humor.

Nas suas histórias, há gente como Roberto Marinho. E gente que, sem ser conhecida, para ele tem a mesma importância. Ele conta com a mesma graça tanto as histórias de seus sucessos como de suas atrapalhações. Como o dia em que seu patrão, Paulo Machado de Carvalho, mandou-o com um gravador do tamanho de uma mala para o Vaticano entrevistar o Papa, sem nada marcado.

Jô se autodefine como um anarquista, mas ele é um iluminista, muito depois do iluminismo. Algo mais necessário do que nunca, nestes tempos de acesso ilimitado à informação, mas no qual as pessoas querem saber muito pouco além de si mesmas e se fecham no egoísmo individualista supremo.

Entrado na casa dos 80 anos, célebre e coberto de glórias, Jô é quem poderia pensar apenas em si mesmo deixar os outros para lá, na soberba assumida por muitos, com bem menos realizações Do que ele. Jô, porém, ele mantém a curiosidade lúdica de um menino, perguntando, olhando para o outro, aprendendo e se divertindo.

Nestes tempos paradoxais, de informação plena e ao mesmo tempo de obscurantismo, de ódio diante das diferenças, de conflitos e beligerância, Jô Soares permanece como um exemplo de convivência, de tolerância, de liberdade e de humanidade. Ele sabe que, assim como os livros são feitos por pessoas, e é delas que vêm suas ideias e histórias, é do outro, do diferente, que vem sempre o melhor, o mais divertido, o mais interessante. Como artista, seu valor supremo é o ser humano.

Jô teve desde sempre, e manteve, essa sabedoria. O interesse pelo outro é  de onde vem a riqueza da vida. Ao falar de si mesmo, Jô acaba falando de todos os que passaram por sua vida. E, ao falar dos outros, fala tudo de si mesmo -  um farol bem humorado contra a surdez, a cegueira e a ignorância, num país e num mundo tão carentes de iluminação.