2 Jul 2020

Dores do confinamento

Por   Ter, 02-Jun-2020

A luta de um velho contra a monotonia 

Desde março levanto tarde, arrumo a cama, dobro o agasalho (sou velho, mas pijama, não), cuido da higiene pessoal, desço, preparo e tomo o café, lavo a louça, vou para o quintal, ligo o JBL, abro meu celular, coloco música, confiro os emails, confiro minhas publicações e respondo a correspondência, enquanto tomo um banho de sol. Entro, ligo a tevê e me espalho no sofá, zapeio entre CNN, GNews, Fox, canais de esportes.

Almoço, lavo a louça, recolho o lixo da cozinha, dos dois banheiros e do lavabo (terças, quintas e sábados). Mais tarde abrirei o portão com cuidado e porei o lixo pra fora, de olho no cata-velho.

Se dormi mal, tiro uma pestana no sofá vendo o noticiário. Acordo, faço alguma charge ou escrevo uma crônica, volto ao quintal, cuido do pequeno jardim, vejo se as cortadeiras não estão atacando novamente o filhote de manacá da serra, tiro as tiriricas, amaldiçôo os gatos dos vizinhos que pensam que meu canteiro é penico, religo o JBL para ouvir mais músicas (rock dos 60/70, samba, blues, jazz, erudita e umas canções melosas da antiga. Música de velho, Stones, Steppenwolf, Creedence, Candeia, Elton Medeiros, Jorge Pessanha), e tomo mais um pouco de sol.

Abro uma Heineken ou pego uma taça de tinto, vejo as redes sociais. Tomo conhecimento das novas sandices do maluco do Planalto, os aplausos do rebanho, respondo a algumas provocações, mando alguns pra ponte que caiu, observo os bem-te-vi, sanhaços, almas-de-gato, sabiás, do campo e laranjeiras, rolinhas e caga-sebos. Boto o pio das cambacicas do Youtube na caixa de som e enlouqueço o casalzinho que todo ano faz seu ninho nos galhos protegidos da camélia, exibida com suas centenas de flores.

Releio algum dos meus favoritos, Machado, Graciliano, Faulkner, Hemingway, J. Joyce, João do Rio, Lima Barreto, Verissimo, Rosa, Steinbeck, H. James, Lins do Rego. Literatura de velho. Encerro o expediente vendo o sol se pôr atrás do morro, tomado de uma melancolia ditada pelo isolamento e pelos desmandos e destemperos do homem do Planalto e do aplauso de seus bajuladores. Democracia em risco é coisa depressiva para quem cresceu sob ditadura.

Entro, tomo um banho cantarolando um velho samba que cometi no passado, desço, passo o café e como um lanche leve vendo o noticiário. Volto à internet, vejo mais notícias, posto alguma coisa nos meus blogues ou no Face (muita coisa para não perder o hábito), boto foto ou charges no instagram, busco notícias na Veja, Estadão, NYTimes, G1, WalesOnline, miscelânea da imprensa internacional e local.

Vejo o Jornal da Band, o Jornal Nacional, o Jornal das 10, entro pela madrugada assistindo a documentários da Nat Geo, encerro vendo reprises do CSI, Mistérios do Detetive Murdoch, Chicago P. D., Big Bang Theory, Two and a Half Men e Vídeos Mais Idiotas do Mundo.

Vão achar tosco, mas as opções são Velozes e Furiosas 200, Pânico no Lago ou Tudão MTV. Adormeço no sofá.

Acordo, subo para o quarto, boto uma música em baixíssimo volume no meu iPhone, durmo. E dizem que ficar em casa “sem fazer nada” não cansa.

Se estivesse na praia, traindo o isolamento, logo cedo pisaria a areia. Depois de uns mergulhos, abriria uma gelosa e cochilaria à sombra, ao som das ondas quebrando logo ali, e sentindo a brisa marinha no rosto. Esquecido da peste, mas preocupado com o momento político. Triste com a marcha da insensatez.

Não é nada, mas é mais um dia sem pegar a Covid-19, que na minha idade é muito. Em São Paulo, a 50 metros do boteco fechado, a 600 quilômetros da praia que escolhi para estaleiro desse esqueleto usado, mas bem conservado.

God bless.