19 Nov 2019

Craques e pernas de pau

Por   Qua, 06-Nov-2019

O Brasil na era do futebol cabeça

Técnico ganha jogo? Esquema tático garante campeonato? Ou será que só bons jogadores garantem o sucesso de uma equipe?

O atual campeonato brasileiro tem mexido com a cabeça da crônica esportiva, dos dirigentes e dos técnicos. Uns defendem o futebol de posse de bola, muita troca de passes, até surgir uma brecha na zaga adversária para penetração e arremate ao gol. Como faz o Barcelona.

Outros preferem o futebol vertical, de Real Madrid, que investe na velocidade e na economia de passes da defesa até o ataque. Há ainda um terceiro modelo, inspirado no Catenaccio italiano, que privilegia uma forte defesa seguida de escassos contra-ataques, sempre com segurança.

Qual é o melhor sistema? Parece óbvio: qualquer um deles, desde que esteja dando resultados. Mas nem todo mundo pensa assim. A demissão do técnico do Corinthians, um retranqueiro que até aqui era vencedor, e o sucesso do Mister Jesus, o português ofensivo do Flamengo, recolocam em discussão a identidade do nosso futebol.

A escola gaúcha (ou italiana) de Tite, Felipão e Mano Menezes, tem uma história de sucesso. É com ela que o Grêmio se firmou como time copeiro e o Timão andou botando a mão em diversas taças. É o futebol de resultados. Foi com ele, e seus dois volantes de contenção, que Parreira abiscoitou o tetra mundial.

Mas o modelo, que monta o time da defesa para o ataque, privilegiando a segurança e apostando no contra-atraque, parece estar em baixa. Felipão foi defenestrado no Palmeiras, Mano Menezes zarpou do Cruzeiro e Carille dançou no Corinthians. Ao mesmo tempo, o Grêmio de Renato Gaúcho, rompendo com a tradição trancada dos sulistas, tem sido eficiente praticando um futebol mais ofensivo e que privilegia a posse da bola.

Xodó da imprensa esportiva, Fernando Diniz, é defensor desse futebol de toque e posse de bola, semelhante ao sistema do Barcelona, mas fracassou no Fluminense e mesmo assim foi chamado para endireitar o São Paulo. Se tivesse um Messi e uns dois Iniestas dos bons tempos, provavelmente teria sucesso.

De qualquer modo, no tricolor paulista ele terá um esquadrão com maior potencial técnico e quem sabe consiga em algum tempo realizar o que a crônica espera dele.

É nesse contexto que o futebol vertical do Flamengo e do Santos - times dirigidos pelos forasteiros Jorges (Jesus e Sampaoli) - inspirado, talvez, no “Kloppismo” (de Jürgen Klopp, técnico do Liverpool, campeão europeu) tem-se destacado.

Com dinheiro, o que lhe permitiu tirar dos santistas seus dois atacantes (Gabigol e Bruno Henrique), o Flamengo disparou na liderança e só um desarranjo daqueles poderá tirar-lhe o título. Já o Santos, com um bom time, mas plantel limitado, terá de se contentar com uma classificação direta para a Libertadores.

Discutir sistemas de jogo e táticas é útil, para começar, mas não é tudo. Para que funcione é preciso ainda que o técnico tenha domínio do assunto. Mas isso também não adiantará se no plantel ele tiver um bando de pangarés ou um quadro de jogadores cujas características não ajudem na sua implantação.

Não adianta adotar o sistema dos dois treinadores estrangeiros, se o caixa dos clubes está vazio e o vestiário ocupado por atletas meia boca. O que todos precisam entender é que qualquer modelo pode levar ao sucesso, se puder contar com atletas que possam assimilar sua lógica e executar o que o mestre manda.

Com um elenco limitado e caixa vazio não há filosofia de jogo que resolva. Quando pensar que tem nas mãos um esquadrão como o da Holanda dos Abóboras Selvagens, poderá estar dirigindo um tremendo boi-com-abóbora mal temperado e sem futuro.