17 Out 2019

Coringa e a elegia do bandido

Por   Seg, 07-Out-2019
Phoenix, no papel: longe do mundo melhor Phoenix, no papel: longe do mundo melhor

Nestes tempos de poucas esperanças e desânimo com o poder público, a estreia do filme Coringa, estrelado por Joachin Phoenix, acaba sendo mais que um passatempo ou diversão. A partir da história original dos quadrinhos, os diretores Todd Phillips e Scott Silver criaram uma peça que ronda um tema importante e perigoso para os dias de hoje: a revolta dos oprimidos, que justifica o crime e alimenta as rebeliões coletivas.

Coringa explora um tema sensível, que já fez o sucesso de grandes obras, como A Sangue Frio, um clássico da reportagem literária, de Truman Capote. Ao investigar um  crime bárbaro numa cidadezinha do interior americano, Capote desvela como, mesmo por trás do pior assassino, existe um ser humano. Trazer à tona esse aspecto de seus terríveis personagens, ao ponto da compaixão, abalou Capote, que entrou num processo depressivo terminado somente com sua morte.

No caso de Coringa, em que pese se tratar de uma ficção baseada em velhos gibis, o substrato é o mesmo - e bem real. Numa Gotham City decadente, um candidato a comediante com problemas mentais é espezinhado pela sociedade até acreditarmos que sua raiva contra o mundo faz sentido. É fácil, porque todo mundo já foi maltratado pela realidade dessa forma alguma vez.

Assim, o filme cria uma empatia do público com o Coringa, apesar da esperada escalada de loucura e violência na história. O Coringa contagia a sociedade de Gotham, que tem muito em comum com a sociedade contemporânea, cansada da pressão, da miséria e do descaso do poder público, isto é, de um mundo incapaz de resolver seus problemas e de tratar os necessitados e oprimidos com humanidade.

A saída, como o próprio Coringa involuntariamente conclui, é a violência. Na explosão bestial da raiva, que toma tanto o interior perturbado do personagem como a cidade em convulsão, está a única resposta para a opressão. Contra o ódio, não há nada a fazer, exceto a liberação da loucura em estado puro, em confronto com a lei e a ordem.

Com inteligência, os diretores manipulam ingredientes como a crueldade da mídia e os fatores psicossociais que tiram um indivíduo do bom caminho para sua transformação num assassino serial. Contribui a brilhante atuação de Phoenix, um ator literalmente em carne e osso, que leva ao limite as possibilidades dramáticas do personagem - do cacoete que o faz rir quando sofre aos trejeitos que refletem as esperanças perdidas de quem sabe que não terá nenhuma chance.

Coringa é um filme que dá vontade de sair na rua com um pau na mão, quebrando tudo o que há pela frente. Estimula, na vida real, a mesma coisa que acontece na ficção. É um ode à rebeldia, à loucura, à explosão.

Na loucura, tanto a individual quanto a coletiva, perde-se o senso do limite. E com ela, abre-se diante de nós o pesadelo antevisto por Hobbes no Leviatã: o "homo homini lupus", "o homem é o lobo do homem".

Uma realidade que parece bater à porta não de Gotham City, e sim da sociedade contemporânea, na qual o Estado permitiu o crescimento do crime e da miséria e patrocina o fim das ilusões para os que acreditavam que estávamos perto de um mundo melhor.