28 Nov 2021

Witzel: será o sistema, ou uma maldição?

  Qui, 11-Jun-2020
O governador: mais um na lista O governador: mais um na lista

O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, conseguiu passar na frente do presidente Jair Bolsonaro na lista dos candidatos a cair antes da hora. Eleito justamente pelo perfil linha dura, do tipo que promete combater a corrupção com fala grossa, Witzel levantou suspeitas de participar de um esquema de superfaturamento de equipamentos comprados para hospitais no Covid-19, que envolvem a empresa de sua mulher, conforme indícios colhidos por investigadores da Polícia Federal. As coisas também desandaram na secretaria da área econômica. E a Assembleia Legislativo do Rio de Janeiro decidiu abrir um processo de impeachment, por unanimidade, o que não é um bom começo para ele.

Em vez de endireitar o estado, Witzel está mais perto agora de entrar para a longa linhagem de ex-governadores fluminenses com histórico criminal. Já foram presos por corrupção os cinco últimos a ocupar o cargo: Anthony Garotinho e sua mulher, a também ex-governadora Rosinha Garotinho, Luiz Fernando Pezão, Sérgio Cabral e Moreira Franco. 

Witzel está concorrendo seriamente para ser o sexto da lista. O presidente da Alerj, André Ceciliano, poderia abrir o processo de forma autocrática, mas abriu a decisão para votação em plenário e todos os 69 deputados presentes votaram pela instauração do processo. "Quero tomar uma decisão conjunta e essa decisão não significa um pré-julgamento", disse Ceciliano. "A gente precisa dar uma posição pra sociedade.

As investigações começaram com um dossiê contra o ex-secretário de Desenvolvimento Econômico, Lucas Tristão. em seguiida, a Operação Placebo, da Polícia Federal, que investiga suspeitas de desvios na construção de hospitais de campanha, envolvendo um pagamento de 500 mil reais à empresa da primeira dama do estado, indicou um "provável envolvimento da cúpula do Poder Executivo no esquema". Witzel demitiu Tristão, como forma de atenuar sua situação, mas novos detalhes do esquema vieram à tona. Pelo conjunto da obra, o governador acaba indo para o pau.

A aceitação da denúncia significa que Witzel terá 10 sessões em plenário para defender-se. Uma Comissão Especial emitirá seu parecer sobre admissibilidade da denúncia em até 5 sessões, contadas a partir do recebimento da defesa. Caso a defesa não se manifeste, o parecer é emitido em dez sessões.

O parecer da Comissão Especial é lido no plenário e incluído na votação da ordem do dia. Para se seguir com o processo de impeachment, serão necessários 36 dos 70 votos em plenário, isto é, a maioria absoluta.

"Recebo com espírito democrático e resiliência a notícia do início da tramitação do processo de impeachment", disse Witzel, em nota. "Estou absolutamente tranquilo sobre a minha inocência. Fui eleito tendo como pilar o combate à corrupção e não abandonei em nenhum momento essa bandeira. E é isso que, humildemente, irei demonstrar para as senhoras deputadas e senhores deputados."

Fica a pergunta sobre o que acontece, afinal, no Rio de Janeiro. Pode ser que Witzel saia livre. Até o final do inquérito, certamente, ele permanece inocente, graças ao benefício da dúvida - e a necessidade do cumprimento de todo o rito até a sentença final.

Ainda assim, fica a pergunta: no Rio de Janeiro, como de resto no Brasil, o sistema é assim corruptor de tal forma que ninguém escapa, o mau-caratismo é algo inato no brasileiro, ou será alguma maldição?