2 Jul 2020

Wasseff vira chave nas investigações sobre os Bolsonaro

  Seg, 22-Jun-2020
Wasseff: muito a explicar Wasseff: muito a explicar

O advogado Frederick Wassef, advogado de Flávio Bolsonaro e do presidente Jair Bolsonaro, com quem se reunia regularmente, anunciou no domingo ter deixado a defesa do senador, por conta das investigações sobre os negócios em dinheiro vivo realizados em seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Wassef, que abrigava em seu sítio em Atibaia o ex-chefe de gabinete de Flávio e amigo histórico do presidente da República, Fabrício Queioz, tornou-se agora chave e ele mesmo suspeito na apuração dos negócios da família Bolsonaro. 

O presidente soprou um afastamento voluntário de Wasseff - tão próximo que na semana passada, uma dia antes da prisão de Queiroz em seu sítio, estava na posse no novo ministro da Comunicação, na companhia do próprio Bolsonaro. De acordo com a colunista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, o presidente teria dito a colaboradores próximos estar "de saco cheio" de Wasseff, que andaria falando demais publicamente sobre todo a situação.

No meio de uma série de entrevistas para explicar-se, sem explicar nada, Wasseff anunciou no domingo que deixava a defesa de Flávio justamente para evitar a associação do seu nome e das operações de Queiroz e Flávio com o presidente. Flávio contratou outro advogado, Rodrigo Roca, para seu lugar. Entre outros clientes, Roca é também o advogado do ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, preso por corrupção.

Wasseff declarou que o presidente e Flávio não sabiam que escondia Queiroz em seu sítio. É um testemunho de pouca credibilidade, já que declarou por diversas vezes também que não sabia do paradeiro de Queiroz, que tinha ordem de prisão decretada devido às suas tentativas de obstruir a investigação e não comparecer a depoimentos.

Em live na quinta-feira passada, o presidente Bolsonaro disse que Queiroz não era "procurado". Das duas, uma: mentiu publicamente, ou está muito mal informado - talvez por receber apenas informes da Abin, segundo ele mesmo, ou não gostar do trabalho da imprensa. De qualquer forma, nenhuma hipótese - a do mentiroso, ou do ignorante - agrada.

A Polícia Civil do Rio de Janeiro verificou a entrada de mais de 2 milhões de reais no gabinete de Flávio Bolsonaro, cujas contas eram operadas por Queiroz. Uma parte desse dinheiro vinha da devolução pelos funcionários de gabinete de parte de seu salário - a trucagem conhecida como "rachadinha". 

De acordo com as investigações, pelo menos 400 mil reais teriam vindo de depósitos do capitão Adriano, um dos chefes da quadrilha de justiceiros a serviço das milícias do Rio de Janeiro, conhecida como o Escritório do crime. Conviveu com Queiroz, que é um ex-PM, e teria sido seu subordinado na corporação. Tinha a mãe e a ex-mulher empregados no gabinete de Flávio, era suspeito de envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco, em março de 2016, e foi morto ao ser encontrado pela polícia, em janeiro, em um sítio na Bahia.

Esse conjunto de pessoas e circunstâncias fala muito mal a respeito dos negócios dos Bolsonaro. Ainda que as investigações se concentrem no momento sobre o filho senador, o presidente aparece muito mal na fotografia, pelas audiências concedidas a Wasseff, assim como sua antiga amizade com Queiroz, de quem foi companheiro de caserna, assim como de pescarias, fartamente registradas em fotos que circulam pela internet .

Os investigadores descobriram que Queiroz pagava despesas familiares de Flávio em dinheiro vivo. E sabe-se que a base eleitoral de Bolsonaro sempre foi ligada ao meio policial no Rio de Janeiro. A questão agora é verificar a extensão das relações entre os negócios do capitão Adriano e o financiamento de políticos, por meio dos amigos em comum.

Como uma das chaves do esquema, Wasseff diz agora que não é o "Anjo", figura que aparece nas conversas de Whatsapp de Queiroz e seus familiares, assim como na comunicação de outros envolvidos nos negócios do gabinete de Flávio. Se não é o anjo, posa como tal.

"O objetivo disso é destruir a minha imagem", disse ele, no final de semana. Não explicou, contudo, o que Queiroz fazia em sua casa, nem por que deixaria de conversar sobre esse assunto com o presidente, a quem representava na contestação ao Ministério Público Federal, no caso que investiga o atentado cometido por Adélio Bispo ciontra Bolsonaro, na campanha presidencial.

"Conheço as forças que estão unidas para tentar fazer mal a mim e consequentemente atingir o presidente da República", afirmou ele, no sábado, à TV Globo.

Ao renunciar, em 1961, o presidente Jânio Quadros, outro populista com pendores autoritários que não conseguia passagem para aprovar suas ideias antidemocráticas no Congresso, acusou também "forças terríveis" contra ele, em sua carta de renúncia. A desculpa dos incompetentes é sempre os outros. A dos corruptos, também.