16 Nov 2019

The_Intercept passa de investigador a investigado

  Qui, 13-Jun-2019
Greenwald: corrida por apoio Greenwald: corrida por apoio

A Polícia Federal começou um trabalho de identificação do método e dos autores do hackeamento dos celulares dos integrantes da operação Lava Jato, cujo conteúdo passou a ser publicado pelo site The_Intercept. As mensagens privadas e de grupos da força-tarefa no Telegram de 2015 a 2018 podem ter sofrido escuta por parte de envolvidos nos casos de corrupção investigados pela Lava Jato, por agentes do próprio governo, que também eram investigados, ou forças políticas ameaçadas pelo trabalho da Justiça. The_Intecept passou a distribuir trechos que o próprio site seleciona para distribuir a outros jornalistas e veículos de imprensa e seu editor, o inglês Glenn Greewald, passou a procurar outros veículos de imprensa para obter apoio público.

Segundo o jornalista Reinaldo Azevedo, o The_Intercept lhe repassou uma das conversas parciais que procura disseminar - uma frase de Moro dizendo ao coordenador da Lava Jato em Curitiba, o procurador Deltan Dallagnol, "In Fux we trust", referência ao ministro do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux. Na hora do almoço de quinta-feira, Greenwald deu uma entrevista ao programa Pânico, na Rádio Jovem Pan, também para defender a divulgação dos áudios.

O site procura apoio midiático por estar agora no alvo da Polícia Federal, cujos agentes identificaram até agora que as conversas capturadas pelos hackers publicadas até agora saíram do celular de Deltan Dallagnol. A princípio, não foi identificado grampo no celular do ministro Sergio Moro. 

Quatro inquéritos foram abertos para apurar a invasão digital, em Brasília, no Rio de Janeiro, em Curitiba e em São Paulo. Nessas conversas, Deltan Dallagnol discute com Moro e outros promotores os processos em andamento e comentam pedidos feitos à Justiça pelo Ministério Público Federal.

Para a Polícia Federal, a invasão foi feita por um único grupo, que tinha a Lava Jato como alvo. Além de Deltan, foram hackeados três outros procuradores de Curitiba, três procuradores do Rio, dois de São Paulo, quatro de Brasília, o juiz Flávio de Oliveira, do Rio, a juíza Gabriela Hardt, de Curitiba, o desembargador Abel Gomes, relator da Lava Jato do Rio em segunda instância, e o ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot.

De acordo com investigadores, os hackers entraram no Telegram, aplicativo de mensagens semelhante ao WhatsApp, supostamente mais seguro. Os invasores teriam usado uma ferramenta que obtém dados do usuário, de forma a acessar o aplicativo ao mesmo tempo em que o próprio dono. Dessa forma, configura-se não a cópia ou o vazamento, e sim o grampo.

Rastro

A investigação procura agora o rastro dos autores do grampo, com auxílio da perícia nos celulares das vítimas. Pelo Twitter, o Telegram informou que não há evidências de que seu sistema tenha sido hackeado, o que reforça a teoria de que o grampo tenha se dado pelo próprio celular.

Os procuradores da Lava Jato consideraram o grampo um "ataque criminoso à Lava Jato". Moro negou que haja no conteúdo do celular "qualquer anormalidade ou direcionamento" da sua atuação como juiz. Juristas que examinaram o conteúdo do material publicado pelo The_Intercept emitiram o mesmo parecer (leia aqui). Porém, se não há crime no conteúdo, a revelação de conversas privadas é.

O The Intercept informou ter acesso às mensagens por meio de uma fonte anônima e alegou sigilo de imprensa para não revelar sua origem. Isso, porém, não elimina o crime cometido pelos hackers.