6 Jun 2020

Sobre vivandeiras de quartel, Castelo e a Doutrina VB

Por   Ter, 21-Abr-2020
Villas Bôas: moderação Villas Bôas: moderação

Em agosto de 1964, quando o novo regime ainda se consolidava numa ebulição de interesses e possibilidades, um punhado de políticos civis visitava quartéis a fim de instigar militares a asfixiar o que restava da oposição e endurecer as regras do jogo (quase) democrático -- o que de fato viria a acontecer,  aos poucos, a prestações, até a instauração da autocracia oficial em dezembro de 1968, com o AI-5. 

Foi quando o marechal-presidente Castelo Branco, um intelectual do grupo mais liberal do Exército, veio a público denunciar as conspirações e marcar sua posição em defesa da democracia: "Eu os identifico a todos. São muitos deles os mesmos que, desde 1930, como vivandeiras alvoroçadas, vêm aos bivaques bolir com os granadeiros e provocar extravagâncias ao Poder Militar".

Ao longo de 2016, na ebulição de interesses e possibilidades que surgiram no processo de impeachment de Dilma Roussef e a consolidação de Michel Temer, outro punhado de políticos e civis foram às ruas com carros e som e voltaram a bater às portas dos quartéis pedindo a intervenção militar. Eles pregavam abertamente o fechamento do Congresso e a volta dos militares, até se autodenominavam "intervencionistas".

Foi quando o comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas, militar moderado e que, tal qual Castelo, tinha de muitas leituras, pensamento estratégico e opção ideológica liberal, veio a público se posicionar sobre a volta da ditadura:
“A chance de voltarmos é zero. Aprendemos a lição e estamos escaldados (…) Mas há malucos e tresloucados civis que batem à porta pedindo intervenção militar”.

Por conta das circunstâncias do nosso tempo, Villa Bôas, chamado por seus pares de VB, acabou por forjar doutrina e jurisprudência que se tornou hegemônica no Exército e, por extensão, nas três Forças Armadas: o diálogo permanente dentro das regras democráticas e o respeito absoluto à Constituição e às Leis como único caminho possível ao Exército.

Em seu tempo de comando, VB também buscou descolar a Força Terrestre, a qual ele chama de "Exército de Caxias" (O Pacificador), das idiossincrasias dos governos Dilma e depois Temer. Ao que tudo indica, tanto o atual ministro da Defesa quanto os três comandantes militares do governo Jair Bolsonaro estariam alinhados com a Doutrina VB. Em outras palavras, com a defesa intransigente da Democracia e da Constituição vigente.

Neste conturbado início de 2020, quando uma ebulição de interesses econômicos e de possibilidades políticas dilaceram o país, os intervencionistas voltaram a bater às portas dos quartéis. O fato relevante ocorreu no domingo 19 de abril, em frente ao Quartel General do Exército em Brasília.

As vivandeiras eram muito poucas na multidão de manifestantes. Mas o presidente da República esteve lá presente. Não falou nada demais, só algumas obviedades. Contudo, o garoto da câmera escalado pelo filho Carlos pegou justamente o único ângulo no qual uma única faixa e quatro ou cinco cartazes intervencionistas apareciam ao fundo do presidente.

A imagem foi divulgada pelas redes sociais de Bolsonaro. Mesmo que ele não tenha defendido da ditadura em palavras explicitas, aquela metalinguagem foi obviamente provocativa, prevaleceu a velha máxima de que "uma imagem vale mais do que mil palavras". Deu confusão.

Bolsonaro e o ministro da Defesa já deram declarações oficiais (e também informais) colocando os pingos nos iis. Contudo, pertinente relembrar a todos das posições públicas do marechal Castelo Branco e do general Villas Bôas em defesa da Democracia e das regras do jogo.

A meus amigos, que fique bem claro de que lado estou. Sou um clássico, e como tal, lembro as palavras de Sócrates no instante no qual tomou cicuta: "A democracia de faz com respeito às Leis!"