28 Nov 2021

Prisão de Queiroz coloca Bolsonaro na hora da verdade

  Qui, 18-Jun-2020
Queiroz é preso: conexão com o presidente Queiroz é preso: conexão com o presidente

Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro, e amigo dos tempos de caserna do presidente Jair Bolsonaro, foi preso na manhã desta quinta-feira, em Atibaia, no interior São Paulo, em um sítio que pertence a Frederick Wassef - advogado do presidente e de Flávio. Foragido da Justiça, Queiroz estava há mais de um ano no sítio de Wassef, que na quarta-feira se encontrava na posse novo ministro das Comunicações, Fabio Faria, junto com o presidente.

Com isso, a investigação sobre os negócios familiares de Bolsonaro no Rio avança e se junta à decisão colegiada do Supremo Tribunal Federal, também na quarta-feira, de seguir nas investigações sobre as manifestações contra os integrantes do tribunal, que seriam orquestradas a partir do Palácio do Palácio. E mostra que Bolsonaro, depois de bater no peito durante a semana, dizendo que está chegando a "hora da verdade", vê a hora se aproximar - mas para ele mesmo.

Fiel ao seu discurso, que ignora as fake news patrocinadas pela sua militância e atribui a crise a um movimento orquestrado politicamente, Bolsonaro age mais como o indivíduo que se vê prestes a ser apanhado em flagrante e passa a atirar para todos os lados. A presença de Queiroz no sítio de seu advogado revela apenas o quanto ambos ainda são conectados.

Parlamentares repercutiram as circunstâncias da prisão. "É um escândalo!", escreveu a deputada federal Sâmia Bomfim. "Finalmente foi preso o Queiroz, dois anos depois de descoberto o esquema da rachadinha", afirmou Paulo Queiroz. "Grande dia para a Justiça", tuitou Kim Kataguiri.

Em vez de responder pelos fatos, Bolsonaro teria reclamado a assessores no Planalto de um "cerco jurídico" para tirá-lo da presidência.  "Mais uma peça movimentada no tabuleiro para atacar Bolsonaro", escreveu no Twitter Flávio Bolsonaro. 

A operação da prisão de Queiroz foi realizada pela Polícia Civil às escondidas da própria Polícia Civil, cujos agentes não sabiam a identidade do preso, até o momento da prisão. Sabe-se hoje que Flávio tinha conhecimento prévio em novembro de 2018 das operações que investigariam seu escritório na Alerj, durante a campanha eleitoral, por meio de policiais que vazaram a informação, no final postergada para depois do pleito.

"Não demos ciência para os policiais para não haver nenhum tipo de vazamento, nada", afirmou o delegado da Polícia Civil de São Paulo Osvaldo Nico Gonçalves, que participou da chamada "operação Anjo". "Ontem fomos contatados pelo delegado geral, que recebeu a missão do Ministério Público, e nós a cumprimos com êxito. A gente fez um briefing hoje por volta de 4 horas na nossa sede e seguimos pro local junto com os promotores públicos."

Busca em casa

O Ministério Público promoveu também buscas e apreensão em imóveis relacionados à investigação, entre eles  um sobrado de propriedade do próprio presidente, em Bento Ribeiro, na zona norte do Rio, conforme declaração de bens entregue à Justiça Eleitoral em 2018. Foi utilizado pelo menos desde 2010 como escritório político e comitê das campanhas eleitorais de Bolsonaro e seus filhos.

O imóvel seria ocupado agora por Alessandra Esteves Marins, assessora do escritório parlamentar de Flávio Bolsonaro no Rio, que também é investigada. O MP arrolou na investigação também o servidor da Alerj Matheus Azeredo Coutinho, a ex-funcionária de Flávio na Alerj, Luiza Paes Souza, e o advogado Luis Gustavo Botto Maia. Além da esposa de Queiroz, Márcia.

Somente a configuração de pessoas, negócios e imóveis sugere que os negócios dos filhos do presidente e do próprio presidente são um só. Foi o caseiro do sítio de Atibaia, que mora na propriedade, quem afirmou que Queiroz se encontrava lá há cerca de um ano.

Queiroz é peça chave na operação dos negócios dos Bolsonaro no Rio de janeiro. Empregava no gabinete de Flávio a mulher e a mãe do miliciano Adriano da Nóbrega, que acabou morto pela polícia da Bahia em fevereiro, quando se encontrava foragido. Nóbrega era apontado como um dos suspeitos de assassinar a vereadora Marielle Franco, no Rio.

"Pólvora"

Nesta quinta-feira, Bolsonaro não apareceu na saída do Palácio do Alvorada para falar com militantes, como faz todos os dias. No Palácio do Planalto, a prisão de Queiroz foi tomada como "pólvora", segundo uma fonte da repórter da Folha de S. Paulo, Carla Araújo.

Bolsonaro já manifestou várias vezes que a investigação lhe tira o sono. Ainda mais pelo fato de que recai diretamente sobre um filho. Colaboradores do presidente lamentavam também o fato de Queiroz ter sido preso no imóvel de alguém ligado ao presidente. "Tanta cidade para se refugiar, descansar e se tratar, tinha de escolher Atibaia", disse um deles.

A Bolsonaro, nos seus arroubous autoritários, falta crença de que a Justiça pode ser feita também contra ele. Assim como ocorreu com Lula, é o efeito do poder: o poderoso acredita que fica acima de tudo e de todos. Geralmente, esse é o começo do fim.