17 Out 2019

PF investiga uso de laranjas em favor de Bolsonaro

  Dom, 06-Out-2019
Bolsonaro: campanha sob suspeita Bolsonaro: campanha sob suspeita

Uma reportagem do UOL indica que uma investigação da Polícia Federal teria descoberto, por meio de depoimentos e documentos, que o laranjal do PSL teria beneficiado também a campanha do presidente Jair Bolsonaro - além do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio. Segundo a reportagem, Haissander Souza de Paula, assessor parlamentar de Antônio, coordenador de sua campanha a deputado federal no Vale do Rio Doce (MG), disse em seu depoimento à PF que "acha que parte dos valores depositados para as campanhas femininas, na verdade, foi usada para pagar material de campanha de Marcelo Álvaro Antônio e de Jair Bolsonaro".

A Folha teve acesso a uma planilha, nomeada como "MarceloAlvaro.xlsx", onde se encontram referências ao fornecimento de material eleitoral para a campanha de Bolsonaro com a expressão "out" - o que significa pagamento "por fora". "A Folha avançou todos os limites, transformou-se num panfleto ordinário às causas dos canalhas", reagiu o presidente pelo Twitter. "Com as mentiras já habituais, conseguiram descer às profundezas do esgoto."

Antônio já foi indiciado na semana passada no inquérito que investiga o desvio pelo PSL em 2018 de recursos que, por lei, deveriam ser aplicados em candidaturas de mulheres. Deputado federal mais votado em Minas Gerais, o ministro coordenou a campanha presidencial de Bolsonaro no estado.

Em tese, Bolsonaro poderia nem sequer estar sabendo do que acontecia em Minas Gerais. Porém, a demora em demitir o ministro após a denúncia e agora o indiciamento, diferentemente do que aconteceu com Gustavo Bebbiano, outro cacique do PSL, defenestrado logo no começo do governo, sugere um apoio maior do presidente a Antônio.

"[Antônio] não chegou ao final da linha", disse o presidente. "Se for algo de grave, substancioso, a gente toma uma decisão. Ele está fazendo um brilhante trabalho."

Antônio responde agora pela acusação de crime de falsidade ideológica eleitoral, apropriação indébita de recurso eleitoral e associação criminosa — com pena de cinco, seis e três anos de cadeia, respectivamente. Ele nega ter cometido qualquer irregularidade, mas o laranjal do PSL acabou fritando a imagem pública do partido sobre o qual Bolsonaro construiu sua plataforma de moralização do dinheiro público no país.

Haissander foi preso por cinco dias no final de junho, com outros dois investigados. No seu depoimento, ele afirma que uma das candidatas, Lilian Bernardino, "com certeza" não gastou os R$ 65 mil que recebeu do fundo de campanha.

No total, quatro candidatas-laranja do PSL mineiro receberam R$ 279 mil de verba pública do partido e tiveram 2.074 votos. Parte do dinheiro passou pelos gabinetes de Antônio.

O ministro da Justiça, Sérgio Moro, minimizou o episódio. "@jairbolsonaro fez a campanha presidencial mais barata da história", afirmou neste domingo pelo Twitter. "Manchete da Folha de São Paulo de hoje não reflete a realidade."

Não se trata da quantidade de dinheiro - até porque o esquema de laranjas do PSL não se resumia a Minas Gerais, sendo praticado em outros casos onde a investigação avança, como em Pernambuco. E sim da forma que ele entrou. Um sinal de que, apesar dos discursos moralizadores, pouca coisa melhorou no comportamento político brasileiro, incluindo o hábito de jogar a culpa na imprensa.