2 Jul 2020

Pandemia acelera taxa de mortalidade no governo

  Sex, 15-Mai-2020
Pazuello: correndo o risco de ficar Pazuello: correndo o risco de ficar

A pandemia aumentou a taxa de mortalidade no governo, que já era alta, mas subiu exponencialmente. A última vítima da exposição à convivência com o presidente Jair Bolsonaro foi o ministro Nelson Teich, segundo a sair da pasta da Saúde em menos de um mês. No meio disso, Bolsonaro achou tempo de livrar-se do ministro da Justiça, Sérgio Moro, abrindo uma batalha para explicar seus interesses em mudar o comando da Polícia Federal.

Teich pediu demissão por não concordar com o uso precoce de hidroxicloroquina no protocolo de tratamento do Covid-19, contra as indicações da medicina, assim como ocorreu com seu antecessor, Luiz Henrique Mandetta. Bolsonaro segue com sua ideia de que os ministros não passam de meros executores de suas ideias e quem o contraria é simplesmente eliminado, ainda que esteja em defesa da vida.

No lugar de Teich, ficou interinamente o secretário executivo da pasta, o general Eduardo Pazuello, ex-coordenador da operação de acolhimento de refugiados na fronteira com a Venezuela, colocado no cargo para fazer valer as determinações do comandante, transformando o ministro num personagem de fachada.

Pazuello é mais um militar amontoado no alto escalão do governo. Corre o risco de ficar com o cargo. Bolsonaro recorre aos militares por uma simples razão. Por dever de ofício, são os únicos que se subordinam incondicionalmente, não importa qual é a ordem, treinados que são para serem comandados a ir, até mesmo, à morte. 

Já Teich não quis ser responsabilizado pelo que não estava em suas mãos. Até tentou um caminho conciliatório entre os desejos do presidente e as evidências científicas. Procurou criar um plano de liberação de municípios do isolamento, de acordo com uma avaliação da situação local. 

A ideia não prosperou. De um lado, o plano era difícil de administrar, E secretários de estados e municípios acreditam que, no momento de contaminação ainda rumando para o pico, não é hora para qualquer tipo de flexibilização. Teich teve que abortar a ideia. Cancelou na quinta-feira passada a entrevista coletiva em que iria anunciar o plano, apenas 10 minutos antes da hora marcada.

"Difícil"

Teich teve que recuar, mas não foi só isso que determinou sua queda. Bolsonaro queria a hidroxicloroquina - e ele, como médico, não tinha como atender o presidente. A amigos, chegou a queixar-se um dia antes de sua demissão que estava "difícil conciliar os desejos do presidente com a realidade". Na sua despedida, nesta sexta-feira, disse que tinha aceitado o cargo porque acreditava que ainda poderia ajudar "o Brasil e as pessoas".

Afirmou que a decisão de sair foi dele. E defendeu o peso de estados e municípios nas decisões da política de combate à pandemia. "A missão da saúde é tripartite, envolve o conselho nacional, o conselho das secretarias municipais e as secretarias [estaduais] de saúde", disse ele. "Isso é importante se deixar claro. O ministério acha que essa relação é verdadeira e essencial para conduzir o país, tanto na parte estratégica quanto na execução."

Na prática, quem comandava o ministério já era Panzuello. Na quinta-feira, o ministro foi informado pela imprensa de que Bolsonaro tinha modificado a lista de áreas consideradas "essenciais", para que pudessem voltar ao trabalho - incluiu nesse rol as academias de ginástica, barbearias e cabeleireiros.

A saída de Teich abriu nova crise, o que, no governo Bolsonaro, já não pode ser chamado de crise, já que a turbulência é tão constante que se torna um sistema de trabalho. Porém, mesmo seus aliados do Centrão criticaram mais essa sacudida, estremecendo a relação com o governo.

Rejeição de 65%

Líderes do Centrão divulgaram notas lamentando a saída de Teich. Um deles, o deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força (Solidariedade-SP), preferiu a ironia ao criticar os "impulsos" do presidente. "Saiu quem não tinha entrado", escreveu. "Hoje, o ministro da Saúde, Nelson Teich, pediu exoneração do cargo, mas, não sei se alguém percebeu, já não fazia diferença."

"Diante das imposições do presidente, só topará ser ministro da Saúde quem não tiver compromisso com a ciência e nem com a medicina", afirmou o deputado Marcelo Ramos (PL-AM). "O pedido de demissão do ministro demonstrou que ele tem."

Uma hora depois da demissão de Teich, a empresa de pesquisas AP Exata fez um levantamento-relâmpago e apurou que a rejeição a Bolsonaro nas redes sociais chegou a 65% da população - um aumento de 11 pontos em relação à amostragem anterior.

As idas e vindas mostram que o governo federal está perdido, mesmo com o apoio dos militares que formam sua cúpula - eles mesmos obrigados a dar explicações sobre as decisões do presidente a todo momento. Assim, Bolsonaro vai sendo obrigado a dividir o governo entre mais militares, transformando a esplanada dos ministérios num quartel, ou aliados que aproveitam seu enfraquecimento para cobrar mais caro pelo apoio.

Segundo informou o Estadão na quarta-feira (13), o PL de Valdemar Costa Neto, célebre expoente dos condenados pela Lava Jato, deverá ocupar a Secretaria de Atenção Especializada à Saúde do Ministério. Fica no lugar de Francisco de Assis Figueiredo, indicado para o cargo pelo Progressistas, partido do deputado Arthur Lira (AL).

Para quem havia prometido levantar o Brasil e acabar com as negociatas políticas, o governo Bolsonaro não podia acabar em pior situação.