21 Jul 2019

O presidente Jair Bolsonaro passou a usar uma ferramente da velha política para lidar tanto com aliados quanto adversários. Coloca alguém no seu lugar para dizer o que pensa, e depois aparece no papel conciliador. Foi assim na Mais recente crise com Hamilton Mourão, instalada depois que o filho do presidente, Carlos Bolsonaro, publicou nas redes sociais críticas segundo as quais o vice-presidente não poderia ter aceito o convite para uma palestra nos Estados Unidos, cuja apresentação o apontava como o interlocutor ideal de um governo que sofria de "paralisia".

"Estamos dormindo juntinhos a noite toda", disse Bolsonaro a um grupo de jornalistas convidados para o café da manhã no Palácio do Planalto, na quinta-feira, sobre Mourão. "Durante o dia, brigamos sobre quem lava a louça." Na prática, Bolsonaro permite que o filho ataque Mourão, fala bem do vice-presidente em público, e na realidade olha para outra figura da República: o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que está na linha da sucessão de ambos.

Em um debate promovido no Instituto FHC, em São Paulo, o ex-presidente Fernando Henrique defendeu a reforma da Previdência. "O Estado não tem mais dinheiro, não tem como gastar", disse ele. E afirmou que o governo tem se "se jogar" em sua defesa. "Se o governo, ou o Executivo, não tem agenda, o Congresso também não tem". Para ele, será difícil passar o pacote inteiro, mas na política se deve ficar nos pontos principais para haver avanço. FHC ressaltou que a reforma não trará benefícios rápidos para as contas do governo, nem a economia. "Vai crescer de repente com a reforma da Previdência? Não vai. É mais complicado que isso." Apesar disso, acredita que a hora é boa para mudar. "É mais fácil mudar quando há abundância, mas a gente só muda na crise. Na abundância ninguém vai ceder nada e as pessoas ficam conformadas mesmo estando erdendo. Agora estamos todos perdendo. Engtão é o momento de mduar. E precisa de liderança."

Em julgamento na tarde de terça-feira, o Superior Tribunal de Justiça reduziu a pena de prisão do ex-presidente Lula, por conta da sua condenação no processo do tríplex de Guarujá. Condenado a 12 anos de reclusão, ele teve a pena reduzida para 8 anos, 10 meses e 20 dias - o que a princípio pode lhe permitir pedir uma progressão para o regime semiaberto a partir de setembro, com três anos de antecipação.

Ao entrar para o governo, o presidente Jair Bolsonaro tinha dois caminhos. Seguir no discurso radical, que o aproxima do guru da ultra-direita Olavo de Carvalho, ou manobrar mais ao centro, para ampliar sua base de sustentação e fazer um governo mais profissional, ou moderado, de olho na maioria do eleitorado que votou nele apenas como um "ele não" a Lula.

Passados os 100 dias de governo, o presidente mostra que escolheu o primeiro caminho,  o do radicalismo, por vários sinais. E alimenta um movimento para tolher sua ação, em especial dentro do Congresso.

Bombardeados por todos os lados, incluindo uma silenciosa censura de seus pares, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, e o ministro Alexandre Moraes, autores da inquisição jurídica que tem perseguido supostos "difamadores" do tribunal, voltaram atrás na sexta-feira e suspenderam a cassação às reportagens dos sites Crusoé e Antagonista, que faziam menção a Toffoli na investigação da Lava Jato.

Com isso, tiraram da frente o que foi entendido por todos os lados como uma flagrante e arbitrária operação de intimidação e censura da imprensa livre. Porém, como uma espécie de pequena vingança, revidaram com uma maldade contra a Lava Jato. Em nome da liberdade de imprensa, liberaram as entrevistas na cadeia do ex-presidente Lula.

O pastor e deputador federal Marco Feliciano afirmou que o escritor Olavo de Carvalho, interlocutor do presidente Jair Bolosnaor para assuntos de governo, o incentivou a abrir um processo de impeachment contra o vice-presidente Hamiltom Mourão.

à colunista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, Feliciano disse que começou o assunto. “Eu disse que estava pensando em apresentar o pedido e ele falou: ‘Faça o que for possível para blindar o presidente. Ele [Bolsonaro] não está conseguindo governar’”.

Aqui está na íntegra o texto da reportagem da Crusoé, “O amigo do amigo de meu pai”, que o Supremo Tribunal Federal pretendeu censurar. 

Segundo a reportagem, o “amigo do amigo de meu pai”, citado em correspondência do empreiteiro Marcelo Odebrecht na Lava Jato, é o hoje presidente do STF Dias Toffoli, conforme afirmou o próprio Odebrecht à Polícia Federal.

A Crusoé foi proibida de manter o texto no ar, sob pena de uma multa de 100 mil reais diários. Seus editores foram intimados a depor em 72 horas.

O texto circula pelo WhatsApp. Segue aqui sua reprodução na íntegra, em nome da defesa da liberdade de imprensa.

A revelação de que milícias controlavam os dois edifícios que desabarm em Muzema, no Rio, matando sete essoas e deixando outras 17 ainda consideradas formalmente desaparecidas, aumentou o clima de revolta contra o poder paralelo ds milicianos do Rio - gente que os Blsonaro condecoraram na Assembleia Legislativa e que o deputado federal Eduardo Bolsonaro classificou recentemente como "heróis".

O ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes notificou sexta-feira passada os sites Antagonista e Crusoé, para retirarem do ar a partir desta semana uma reportagem e notas publicadas sobre uma menção ao presidente da corte, Dias Toffoli. Segundo apurou a reportagem, o empresário Marcelo Odebrecht afirmou em delação à Polícia Federal que o "amigo do amigo" de seu pai, Emilio Odebrecht, citado dessa forma em sua correspondência, era Toffoli - ao tempo em que se encontrava na advocacia geral da União.

Com isso, numa simples canetada, Moraes reinstaurou a censura à imprensa no Brasil. E em causa própria, para piorar a já arruinada imagem pública da instituição, uma vez que atendeu a um pedido do próprio Toffoli.

Na sexta-feira, o Superior Tribunal Militar negou o pedido de liberdade de nove militares envolvidos na morte do músico Evaldo Rosa dos Santos com mais de 80 disparos no último domingo, dia 7, no Rio. Enquanto o caso seguia seu curso na Justiça, o presidente Jair Bolsonaro não perdeu mais uma oportunidade de transformar um caso isolado em crise política. Em Macapá, numa entrevista coletiva,m afirmou que "o Exército não matou ninguém, não".

O episódio aumenta a ferida aberta entre Bolsonaro e os militares de seu governo, que têm perdido espaço na administração e veem o ponto de vista do presidente divergir do seu nas coisas que deveriam ser objetivas, incluindo admitir um erro evidente, que o próprio chefe das Forças Armadas prefere negar.