21 Jul 2019

Atacados moralmente nas redes sociais pelo franco-pensador Olavo de Carvalho, guru e protegido do presidente Jair Bolsonaro, os militares sofreram agora um novo e pesado golpe, desta vez orçamentário.

O presidente Jair Bolsonaro assinou na tarde desta terça-feira um decreto, publicado nesta quarta, que amplia em larga escala o registro, posse, porte e comercialização de armas de fogo e munições. Pelo decreto, que vai na direção oposta à do Estatuto do Desarmamento, passam a ter direito ao porte de arma jornalistas, defensores públicos, motoristas de caminhão, proprietários rurais e até assistentes sociais.

Bolsonaro afirmou na entrevista que não se trata de armar a população contra o crime, mas uma medida de princípio, já que ele defende o direito do cidadão de andar armado, se assim o desejar. "Esse nosso decreto não é projeto de segurança pública", disse o presidente. "É, no nosso entendimento, algo mais importante que isso. É o direito individual daquele que porventura queira buscar a posse, como um direito, obviamente respeitado os requisitos." 

O governo federal começou a cortar gastos - nem sempre por economia, mas por motivações ideológicas. E começou a colher oposição não soemnete dentro de suas próprias fileiras como em escala mundial.

O general Eduardo Villas Bôas, hoje lotado no Gabinete de Segurança Institucional, tem funcionado desde que era o comandante do exército como uma espécie de reserva cívica e democrática em momentos críticos do país. Foi assim quando o PT ensaiou abafar as manifestações nas ruas contra Dilma Rousseff, e quando pousou no Supremo Tribunal Federal um pedido de habeas corpus em favor do ex-presidente Lula, que poderia tirá-lo da cadeia e tumultuar as eleições ano passado - Villas Bôas, como um submarino, emergiu para dizer que não.

Com um Twitter, Villas Bôas subiu novamente do seu silêncio para falar da onda crescente da extrema direita nas ações do governo, sob a proteção do presidente Jair Bolsonaro. Soou como um alerta público de que estão no limite as relações do presidente com os militares, que vêm atuando não apenas na administração como na forma de um poder moderador do bolsonarismo mais truculento e meio desastrado. E, como a voz da caserna, indicou que Bolsonaro, depois de dinamitar várias alianças de sustentação de seu governo, pode estar perdendo a última capaz de agregar, em vez de destruir.

Em convenção, o PSDB elegeu Marco Vinholi, de apenas 34 anos, como novo presidente em São Paulo do partido. E mostrou que continua dividido, no estado onde tem seu berço e a maior força.

O governador João Dória apareceu de mãos dadas com seu antecessor, Geraldo Alckmin, e o senador José Serra. Porém, enquanto os dois últimos são assediados por inquéritos relacionados a desvios de dinheiro na Dersa, e pregam uma política mais tradicional, a ala de Dória ganha espaço na estrutura do partido, com um discurso mais liberal, e menos social. 

Para quem esperava o retorno a algum bom senso depois da saída do ministro Ricardo Vélez, o Ministério da Educação, até aqui o Ministério da Confusão, mostrou que continua o mesmo - uma boa amostra do governo.

O novo ministro da Educação, o economista Abraham Weitraub, anunciou nesta quinta-feira que vai voltar a avaliação da alfabetização das crianças por meio de amostragem - um indicador educacional importante, que havia sido extinto por Vélez.

Porém, Weitraub não deixou de dar continuidade à política das ideias atrabiliárias. No lugar do presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, órgão do MEC responsável pelas avaliações, Marcus Vinícius Rodrigues, que pediu demissão quando a prova foi extinta, o novo ministro colocou um delegado da Polícia Federal - Elmer Vicenzi.

Na noite do dia 1, quarta-feira, em que se comemorou o Dia do Trabalho, o presidente Jair Bolsonaro entrou em rede nacional sem boas notícias para dar. O desemprego aumentou, o déficit fiscal em março foi o segundo maior em vinte anos e as deblaterações ideológicas desde o início do mandato passam a ficar em segundo plano, agora que o discurso começa a ser confrontado com os resultados na vida real.

"O caminho é longo", disse. "Eu sei que unidos ultrapassaremos essas dificuldades iniciais, que são naturais nas transições de governo. Especialmente se as concepções políticas forem antagônicas." 

Para Bolsonaro, chegou o Dia da Realidade.

O presidente Bolsonaro e seus filhos não perdem oportunidade de mostrar sua disposição para o combate. A Venezuela é um bom exemplo. Apesar de todos saberem que o Brasil não vai fazer nada além de esperar, eles se mobilizam como se estivessem se preparando para a guerra. 

Mesmo depois de bem assentado com os militares que não haverá nenhuma ação nesse sentido, o presidente afirmou que as chances de uma intervenção militar na Venezuela em favor de Juan Guaidó contra o regime de Nicolás Maduro são "próximas de zero" - como se ainda houvesse hipótese de ser algo diferente de zero. Mais: Bolsonaro declarou que a decisão de ir para a guerra é sua. Ou do presidente americano, Donald Trump.

O presidente Jair Bolsonaro tem caracterizado seu governo pelo número de vezes em que tem voltado atrás - especialmente em relação a declarações de subordinados que contrariam suas ideias ou vontades, quando não a sua política. Na semana passada, o presidente já havia dado um alerta geral contra essa falha no seu RH. "A linha mudou", disse.

Já na segunda-feira, porém, teve de desdizer o secretário da Receita Federal, Marcos Cintra, segundo o qual a mudança na tributação fará com que ela incida até mesmo sobre o dízimo pago às igreja. A ideia logo agitou os políticos evangélicos, uma das poucas frentes onde Bolsonaro conseguiu manter aliados até aqui.

O ex-presidente Lula podia mostrar ressentimento, após cerca de um ano preso, segundo acredita, injustamente. O sentimento dominante do Lula que a imprensa encontrou na cela da Polícia Federal em Curitiba, depois de uma novela judicial que lhe permitiu dar uma entrevista, e a dois veículos escolhidos por ele mesmo - A Folha de S. Paulo e o diário espanhol El País - é no entanto o mesmo de boa parte dos brasileiros: perplexidade diante do  governo atual.