15 Set 2019

O presidente Jair Bolsonaro seguiu dando todos os sinais de que pretende colocar na embaixada do Brasil em Washington seu filho Eduardo, deputado federal. Colheu reações adversas em toda parte e só não consumou a indicação por sondar antes se o nome do filho poderia ser vetado no Senado, que por lei deve aprová-lo - uma derrota direta para ambos. "Da minha parte, [a indicação] está definida", afirmou."Se tiverem argumentos contrários, que não seja isso que se diz por aí, chulo, eu estou pronto."

Se o episódio da embaixada nos EUA serviu para alguma coisa até agora, é mostrar que Bolsonaro cada vez mais transforma seu governo num reduto distanciado dos partidos e de quadros técnicos para ficar no núcleo ideológico-familiar. Uma aposta com seus riscos.

Depois do ex-governador paulista Geraldo Alckmin dizer que "ninguém está feliz na política, nem no PSDB", onde cresce a figura do governador atual, João Dória, outras dissenções ameaçam desfigurar o partido, como resultado da chegada da Lava Jato ao alto tucanato.

Com 379 votos a favor e 131 contra, a Câmara aprovou na noite de quarta-feira em primeiro turno o texto principal da reforma da Previdência - bastavam 308 votos, ou 3/5 dos deputados. Em si, é uma boa notícia. Apareceu uma maioria na Câmara para fazer passar projetos importantes e uma reforma, como se sabe, é necessária. Porém, a forma como a votação da Previdência foi alcançada mostra que o Brasil não avançou como deveria, desde as últimas eleições.

E fica claro também que qualquer resultado refletirá apenas uma dura realidade: o Brasil continua um país empobrecido no meio da própria riqueza, e cujo sistema público não tem condições de oferecer uma aposentadoria digna aos seus cidadãos.

No dia em que o plenário da Câmara começou a discutir a Nova Previdência e  se agitaram os movimentos na defesa de interesses, o presidente Jair Bolsonaro usou da ironia para dizer o que espera do processo. Chamou o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que colocou atrás de si a coalizão desejada pelo governo, de "nosso general".

Um grupo de 40 advogados reuniu-se na segunda-feira com o dono do site The Intercept, Glenn Greenwald, como parte de um esforço para blindá-lo contra a investigação sobre o vazamento de conversas privadas de promotores da Lava Jato com o atual ministro da Justiça, Sérgio Moro.

Chamado ao Senado para explicar-se, Greewald usou a oportunidade para encenar seu teatro. Ciritcou a "amnésia" de Moro e se colocou como vítima de uma "campanha de ódio" do PSL, partido do presidente Jair Bolsonaro.

No seu depoimento, Greenwald mostrou-se mais um desses valentões do discurso vazio, dos quais a política anda cheia.  "Essas ameaças estão sendo provocadas pelo partido do governo, eles estão na internet o tempo todo usando documentos forjados e falsificados", disse, como se não estivesse também na internet o tempo todo. "Eles ficam na internet, mas não têm coragem de chegar aqui [no Senado], na minha cara, para discutir essas acusações."

Esforço de proteção

Há um esforço político para proteger não apenas Greenwald como a continuidade da publicação de conversas ilegalmente grampeadas, utilizadas para fazer pressão pela liberdade do ex-presidente Lula.

Essa pressão recai não apenas sobre o Ministério da Justiça, onde Moro se encontra ao mesmo tempo na condição de alvo e de autoridade encarregada de investigar os hackers que fornecem material ao The_Intercept. O tribunal de Contas da União solicitou ao Conselho de Atividades Financeiras, órgão do Ministério da Economia, esclarecimentos no sentido de informar se Greenwald está sob investigação.

Na madrugada da sexta-feira, a comissão especial da Câmara terminou de aprovar os destaques da reforma da Previdência, após a aprovação do texto principal, e entregou o parecer do relator, deputado Samuel (PSDB-SP), para votação no plenário. Tudo pode mudar novamente no colegiado da Câmara, mas o fim do primeiro round mostrou uam vitória do ministro da Economia, Paulo Guedes, e uma derrota do presidente Jair Bolsonaro.

A reforma passou pelas comissões, preservada em grande parte - a vitória de Guedes. Já Bolsonaro, mesmo na vitória da proposta do governo, perdeu: na sua única interferência, disse que o governo "errou" ao tirar a aposentadoria especial de policiais e tentou reverter a situação, mas foi derrotado. "É humano", dise Guedes, da tentativa do presidente. "Ele tem coração, esse é o pessal que o apoiava desde o início da campanha."

O ministro da Justiça, Sérgio Moro, atendeu ao chamado dos deputados e foi à Câmara nesta terça-feira dar explicações sobre o material vazado pelo site The_Intercept, como já fizera no Senado - e saiu do plenário mais Moro do que nunca.

Atacado pelos deputados de oposição, que usaram a oportunidade para fazer teatro, com intervenções por vezes ofensivas contra o ex-juiz, Moro manteve a calma. Hoje ele é como o boneco de piche da fábula: quanto mais lhe batem, mais grudados ficam seus atacantes.

Esse é o dado que os políticos insistem em ignorar: cada vez que Moro sofre um ataque, ele se fortalece. E aqueles que se colocam contra a Lava Jato acabam transparecendo não apenas estarem do lado do crime, como do lado contrário ao da população.

Em meados de abril, o advogado André Marsiglia Santos, do escritório Lourival J. Santos Advogados, apareceu em destaque nos portais de notícias graças a uma tão grave quanto inopinada decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal: a suspensão das reportagens dos sites Crusoé e O Antagonista que faziam menção ao presidente do tribunal, Dias Toffoli, colocado como alvo nas investigações da Lava Jato.

Defensor das publicações, Marsiglia veio denunciar a censura de alguns ministros do STF. Moraes, relator do inquérito que investiga ofensas e informações contra magistrados do STF, levantou a censura, voltando atrás. Mas a batalha não acabou.

Esta segunda-feira, Toffoli, ainda disposto a combater o que considera "fake news", ofensas e ameaças ao tribunal, afirmou num café da manhã com jornalistas que a investigação levada a cabo por Moraes continua em andamento. E que, segundo um levantamento patrocinado pela própria instituição, o número de ataques ao STF na internet teria caído "80%". "Só a existência do inquérito já surtiu o efeito em relação às fake news", disse.

Assim, o perigo continua. A identificação de qualquer notícia negativa como fake news ou ofensa, passíveis de censura, criou uma zona cinzenta inédita no Brasil da era democrática.

Assim como o presidente Jair Bolsonaro, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, resolveu adotar a prática do café da manhã com jornalistas. Nesta segunda-feira, no primeiro desses eventos, disse que o ataque aos celulares do promotor Deltan Dallagnol e so ministro Sérgio Moro são um caso de "segurança de Estado".

O presidente Jair Bolsonaro vive no governo como o mitológico deus Cronos, que devorava os próprios filhos, por medo de ter seu poder tomado por um deles, conforme uma profecia. Com a diferença de que Bolsonaro usa os próprios filhos para devorar seus auxiliares. A vítima da vez agora é o general Augusto Heleno, chefe do gabinete de Segurança Institucional, seu braço direito e homem que faz o governo funcionar.

Heleno é mais um militar na linha de tiro do filho Carlos, que usa o Twittter como um espécie de sinalizador do próximo alvo. Apega-se a qualquer coisa como munição. No caso de Heleno, a prisão do sargento da Aeronáutica   Manoel Silva Rodrigues, que contrabandeava cocaína e foi preso no aeroporto de Sevilha - algo que, segundo Carlos, deveria estar no radar do GSI.