3 Jun 2020

Há no Brasil algo maior e mais sofisticado do que esse debate banal e coloquial sobre Henrique Mandetta -- se sai ou se fica, quando cai e quem vem. Mas ainda não foi possível vislumbrar a silhueta do mosaico, ou do quebra-cabeças, se preferirem outra imagem.

O que dá para saber, por enquanto, é que tem peças que não se encaixam, e que para compreender o que estaria por vir é relevante de prestar muita atenção nos movimentos do governador Ronaldo Caiado, de Goiás, e do senador Tasso Jereissati, do Ceará.

O bolsonarismo, entendido como as forças que gravitam ao redor do presidente Jair Bolsonaro, capitaneadas por seus filhos, Carlos e Eduardo, passaram a atacar sistematicamente ministros e outros membros do governo, como uma forma de retomá-lo pelo próprio presidente.

O alvo mais vistoso é o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que comanda no plano nacional o isolamento domiciliar contra a pandemia do coronavírus, contra a vontade de Bolsonaro. Não importa o nome do substituto de Mandetta: o presidente quer assumir ele mesmo o comando da área, com suas convicções pessoais, liquidando com a quarentena.

Não é só Mandetta a quem o bolsonarismo declarou guerra. A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, vem sofrendo a pressão nos meios virtuais da milícia digital bolsonarista, que quer um fechamento dos portos brasileiros ao comércio com a China. Também atacado nas redes sociais por tentar aglutinar as forças do governo em torno da política do isolamento, o ministro-chefe da Casa Civil, general Braga Netto, sequer apareceu na mais recente coletiva de imprensa sobre o tema.

Nesta segunda-feira, Carlos e Eduardo Bolsonaro impulsionaram ainda tuítes da tropa de choque bolsonarista contra o ministro da Justiça, Sérgio Moro, por conta do projeto para a aquisição de 600 tablets para presidiários conversarem virtualmente com familiares, depois da proibição de visitas nos presídios, adotada com a pandemia.

POR HUGO STUDART

Virou questão de honra para o presidente Jair Bolsonaro se livrar do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Dias atrás, o filho Carlos, o Carluxo, invadiu o gabinete de Mandetta para tirar satisfação.

À saída, no hall que separa o ministro do chefe de gabinete, o Zero-Dois perdeu o controle e gritou: "F.d.p., traidor, você vai ter que obedecer meu pai".

Ainda não foi definido quem vai para o lugar de Mandetta. Circulou o nome de outro militar, Flávio Rocha, assessor especial do presidente, que acumula a função de Secretário de Assuntos Estratégicos, dentre outras tarefas. Já é público que Bolsonaro entregou a Rocha a missão de finalizar um plano de abertura do isolamento social horizontal.

Em pronunciamento pela TV na noite desta quarta-feira, o presidenteJair Bolsonaro reiterou sua preocupação com a economia, comemorou o fornecimento pela Índia de matéria-prima para a produção de hidroxicloroquina, a panaceia que ele apresenta como a solução para a pandemia do coronavirus, e mandou um recado ao seu próprio governo. ""Tenho a responsabilidade de decidir sobre as questões do país de forma ampla, usando os ministros que escolhi para conduzir o destino da nação", disse ele. "Todos devem estar sintonizados comigo."

Ao longo do dia, seus ministros foram atacados pela tropa de choque digital do presidente. Uma campanha dna internet procurou passar a impressão de que o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, é contra o emprego do remédio, usado contra malária, no caso do Covid. Mandetta não é contra a hidrocloroxina, apenas afirma que seu uso deve ser feito sob prescrição médica. Bolsonaro, porém, não demite o mninistro, nem o convence - apenas passa a atacá-lo pelas redes sociais. Outro ministro que passou a ser alvo de ataques do bolsonarismo é o general Walter Braga Netto, ministro da Casa Civil, que disse que os outros ministros apoiam Mandetta e representa o suporte militar a uma política nacional de isolamento domiciliar.

Com uma centena de novos casos ao dia de Covid-19, o estado do Amazonas já tem 95% dos seus leitos de UTI com respiradores ocupados na rede pública. O mesmo acontece em  Pernambuco. O secretário estadual de Saúde, André Longo, afirmou que 80% dos 118 novos leitos de UTI montados no estado para receber pacientes do coronavírus estão ocupados. Nos novos 210 leitos de enfermaria, para casos menos graves, o índice é de 43%. O Amazonas é uma das cinco unidades da federação com indicação de descontrole da contaminação, junto com Ceará, São Paulo, Rio de Janeiro e o Distrito Federal.

O presidente Jair Bolsonaro passou a segunda-feira arquitetando a demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Indiferente às preocupações mundiais, à posição dos médicos e cientistas, dos governadores dos estados e do seu próprio ministério, que apontam todos para a necessidade da manutenção do isolamento domicilar , ainda mais agora, no auge do crescimento da contaminação pelo Convid-19, Bolsonaro passou a considerar a demissão de Mandetta uma questão de honra. Quer provar que ainda é ele quem governa - e impor seu ponto de vista, por mais bizarro ou perigoso que seja.

O presidente Jair Bolsonaro moderou o seu discurso e mandou transferir nesta segunda-feira a entrevista do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (Saúde), Bolsonaro, para o Palácio do Planalto - uma tentativa de encampar o que está fazendo o próprio ministério e mostrar que ali ainda fica a sede do governo.  Contudo, a entrevista coletiva deixou claro que o governo na crise é formado na prática hoje por Mandetta, o ministro da Economia Paulo Guedes e da Justiça, Sérgio Moro, que participaram da mesa de entrevistas ao lado do chefe da Casa Civil, general Walter Braga Netto. Quando perguntados sobre o que pensavam do isolamento social na epidemia, Braga respondeu por todos. "Os ministros concordam com posição do Mandetta."

"Não se esqueçam de que eu sou o presidente", disse Jair Bolsonaro, nesta quarta-feira, na entrevista que se acostumou a dar na saída do Palácio do Planalto, na qual a segurança permite a presença de uma claque para constranger e dificultar o trabalho dos jornalistas ali de plantão diariamente. Alguns deles abandonaram o local, deixando Bolsonaro falar sozinho. "Imprensa que não quer ouvir o povo", disse ele.

Quando um presidente tem de lembrar que ele é o presidente, é porque as coisas não vão bem. Desde o fim de semana, Bolsonaro perdeu a liderança mesmo junto a seus ministros. Atingiu o ápice de um processo de isolamento, colocado em uma quarentena política dentro do próprio governo.

O presidente Jair Bolsonaro foi denunciado ao Tribunal Penal Internacional, com sede em Haia, que julga crimes de genocídio e contra a humanidade, por discurso e ações do governo que incitariam ao extermínio da população indígena.

Não é a primeira figura ilustre a ser denunciado. Entra para uma triste lista que contém gente como o ditador de Ruanda, Augustin Bizimungu, que assassinou 800 mil pessoas em 1994; Muammar Gaddafi, ditador da Líbia; Rodovan Karadizic e Dragomir Milosevic, líderes sanguinários da Bósnia; e Thomas Dyilo, do Congo, ainda em julgamento, que se encontra sob a custódia do tribunal.

O Supremo Tribunal Federal aprovou por nove votos a dois nesta quinta-feira o uso de dados fiscais de órgãos como Receita Federal e UIF, novo nome do Coaf, sem autorização judicial. Com isso, o senador Flávio Bolsonaro, que começou a ser investigado dessa forma, e entrou com o pedido de suspensão da investigação no STF, fica novamente a descoberto, depois de pedir a suspensão do inquérito que apura irregularidades nas contas de seu gabinete como deputado estadual, até o ano passado.