15 Nov 2019

Como virtual aliado de Geraldo Alckmin, mantendo parte da antiga estrutura, o novo governador de São Paulo, Márcio França, mal assumiu e já começou sob fogo de quem supostamente deveria estar ao seu lado - e ao lado de Alckmin.

Num momento chave para mostrar que o esforço contra a corrupção não distingue políticos nem cor partidária, a ministra do Superior Tribunal de Justiça, Nancy Aldrighi, tomou uma decisão difícil de explicar aos brasileiros que clamam por Justiça e equidade. Nesta quarta-feira, Aldrighi enviou para a Justiça Eleitoral a investigação sobre o agora ex-governador paulista e virtual candidato à presidência pelo PSDB Geraldo Alckmin. Atendeu a um requerimento do vice-procurador geral, Luciano Mariz Maia. 

Com a decisão, a investigação não vai para os procuradores da Lava Jato, responsáveis pelos inquéritos na área criminal. "Não tiramos o Alckmin da Lava Jato, porque ele nunca esteve lá", disse Mariz Maia, numa frase que lembra o velho cinismo da ditadura militar. "Tecnicamente, essa é difícil de engolir", afirmou, do seu Twitter, o ex-titular da PGR, Rodrigo Janot. Outros quatro políticos que deixaram o governo do estado estão sob a mira da procuradoria. Beto Richa (PSDB-PR), diferentemente de Alckmin, teve seu processo encaminhado do STJ para a Justiça Federal paranaense. Os outros, Marconi Perillo (PSDB-GO) e Raimundo Colombo (PSD-SC), ainda aguardam para ver o que acontecerá.

O ministro do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio Mello incluiu nesta segunda-feira na pauta da Primeira Turma do tribunal a denúncia contra o senador Aécio Neves, do PSDB, por corrupção passiva e obstrução à Justiça na Operação Lava Jato. Ao mesmo tempo, o STF autorizou uma operação da Polícia Federal que investiga pagamento de propina a um grupo de políticos encabeçado pelo presidente do Senado, Eunício de Oliveira (MDB-E).

Com isso, confirma-se a preocupação da Justiça brasileira, depois da prisão do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, de cumprir com o esforço contra a corrupção em todas as frentes, o que inclui as investigações contra Geraldo Alckmin e José Serra, também do PSDB, e do presidente Michel Temer.

O ex-presidente Lula encenou sua retirada da forma que quis. Em vez de entregar-se na sexta-feira, dentro do prazo dado pelo juiz Sérgio Moro, entrincheirou-se na sede do sindicato dos metalúrgicos e negociou tempo para montar o teatro de sua prisão.

Lula queria uma espécie de via crucis. Passou a noite com seus apóstolos, foi à missa em memória da mulher, Marisa, almoçou com os filhos e fez um discurso de mártir. 

O ex-diretor da Dersa, Paulo Vieira de Souza, o paulo Preto, tido como operador do caixa do PSDB, foi preso na manhã desta sexta-feira pela Polícia Federal.

O futuro da esquerda

Com prazo para se apresentar voluntariamente à Polícia Federal em Curitiba até as 17:00 da sexta-feira, aplicado na ordem de prisão do juiz Sérgio Moro, o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva preferiu aquartelar-se na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Ali, cercou-se de colaboradores, conversou com advogados e, segundo testemunhas, comeu pão com mortadela. Seu médico, Gustavo Johnen, teria pedido por prevenção um desfibrilador. Lula estava tenso, mas, com sua decisão, mostrou o de sempre: comporta-se como um intocável, da mesma forma que, na presidência, orquestrou o saque ao erário público, acreditando-se acima do bem e do mal.

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, anunciou nesta terça-feira em Brasília sua filiação ao MDB, o que descarta sua candidatura à presidência por outro partido. Com isso, fica em aberto quem será o candidato do governo. O presidente Temer, a princípio, queria Meirelles como seu vice em uma chapa do partido. O aperto da Justiça, que colocou na cadeia, no final da semana passada, seus principais colaboradores, suspeitos de corrupção por um decreto assinado por ele próprio em 2017, fez com que essa decisão seja adiada. Com a possibilidade de virar cabeça de chapa, caso a situação de Temer se complique ainda mais, o ministro animou-se a entrar na legenda. E lançou um dado importante na definição do jogo eleitoral. 

Com o prazo de desincompatibilização, começou esta semana a ciranda dos cargos públicos, com a saída de todos os que devem concorrer nas próximas eleições. Saem ministros, prefeitos e governadores, todos de olho nos próximos quatro anos. 

Na semana em que seu ministério será desfigurado com a saída de uma dezena de ministros para cumprir o prazo legal de concorrer às eleições este ano, entre eles provavelmente o da Fazenda, Henrique Meirelles, o presidente Michel Temer contava com algumas vitórias para impulsionar sua própria candidatura à presidência, afirmando-se novamente como única solução política entre a volta do PT, por um lado, e o reacionarismo crescente com Jair Bolsonaro, de outro. Esse impulso, porém, está se transformando em rodamoinho, formado por várias correntes. Elas vão das dificuldades em mostrar resultados concretos na intervenção militar no Rio de Janeiro aos efeitos da recente prisão dos seus principais colaboradores, indicação de que Temer, assim como Lula, estará no futuro próximo mais para réu que qualquer outra coisa.

A Polícia Federal prendeu nesta quinta-feira um grupo de aliados de Michel Temer, investigados por conta de um decreto assinado pelo presidente, que teria favorecido a Rodrimar, armadora do porto de Santos, supostamente em troca de propina. Foram detidos membros do seu círculo mais próximo, como o empresário José Yunes, seu amigo e ex-assessor, o coronel reformado João Baptista Lima Filho, o ex-ministro da Agricultura Wagner Rossi,  além do dono da Rodrimar, Antônio Celso Grecco. E Celina Torrealba, uma das donas do Grupo Libra. A salvo da Justiça pelo foro privilegiado, Temer foi o único envolvido direto no caso que escapou à prisão. Na inauguração do novo aeroporto de Vitória,  evitou comentar o desabamento do terreno ao seu redor. Disse apenas que quem quiser criticar seu governo terá de fazer "muito malabarismo" nas próximas eleições.