28 Nov 2021

A manifestação diante do palácio do Planalto deste domingo teve menos gente que as anteriores e chamou a atenção pelo fato de que os seguranças pediram a retirada de bandeiras contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro juntou parte do alto comando do governo para saudar os manifestantes, como se fosse um ato cívico - classificou-o como "pura democracia".

A pandemia aumentou a taxa de mortalidade no governo, que já era alta, mas subiu exponencialmente. A última vítima da exposição à convivência com o presidente Jair Bolsonaro foi o ministro Nelson Teich, segundo a sair da pasta da Saúde em menos de um mês. No meio disso, Bolsonaro achou tempo de livrar-se do ministro da Justiça, Sérgio Moro, abrindo uma batalha para explicar seus interesses em mudar o comando da Polícia Federal.

Teich pediu demissão por não concordar com o uso precoce de hidroxicloroquina no protocolo de tratamento do Covid-19, contra as indicações da medicina, assim como ocorreu com seu antecessor, Luiz Henrique Mandetta. Bolsonaro segue com sua ideia de que os ministros não passam de meros executores de suas ideias e quem o contraria é simplesmente eliminado, ainda que esteja em defesa da vida.

No lugar de Teich, ficou interinamente o secretário executivo da pasta, o general Eduardo Pazuello, ex-coordenador da operação de acolhimento de refugiados na fronteira com a Venezuela, colocado no cargo para fazer valer as determinações do comandante, transformando o ministro num personagem de fachada.

Pazuello é mais um militar amontoado no alto escalão do governo. Corre o risco de ficar com o cargo. Bolsonaro recorre aos militares por uma simples razão. Por dever de ofício, são os únicos que se subordinam incondicionalmente, não importa qual é a ordem, treinados que são para serem comandados a ir, até mesmo, à morte. 

Os militares tocam pra maluco dançar

A cúpula do governo, formada na maior parte por ministros militares com cargos no Palácio do Planalto, procurou em depoimentos à Polícia Federal e ao longo desta quarta-feira blindar o presidente Jair Bolsonaro na investigação por atuar em causa própria e de familiares procurando intervir na superintendência do órgão no Rio de Janeiro. Procuraram transmitir a impressão de que o presidente estaria apenas preocupado com sua segurança e a de seus familiares do Rio, na reunião ministerial do dia 22 de abril em que Bolsonaro teria ameaçado o ex-ministro da Justiça Sérgio Moro de demissão, caso não mudasse o comando da PF.

Segundo essa versão, a ameaça teria sido dirigida a Augusto Heleno, o general da reserva que comanda o Gabinete de Segurança Institucional.

Porém, os ministros não explicaram outras evidências da pressão de Bolsonaro, e acabaram tragados pela confusão presidencial. Um deles pediu para mudar palavras de seu depoimento. O vice-presidente, Hamilton Mourão, veio em socorro da turma, afirmando pelo Twitter que a equipe não procurou alinhar seu discurso para depôr na investigação sobre o presidente. "Quem alinha discurso é bandido", escreveu.

O presidente Jair Bolsonaro baixou um decreto declarando como categorias "essenciais" as manicures, os salões de beleza, barbearias e as academias de ginástica. Com isso, quis forçar a abertura desse segmento do comércio e serviço, como uma maneira de ir minando a política de isolamento social levada a cabo pelos governadores e prefeitos em todo o país. Só que a atribuição de manter aberto o comércio é dos estados e municípios. Bolsonaro produziu uma legislação inócua, que só causa confusão.

Como afirmado pelo ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, um vídeo de uma reunião com ministros mostra o presidente Jair Bolsonaro ameaçando-o de demissão caso não troque o superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro que, segundo ele, estaria "perseguindo" sua família. No Rio, o ex-assessor de Bolsonaro, Fabrício Queiroz, é o pivô de movimentações de dinheiro vivo dentro do gabinete do filho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro, então deputado estadual.  Flávio ainda empregava no gabinete a mulher e a mãe do "Capitão Adriano", chefe do Escritório do Crime, grupo paramilitar que atuava junto às milícias fluminenses, envolvido com a morte da vereadora Marielle Franco e morto numa operação policial realizada na Bahia.

Com o vídeo, Bolsonaro fica ainda mais exposto às acusações que levaram à investigação, pedida pela Procuradoria Geral da República e autorizada pelo Supremo Tribunal Federal. Envolvido na sua guerra contra governadores e o isolamento social em meio à pandemia, o presidente vê formar-se ao seu redor a temepstade perfeita, com uma queda drástica de popularidade.  Na pesquisa da CNT/MDA, a avaliação negativa do governo subiu de 31% da população para 43,4% em maio. O levantamento foi fechado em 10 de maio e já pega a demissão de Moro, ocorrida em 24 de abril.

O presidente Jair Bolsonaro levou adiante as mudanças que pretendia realizar na Polícia Federal, apesar das denúncias do ex-ministro Sérgio Moro, de que pretende interferir em investigações do seu interesse, A denúncia levou à suspensão pelo Supremo Tribunal Federal da nomeação do delegado de confiança do presidente, Alexandre Ramagem - chefe da Abin e ex-chefe da  segurança pessoal de Bolsonaro, para a direção geral da instituição. Primeiro, num drible pró-forma do STF, Bolsonaro nomeou para o lugar de Ramagem o número 2 da Abin, Rolando Alexandre de Souza. Depois, começou a substituir toda a direção da PF ligada a Moro ou que trabalhou com o ex-juiz na Lava Jato.

O ex-diretor-geral da PF ao tempo de Moro, Maurício Valeixo, depôs nesta segunda-feira em Curitiba no inquérito aberto pelo STF para apurar se Bolsonaro vem agindo em interesse próprio. Segundo Valeixo, Bolsonaro lhe disse que "não tinha nada a sua pessoa", mas que queria um diretor-geral com quem tivesse mais "afinidade".

O presidente Jair Bolsonaro tende sempre a partir para o ataque - mesmo, ou ainda mais, quando acuado. Colocado em xeque nos últimos dias, além da sua habitual agressividade, o presidente dá sinais de que responde mal à pressão atual e vem perdendo o senso de limite e o controle emocional. Tem forçado a nomeação de subordinados à revelia de ministros, passa por cima do comportamento ético e mostra que não se importa mais com protocolos, nem com a opinião pública.

Um dos sintomas dessa espiral de desequilíbrio é o fato de destratar abertamente a imprensa, como na manhã desta terça-feira, quando um repórter de O Estado de S. Paulo lhe perguntou se pediu ao novo diretor-geral da Polícia Federal a troca do superintendente da instituição no Rio de Janeiro. "Cala a boca, não perguntei nada", disse Bolsonaro, à saída do Palácio da Alvorada.

No domingo, durante uma manifestação de militantes bolsonaristas em Brasília contra as instituições democráticas, o presidente Jair Bolsonaro disse que as "Forças Armadas" estavam com eles - isto é, ele e os manifestantes. Não foi a primeira vez que o presidente usou os militares para sugerir que um golpe apoiado por eles estaria a caminho. Na manifestação anterior, fomentada pela rede digital do presidente, Bolsonaro discursou em frente ao quartel general do Exército, para forçar tal associação. Na manhã desta segunda-feira, a Folha de S. Paulo publicou uma reportagem segundo a qual Bolsonaro estaria operando a troca do comando geral do Exército, numa outra manobra de tomada ideológica de uma instituição do Estado, tal qual ele procura fazer na Polícia Federal.

Com isso, os militares tiveram de publicar um desmentido, assinado pelo ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, de que estariam apoiando qualquer tipo de intervenção ou ação político-ideológica.  "Marinha, Exército e Aeronáutica são organismos de Estado, que consideram a independência e harmonia entre os Poderes imprescindíveis para a governabilidade do país", escreveram em uma "nota oficial". O ministro da Secretaria de Governo, o general Luiz Eduardo Ramos, disse que não iria para o comando do Exército, como Bolsonaro estaria cogitando, segundo a Folha. "Em respeito aos valores que cultuo no Exército, o respeito, a hierarquia e disciplina, essa possibilidade não existe", afirmou.

O presidente Jair Bolsonaro retirou a nomeação do chefe da Abin, Alexandre Ramagem, para a direção da Polícia Federal - depois que, pela manhã, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre Moreas, já havia  suspendido sua entronização no cargo, por meio de uma liminar. O STF instaurou um inquérito sobre a interferência do chefe do Executivo no órgão onde ele ou seus filhos, a partir do momento em que ele mesmo, Bolsonaro, confirmou as intenções declaradas ao ex-ministro Sérgio Moro de que fazer uma noemação política para o cargo, isto é, a seu favor. Bloqueado em plena ação, o presidente desfez a nomeação pelo Diário Oficial, mas prometeu não desistir, manifestando toda a sua contrariedade.

Mais que ser desautorizado, Bolsonaro sofre no episódio com mais desgaste da sua credibilidade, por fazer justamente o que criticou no passado. Fora do governo, denunciou a tentativa de sequestro o comando da PF, ao tempo de Dilma Rousseff, durante as investigações da Lava Jato. No govenro, agora como investigado ele mesmo, passou a considerar essa interfeência algo natural.