19 Set 2019

O presidente Jair Bolsonaro, que mandou demitir o presidente do Inpe, Ricardo Galvão, por divulgar recordes de desmatamento na Amazônia, vem liderando a volta de um discurso nacionalista na Amazônia, que sempre foi caro aos militares. Defende a ideia da exploração da floresta, em oposição às ONGs preservacionistas, que, para ele, apenas trabalham para interesses estrangeiros sequiosos por tomar do Brasil a sua maior floresta. "É um número absurdo de que eu desmatei 88% da Amazônia", disse Bolsonaro nesta terça-feira em um evento em São Paulo dos dados do Inpe. "Eu sou o capitão motosserra", ironizou.

Com seu discurso, Bolsonaro acaba desvirtuando o discurso nacionalista da Amazônia - e acaba no fim preservando interesses que não são os estrangeiros e tampouco os nacionais. Não interessa a ninguém aumentar o desmatamento da Amazônia, exceto a um punhado de exploradores ilegais da reserva brasileira, que não trazem riqueza exceto para eles mesmos. Mas o presidente, com seu clamor cívico, espertamente vai ganhando adesões - especialmente entre os militares.

Além de prosseguir na Lava Jato, o ministro da Justiça, Sérgio Moro, assumiu o cargo com o compromisso de avançar na coordenação centralizada de combate ao crime organizado no país - e há sinais de que segue nessa direção. Nesta semana, a Polícia Federal investiu sobre o PCC, o primeiro Comando da Capital, facção criminosa baseada sobretudo em São Paulo. Nesta terça-feira, uma operação com o objetivo de desarticular a rede de financiamento da organização levou à prisão de 20 suspeitos em sete estados.

Por intermédio do ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, o presidente Jair Bolsonaro fez demitir o presidente do Inpe, Ricardo Galvão, por ter divulgado os índices recordes de desmatamento este ano com o que entendeu ser um desnecessário "sensacionalismo". "Perdeu a confiança, é pena capital", disse Bolsonaro. "Abraços espaciais", escreveu Pontes ao demitido, no comunicado da saída, no seu habitual tom de bom mocismo astronáutico.

Galvão criticou, sobretudo, a política do presidente, de atacar a notícia e não o problema. Bolsonaro segue nas suas decisões controversas, com o objetivo de mudar a ecologia dentro também do governo. Na sexta-feira, anunciou como novo "embaixador do turismo", com ênfase no "ecoturismo", o apresentador de TV Richard Rasmussen, autuado pelo Ibama em dez infrações contra a fauna entre 2002 e 2009, em processos que correm na Justiça, hoje no valor total de 263 mil reais.

O governo acelerou trocas no aparelho de Estado, com a substituição de programas e pessoas por afinidade ideológica. No maior desses mvimentos, anuciou a criação do programa Médicos pelo Brasil, que nada mais é do que o Mais Médicos dos anos do PT, mas sem os médicos trazidos de Cuba. Pretende incorporar 18 mil profissionais ao atedimento do Sistem Único de Saúde em lugares menos atendidos.

O presidente Jair Bolsonaro não ficou por aí. Anunciou a troca de quatro dos sete representantes. da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, locada no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, também para alinhar a comissão com as ideias do presidente.

Depois do massacre na penitenciária de Altamira, no Pará, em que membros de facções asfixiaram e degolaram adversários, mais quatro presos foram mortos durante o transporte de caminhão para Belém. Um prolongamento do próprio massacre que levantou outra questão: como os presos podem assassinar uns aos outros dentro de um caminhão, também sob a custódia do Estado.

Na sua campanha para chamar todo mundo que pode para a briga, transformando o Brasil na Praça da Discórdia, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que poderia explicar ao presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz, como seu pai teria desaparecido durante a ditadura militar - talvez sugerindo que o mesmo poderia ocorrer com ele. O motivo do ataque foi a atuação da OAB na investigação de Adélio Bispo, autor do atentato à faca contra Bolsonaro, na campanha eleitoral.

"Por que a OAB impediu que a Polícia Federal entrasse no telefone de um dos caríssimos advogados? Qual a intenção da OAB? Quem é essa OAB?" - disse Bolsonaro. "Um dia, se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, conto pra ele. Ele não vai querer ouvir a verdade. Conto pra ele."

A Polícia Federal, sob o comando do ministro da Justiça, Sérgio Moro, começou a cercar o editor do site The_Intercept, Glenn Greenwald, pela publicação de conversas privadas sobretudo do promotor Deltan Dallagnol, utilizadas para fazer uma campanha contra a Lava Jato. "Talvez pegue uma cana aqui no Brasil", disse o presidente Jair Bolsonaro, neste sábado, em um evento no Rio de Janeiro.

O hacker preso como principal suspeito por grampear os celulares de centenas de personalidades da República, Walter Delgatti Neto, o "Vermelho",  confessou ter repassado o conteúdo a Greenwald, por meio da ex-deputada e ex-candidata a vice-presidente na chapa do PT, Manuela D'Ávila (PCdoB). Manuela procurou sair da confusão com uma alegação bizarra: disse que temeu "uma armadilha", e que "não conhecia" a identidade do hacker, mas confirmou que lhe passou o celular de Greenwald mesmo assim. O que a PF procura apurar, agora, é se Greenwald pagou pelo conteúdo hackeado.

Depois de verificar o tráfego de mais de 600 mil reais nas contas de dois dos quatro suspeitos de hackear celulares de autoridades, a Polícia Federal está rastreando o dinheiro para chegar aos mandantes do grampo que se supõe terem alimentado as publicações do site The_Intercept. A questão seria saber quem pagou pela informação - se o próprio site, ou mais alguém.

O advogado de defesa de dois dos supostos integrantes da quadrilha, Ariovaldo Moreira, afirmou que um terceiro investigado, Walter Delgatti Neto, teria sido quem hackeou o celular de juízes, procuradores e outras autoridades - o próprio presidente Jair Bolsonaro teria sido vítima de tentativa de hackeamento.  Segundo ele, Walter, conhecido como "Vermelho", porque é ruivo, levou o material ao seu cliente e teria dito que pretendia vendê-lo ao PT.

Num sinal de que suas relações com os militares já passaram da lua de mel, o presidente Jair Bolsonaro foi visto no final de semana num bate boca virtual com um general da reserva, Luiz Rocha Paiva, que o chamou de "antipatriótico" ao se referir aos governadores nordestinos como “paraíbas”. Em resposta, Bolsonaro disse no Twitter que o general era um "melancia" (verde/militar por fora, vermelho/comunista por dentro) e defensor da guerrilha do Araguaia. O presidente não apenas ataca adversários como espalha o terror entre suas próprias fileiras. No final de semana, ameaçou de demissão o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Ricardo Galvão, porque este divulgou dados que mostram um recorde de desmatamento da Amazônia nos últimos meses. Acusou-o de... Anti-patriotismo.

Tomando como inspiração o presidente americano Donald Trump, o presidente Jair Bolsonaro mostra que tem dominado a arte de se manter diariamente como destaque do noticiário, o que parece ser uma das armas do manual de markenting para políticos na era digital. No caso de Bolsonaro, como de Trump, não é dificíl fomentar sua guerra diária: basta dizer o que pensa, sem filtros.

Na semana passada, depois de dizer que a economia brasileira está "uma maravilha", num único dia atacou a jornalista Míriam Leitão, disse que não há fome no Brasil e chamou governadores do Nordeste de "paraíbas" - expressão pejorativa usada no Sudeste para designar genericamente o nordestino sem educação.