21 Jul 2019

O presidente Jair Bolsanro assumiu o cargo com o compromisso de mudar as práticas políticas, como o modelo do toma-lá-dá-cá que originou a grande máquina de corrupção no poder público em todo o país. Sustentou sua posição diante do Congresso, ao defender o fim da "velha política". Porém, sobretudo depois da demissão do ministro-chefe da Secretaria de Governo, Carlos Alberto dos Santos Cruz, resolveu ceder a todos os apelos da velha política - incluindo a mais velha de todas, que sofre a influência do nepotismo.

Às vésperas da votação da reforma da Previdência na comissão especial, e com planos de votá-la na Câmara até a primeira quinzena de julho, o governo decidiu entregar os 22 mil cargos comissionados que Cruz vinha segurando a partidos de centro e centro-direita. 

O presidente Jair Bolsonaro tem dedicado grande empenho pessoal à aprovação de suas propostas mais radiciais e polêmicas, como o decreto das armas, reformulado com a retirada de um pequeno, mas assombroso detalhe: a permissão do uso de fuzis por parte da população civil. Chegou a declarar que o objetivo da medida era não somente fazer a população se proteger por conta própria de criminosos como também defender a liberdade - conclamação a uma milícia nacional contra uma possível volta do PT ao poder, por exemplo. Seus rompantes como o Bolsonaro dos 17% do início da campanha eleitoral, e não de presidente de 100% dos brasileiros, têm sido contidos agora pelo Congresso, onde o Senado acaba de aprovar um projeto de decreto legislativo que pretende neutralizar o decreto presidencial das armas .

Sem poder pagar uma dívida que alcança 98 bilhões de reais, a Odebrecht entrou na segunda-feira (17) com um pedido de recuperação judicial na 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Tribunal de Justiça de São Paulo. É o capítulo final de uma história surpreendente. É difícil imaginar que políticos e os empresários a eles associados pudessem pensar que corrupção de tal ordem passaria despercebida e impune. Só há uma razão para o delírio financeiro criado em torno desse incesto: a certeza de controlar de um projeto totalitário, e de que já se tinha o poder absoluto, inclusive sobre a Justiça.

O presidente do BNDES, Joaquim Levy, pediu demissão na manhã de domingo, dia 16, depois que o presidente Jair Bolsonaro declarou publicamente que ele estava “com a cabeça a prêmio”. Bolsonaro não gostou da indicação por Levy de Marcos Barbosa Pinto para a diretoria de Mercado de Capitais do banco, porque este foi assessor do BNDES no governo do PT. "Governo é assim, não pode ter gente suspeita", reclamou Bolsonaro, ameaçando "passar por cima" do ministro da Economia Paulo Guedes, chefe de Levy.

Levy foi ministro da Fazenda no governo de Dilma Rousseff - e nem por isso deixou de ser convidado em primeiro lugar. Sua saída acaba sendo um passo em falso do ministro Guedes, responsável pela sua contratação, mas que chegou a lançar no ar a suspeita de que ele poderia estar colaborando com o acobertando de falcatruas cometidas no BNDES dos tempos do PT.

O assessor ideológico do presidente Jair Bolsonaro, Olavo de Carvalho, reagiu ao seu estilo diante da reportagem de A República segundo a qual o ex-ministro da Secretaria de Governo, general Santos Cruz, negou por duas vezes verba para que ele pudesse dar aulas nas TVs e canais digitais do governo. A primeira vez de 320 mil reais, a segunda de 420 mil reais, há cerca de dois meses, quando se acirraram os ataques de Olavo contra o general.

"Quem inventou essa calúnia abjeta?" - escreveu Olavo, no Twitter. "Essa merda de jornalzinho ou o próprio Santos Cruz?"

Santos Cruz não se pronunciou sobre a reportagem de A República. Porém, na manhã de domingo, disparou-a por WhatsApp a partir de seu celular. Na imagem, sublinhou e fez uma flecha na parte do texto em que são mencionadas as propostas para Olavo que ele recusou. O general não falou, mas se deu a entender.

Militares com assento no Palácio do Planalto afirmam que o ex-ministro Carlos Alberto Santos Cruz, demitido da Secretaria de Governo, vinha recebendo pressão cada vez maior de Carlos Bolsonaro. Segundo essas fontes, na primeira reunião de Cruz com Fábio Wajngarten, secretário de Comunicação da Presidência (Secom), próximo de Carlos Bolsonaro, este apresentou ao ministro o projeto de pagar 320 mil reais por mês ao escritor Olavo de Carvalho para que ele tivesse um programa de TV veiculado na EBC, TV Escola e em plataformas digitais do governo. Além disso, Wajgarten propôs a Cruz colocar um olavista em cada uma das secretarias de comunicação dos ministérios. Cruz disse não.

A ideia foi reapresentada uma segunda vez. O valor passou de 400 mil. Cruz disse não, de novo.

A Polícia Federal começou um trabalho de identificação do método e dos autores do hackeamento dos celulares dos integrantes da operação Lava Jato, cujo conteúdo passou a ser publicado pelo site The_Intercept. As mensagens privadas e de grupos da força-tarefa no Telegram de 2015 a 2018 podem ter sofrido escuta por parte de envolvidos nos casos de corrupção investigados pela Lava Jato, por agentes do próprio governo, que também eram investigados, ou forças políticas ameaçadas pelo trabalho da Justiça. The_Intecept passou a distribuir trechos que o próprio site seleciona para distribuir a outros jornalistas e veículos de imprensa e seu editor, o inglês Glenn Greewald, passou a procurar outros veículos de imprensa para obter apoio público.

“Hackers de juízes, procuradores, jornalistas e talvez de parlamentares, bem como suas linhas auxiliares ou escândalos falsos não vão interferir na missão”, afirmou o ministro da Justiça e segurança Pública, Sérgio Moro, nesta quarta-feira, depois de apresentar dados sobre a violência no país, com o registro de uma queda de 23% nos homicídios no primeiro bimestre, em relação ao mesmo período do ano passado.

Moro se referia à divulgação de mensagens que supostamente comprovam que ele teria orientado as investigações da Lava Jato pelo site The Intercept. Tais orientações são legais, conforme apurado por A República (leia aqui). O Conselho Nacional de Justiça arquivou pedido de investigação sobre a conduta de Moro, sem sequer entrar no mérito. Afirmou em nota que não pode abrir um processo de ética contra alguém que já não é juiz.

Os partidos de oposição cavalgaram a oportunidade criada pelo site de esquerda The_Intercept, que publicou áudios vazados do ministro da Justiça, Sérgio Moro, então juiz, de forma a pressionar não apenas o próprio Moro como também todo Judiciário. As conversas de Moro incluem promotores como Deltan Dallgnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba. São simples mensagens de trabalho que, no entanto, tornaram-se munição para um ataque cerrado contra a operação, agora que a avançam outros seis inquéritos contra o ex-presidente Lula, que tornarão mais dificil colocar o ex-presidente em liberdade.

"É um ataque gravíssimo", disse Dallagnol. "É muito natural - é normal - que procuradores e advogados conversem com o juiz, mesmo sem a presença da outra parte. O que se deve verificar é se nessas conversas existiu conluio ou quebra de imparcialidade." O presidente Jair Bolsonaro veio em defesa do ministro. "Nós confiamos irrestritamente no ministro Moro", disse.

O juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara Federal Criminal do Distrito Federal, aceitou na quinta-feira uma nova denúncia do Ministério Público contra o ex-presidente Lula, os ex-ministros petistas Antônio Palocci Filho e Paulo Bernardo e o empresário Marcelo Odebrech.

Os políticos são acusados de corrupção passiva pela liberação para a Odebrecht de 1 bilhão de dólares em empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social para obras em Angola.

Com isso, Lula, que estava contando passar do regime fechado para prisão domiciliar em setembro, vê se acumularem outros processos e denúncias que podem mantê-lo na cadeia.