28 Nov 2021

Ao longo de sua carreira, Sérgio Moro sempre deixou suas posições políticas pessoais em segundo plano, primeiro por conta do exercício da função de juiz, e depois por colocar-se como um quadro técnico dentro do governo, no Ministério da Justiça, cuja política era a política do presidente Jair Bolsonaro. Quarenta dias após sair do seu último emprego, Moro escreveu um artigo para o jornal O Globo, publicado nesta quarta-feira, no qual explicita pela primeira vez suas impressões e posições políticas, a partir do cenário atual. É a base do Moro político, a partir do que ele acredita - um homem moderado, avesso ao populismo e às tendências autoritárias, tanto da esquerda como da direita. E que se coloca de imediato como oposição tanto a uma como a outra: uma opção contra a corrupção e pela conciliação nacional.

A Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga as fake news da rede da família  Bolsonaro encontrou um grande voluma de publicidade federal em sites de notícias falsas ou de propaganda pessoal do presidente. Foram 653.378 anúncios em 47 canais de notícias falsas, incluindo a veiculação da campanha "Nova Previdência", entre 6 de junho e 13 de julho de 2019, conforme revelado pelo jornal O Globo.

Um dia depois da operação da Polícia Federal, que cumpriu ordem do Supremo Tribunal Federal de busca e apreensão jutno a envolvidos no inquérito sobre a produção de fake news por militantes bolsonaristas, o presidente Jair Bolsonaro reagiu de forma inflamada. Diante do Palácio da Alvorada, no lugar que os principais veículos de imprensa abandonaram por serem hostilizados, o presidente fez um discurso espumado. "Não podemos falar em democracia sem Judiciário independente, Legislativo independente, para que possam tomar decisões", disse. "Não monocraticamente, mas de modo que seja ouvido o colegiado. Acabou, p..!"

Um dia depois de vasculhar a vida do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, na chamada "operação Placebo", a Polícia Federal realizou outra batida, cumprindo 29 mandados em cinco estados, como parte da investigação para o inquérito sobre as fake news, por ordem do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes.

Foram alvo colaboradores próximos do presidente Jair Bolsonaro, como oito parlamentares, entre eles as deputadas do PSL Carla Zambelli e Bia Kicis, o ex-deputado Roberto Jefferson, Allan dos Santos, operador do blog Terça Livre, integrante da milícia digital bolsonarista, e o empresário Luciano Hang, dono da Havan, financiador da indústria de fake news de extrema direita. 

O presidente Jair Bolsonaro mandou claro sinal nesta terça-feira de que está agora no controle da Polícia Federal - e de que usará o órgão tanto para defesa própria, como denunciou o ex-ministro Sérgio Moro, como o ataque. Após mudar o superintendente da PF no Rio de Janeiro, foi realizada uma blitz na casa oficial do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, a pretexto de investigações sobre supostos desvios de dinheiro no atendimento ao coronavírus no estado. A operação teve mais efeito de  "vendetta" a um desafeto do presidente, que chamou Witzel de "estrume" na reunião de 22 de abril. Foi chamada pela própria PF de "Operação Placebo". Placebo, como se sabe, é o conteúdo inócuo, utilizado nos remédios, sem ter princípio ativo.

O presidente Jair Bolsonaro tem procurado fazer parecer natural tudo aquilo que é contra-indicado a alguém na sua posição. Depois de dizer na sexta-feira que "é normal" colocar a assinatura do ex-ministro da Justiça Sérgio Moro na demissão do ex-diretor da Polícia Federal, Maurício Valeixo, sem o conhecimento e a concordância de Moro, Bolsonaro fez nesta segunda-feira uma visita de cortesia à luz do dia ao Procurador-Geral da República, Augusto Aras. É Aras quem deve decidir se segue adiante a investigação sobre a tentativa do presidente de influir em investigações da PF que lhe dizem respeito.

A divulgação da reunião ministerial de 22 de abril passado, por ordem do Supremo Tribunal Federal, não apenas mostrou  como funciona o governo porta adentro como criou um efeito colateral danoso. Cada vez que o presidente Jair Bolsonaro tenta explicar-se, piora sua situação, como alguém qeu se mexe na areia movediça e afunda ainda mais. Em meio à confusão que o deixou sem  ministro da Saúde em plena pandemia, à promoção de uma intervenção militar e a linguagem chula e insultuosa que ele transformou em seu estilo de governo, Bolsonaro acabou por admitir que sabia da operação da Polícia Federal contra os filhos antes de sua deflagração, ainda ao tempo da campanha presidencial. Segundo ele, foi alertado da "possibilidade de busca e apreensão" na casa dos filhos e afirmou que o objetivo disso seria "plantar provas" contra a família.

As investigações nas contas do gabinete do senador Flávio Bolsonaro quando deputado estadual no Rio de Janeiro podem virar outra pandemia no governo de seu pai, o presidente Jair Bolsonaro.

O gabinete de Flávio, operado por Fabrício Queiroz, amigo de longa data do presidente, já era suspeito por conta da entrada de dinheiro vivo, seja pela prática da rachadinha como por possíveis depósitos em dinheiro vivo vindo das milícias.

Para completar, a Polícia Civil fluminense descobriu que o PSL nacional repassou, a pedido de Flávio, 500 mil reais ao escritório de advocacia de um ex-assessor hoje envolvido no suposto vazamento de informações da Polícia Federal em benefício da família do presidente.

O desmanche realizado pelo presidente Jair Bolsonaro nos ministérios e demais escalões, trocando nomes que representavam alianças ou propostas de campanha, coloca não apenas novas caras no governo como muda completamente sua proposta. Empurrado pelas investigações contra sua família, por seus novos aliados do centrão e as circunstâncias da crise econômica na esteira da pandemia, Bolsonaro vai se afastando dos compromissos eleitorais originais e dá início a uma nova fase de governo que, pelos nomes e intenções, fica mais parecida com o governo de Michel Temer. E pode rumar para um descolamento completo da sua configuração inicial, ameaçando inclusive o seu último pilar mais importante - o ministro da Economia, Paulo Guedes.

No domingo, o empresário Paulo Marinho, colaborador na campanha eleitoral do presidente jair Bolsonaro, afirmou que a Polícia Federal teria atrasado a investigaçãoo hoje senador Flávio Bolsonaro teria sido avisado antes da operação por um delegado da Polícia Federal da investigação sobre as contas de seu gabinete como deputado estadual do Rio de Janeiro, instruindo que desligasse o ex-assessor Fabrício Queiroz. A operação da PF ainda teria sido adiada para não prejudicar a campanha de Bolsonaro.