2 Jul 2020

"Todos devem estar em sintonia comigo", diz Bolsonaro a ministros

  Qui, 09-Abr-2020
O presidente: ministério dividido O presidente: ministério dividido

Em pronunciamento pela TV na noite desta quarta-feira, o presidenteJair Bolsonaro reiterou sua preocupação com a economia, comemorou o fornecimento pela Índia de matéria-prima para a produção de hidroxicloroquina, a panaceia que ele apresenta como a solução para a pandemia do coronavirus, e mandou um recado ao seu próprio governo. ""Tenho a responsabilidade de decidir sobre as questões do país de forma ampla, usando os ministros que escolhi para conduzir o destino da nação", disse ele. "Todos devem estar sintonizados comigo."

Ao longo do dia, seus ministros foram atacados pela tropa de choque digital do presidente. Uma campanha dna internet procurou passar a impressão de que o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, é contra o emprego do remédio, usado contra malária, no caso do Covid. Mandetta não é contra a hidrocloroxina, apenas afirma que seu uso deve ser feito sob prescrição médica. Bolsonaro, porém, não demite o mninistro, nem o convence - apenas passa a atacá-lo pelas redes sociais. Outro ministro que passou a ser alvo de ataques do bolsonarismo é o general Walter Braga Netto, ministro da Casa Civil, que disse que os outros ministros apoiam Mandetta e representa o suporte militar a uma política nacional de isolamento domiciliar.

Bolsonaro jogou ainda toda a responsabilidade pelo que vier a acontecer sobre prefeitos e governadores, seja qual for o resultado da pandemia no Brasil. "Respeito a autonomia dos governadores e prefeitos", disse. "Muitas medidas de forma restritiva ou não são de responsabilidade exclusiva dos mesmos. O governo federal não foi consultado sobre sua amplitude ou duração."

Em vez de alinhar-se ao esforço coletivo, o presidente quer sair bem na fotografia final, seja como for. Com seu discurso, se a economia voltar logo, será porque ele a defendeu. Se demorar, será por conta dos governadores insensatos. 

A realidade é que governadores e prefeitos discutiram a política com Mandetta. Com seu discurso, Bolsonaro mostra que no momento existem dois governos. Um é dele mesmo e da ala ideológica do ministério, da qual faz parte o ministro da Educação, Abrahan Weintraub, que na semana passada fez comentários racistas contra os chineses pelo Twitter e sugeriu que a China estaria tomando partido da pandemia.

O mesmo fez o filho do presidente, Eduardo Bolsonaro, o que levou à reação do consul geral da China no Rio de Janeiro, Li Yang. "Você é mesmo tão ingênuo e ignorante?" - perguntou. "Seria prudente não criar mais confusões."

Enquanto o ministro da Educação e outros agentes da tropa ideológica se encarregam da diplomacia, a outra ala do governo, mais técnica, segue com Mandetta, de acordo com o padrão internacional adotado em países onde a pandemia chegou primeiro. Com o lockdown, o isolamento domiciliar, a China já está retomando as atividades econômicas, incluindo na província de Wuhan, onde tudo começou. A Itália também já planeja a volta às atividades, depois de uma espiral epidêmica que levou a um duro regime de restrição domiciliar (leia aqui)

O presidente, dessa forma, acabou dividindo em dois o governo, assim como tenta dividir o país. Uma pesquisa do Datafolha, porém, mostrou na semana passada que 76% dos brasileiros apoiam o isolamento domiciliar, contra as indicações do presidente, cujos pronunciamentos são acompanhados de panelaços por todo o país.

Enquanto Bolsonaro falava, e as panelas batiam, um atirador disparou cinco tiros contra dois apartamentos no bairro das Perdizes, em São Paulo, nas ruas Monte Alegre e Iperoig.

A divisão do governo mostra que a ideologia não pode tomar o lugar da técnica, especialmente na saúde. Além de isolar o Brasil do que se faz em todo o mundo, Bolsonaro fica cada vez menor dentro do próprio governo, que tenta recuperar pela TV,  eexigindo que o ministério siga suas ideias, em vez de acompanhar o parecer dos ministros que ele mesmo escolheu.