17 Nov 2019

Oposição tenta blindar Greenwald contra investigação

  Ter, 09-Jul-2019
Greenwald: jogo político Greenwald: jogo político

Um grupo de 40 advogados reuniu-se na segunda-feira com o dono do site The Intercept, Glenn Greenwald, como parte de um esforço para blindá-lo contra a investigação sobre o vazamento de conversas privadas de promotores da Lava Jato com o atual ministro da Justiça, Sérgio Moro.

Chamado ao Senado para explicar-se, Greewald usou a oportunidade para encenar seu teatro. Ciritcou a "amnésia" de Moro e se colocou como vítima de uma "campanha de ódio" do PSL, partido do presidente Jair Bolsonaro.

No seu depoimento, Greenwald mostrou-se mais um desses valentões do discurso vazio, dos quais a política anda cheia.  "Essas ameaças estão sendo provocadas pelo partido do governo, eles estão na internet o tempo todo usando documentos forjados e falsificados", disse, como se não estivesse também na internet o tempo todo. "Eles ficam na internet, mas não têm coragem de chegar aqui [no Senado], na minha cara, para discutir essas acusações."

Esforço de proteção

Há um esforço político para proteger não apenas Greenwald como a continuidade da publicação de conversas ilegalmente grampeadas, utilizadas para fazer pressão pela liberdade do ex-presidente Lula.

Essa pressão recai não apenas sobre o Ministério da Justiça, onde Moro se encontra ao mesmo tempo na condição de alvo e de autoridade encarregada de investigar os hackers que fornecem material ao The_Intercept. O tribunal de Contas da União solicitou ao Conselho de Atividades Financeiras, órgão do Ministério da Economia, esclarecimentos no sentido de informar se Greenwald está sob investigação.

Em resposta ao ofício do TCU, o presidente substituto do Coaf, Jorge Luiz Alves Caetano, informou que "não realiza investigações, nem mesmo a pedido da Polícia Federal ou de qualquer outro órgão, tampouco analisa financeiramente as contas de pessoas físicas ou jurídicas".

Contudo, deixou margem para a abertura de outro tipo de investigação. "Poderá ocorrer que o Coaf produza um Relatório de Inteligência Financeira ao obter, por comunicação feita pela Polícia Federal, algum elemento de informação que se revele, em conjunto com informações já possuídas pelo Coaf, significativo para a identificação de fundados indícios da prática de crime de lavagem de dinheiro ou de qualquer outro ilícito."

Prosseguiu: "Em que pese o jargão se referir a esse modelo como 'RIF a pedido', não se trata, a rigor, de um RIF por encomenda. Segue sendo uma autuação desempenhada ex oficio [por imperativo legal]".

Negócio suspeito

A Polícia Federal tem razões para investigar o The_Intercept, independentemente do material vazado. O site funciona após uma doação de 240 milhões de dólares realizada por um milionário, o Pierra Omidyar, dono do site de e-commerce E-Bay e do serviço de pagamentos Pay-Pal.

Trata-se de um negócio suspeito: é muito mais dinheiro do que o necessário para colocar em funcionamento e manter um site como The_Intercept.

Quando decidiu patrocinar o site de Greewald, Omidyar disse que desejava colocar ali o mesmo valor que Jeff Bezos pagou pelo The Washington Post - um dos mais tradiconais jornais americanos, com uma marca poderosa e uma estrutura que o The_Intercept jamais teve.

Porém, esse dinheiro pode servir para pagar hackers e utilizar o site como negócio de fachada para outros negócios obscuros de compra e venda de informação. Omidyar é investigado por financiar o projeto Haven, App para "jornalistas investigativos", que seria na realidade para espionar imagens, sons e arquivos de celulares.

Espionagem

Ao vazar material político por meio do site, que alega sigilo de fonte, Greenwald acaba servindo a outros interesses, sob o manto da imprensa. Ocorre que o sigilo de imprensa não serve para acobertar um crime como a invasão de conversas privadas, ainda que sob a alegação de ser material de interesse público.

A linha entre o que é ou não é imprensa pode ser delimitada com base no  caso do próprio Greenwald. Quando publicou o material de Edward Snowden sobre a espionagem americana, Greenwald trabalhava para um jornal da grande imprensa inglesa, o The Guardian.

A polícia britânica entendeu que o que ele fazia não era jornalismo e acabou obrigando o jornal a apagar seus computadores diante de seus oficiais. Greewald deixou o The Guardian e mudou-se para o Rio de Janeiro. Seu companheiro, o brasileiro Davi Miranda, foi interrogado por nove horas no aeroporto antes de ser liberado.

"Testemunha-chave"

Ao chegar ao Brasil, Greenwald ofereceu ao Congresso indícios de que o Brasil estava sendo também espionado, no governo de Dilma Rousseff.  Foi protegido como "testemunha-chave" por iniciativa dos deputados e recebeu a recomendação de não voltar ao seu país.

Não se sabe ainda que benefício as supostas informações sigilosas de Greenwald trariam para o governo brasileiro. O certo é que, no Brasil, ele se transformou num exilado incômodo.

Enquanto se procura criar um muro jurídico ao seu redor, a popularidade do ex-juiz Moro é a maior entre as figuras do governo, segundo as pesquisas, pelo simples fato de que o brasileiro está muito mais interessado em mandar os corruptos para a cadeia, mesmo que para isso um juiz tivesse que agir como um justiceiro.

Uma pesquisa encomendada pela XP Investimentos ao Ibespe mostrou que Moro tem apenas 17% de reprovação junto aos brasileiros. É a figura mais popular do país entre 11 lideranças - tem 67% de avaliação positiva, enquanto o presidente jair Bolsonaro aparece com 60%, o ministro da Economia Paulo Guedes com 46% e Lula com 43%.

Popularidade

Mesmo que as conversas divulgadas pelo The_Intercept sejam verdadeiras e possam carregar conteúdo passível de reprovação, o cidadão brasileiro parece pouco interessado nas questões éticas ou mesmo legais.

Segundo pesquisa do Atlas Político de 11 e 12 de junho, a aprovação de Moro caiu de 60% da pesquisa anterior para 50,4%. Os que reprovam a ingerência de um juiz na investigação de um crime foram 58%. Contudo, 49,4% dos entrevistados ainda são a favor da prisão de Lula.