28 Nov 2021

O ministro entra e sai pela porta giratória

  Ter, 30-Jun-2020
O presidente e o novo ex-ministro: porta giratória O presidente e o novo ex-ministro: porta giratória

O presidente Jair Bolsonaro se acostumou a ouvir críticas por conta das decisões com o crivo ideológico, que partidariza o governo, como ocorreu no ministério da Educação - onde o ex-ministro Abrahan Weintraub ficou mais conhecido por participar de protestos anti-democráticos e por seus tuítes criando problemas até na diplomacia com a China. Porém, quando Bolsonaro tira a ideologia da frente e tenta apenas acertar, mostra o segundo problema de seu governo, tão ou mais grave que o primeiro: a incompetência.

É o que mostra a nomeação do sucessor de Weintraub, Carlos Alberto Decotelli, o nmais novo ex-ministro da era Bolsonaro, demitido tão logo foi empossado, assim que se descobriu que seu currículo, alardeado em prosa e verso na posse pelo próprio presidente, não passava de uma fabricação barata, como bijuterias do academicismo. Pego na mentira, Decotteli mal assumiu e já caiu.

Para a desonra cair mais do lado de quem pregou o engodo, ficou para Decotelli pedir demissão, depois da verificação que seu título de doutorado não passava de um curso de verão e a informação de que ele é professor da Faculdade Getúlio Vargas foi  desmentida pela própria instituição.

Primeiro, Bolsonaro chamou a falácia curricular de "equívoco" por parte de Decotelli, que teria "reconhecido o erro". Mas o presidente deve ter ouvido mais gente depois disso, e ficou mais claro que a situação se tornou insustentável.

O surpreendente é que Bolsonaro, entre os tantos ministros já queimados no seu curto governo, parecia ter acertado dessa vez. O nome de Decotelli, um ex-militar com um perfil mais moderado e aberto ao diálogo que seu antecessor, caiu melhor no meio político, assim como no educacional. Para completar, Bolsonaro agradou as minorias que sempre o desancam, ao escolher um ministro negro, um gol no placar politicamente correto, e sem o ranço do olavismo.

A descoberta da mentira, porém, jogou água no chope do acerto presidencial. Irritado, Bolsonaro reclamou de ter passado vergonha.

Se foi vergonha, não seria a primeira. Não se pode esquecer que Decotelli já esteve no governo, entre 5 de fevereiro e 28 de agosto do ano passado, quando dirigiu o Fundo Nacional da Educação,o FNDE, cargo para o qual foi convidado com as mesmas credenciais apresentadas agora.

O caso Decotelli mostra bem a roda viva do governo Bolsonaro, um case a figurar no rol dos grandes exemplos de tudo o que se pode fazer de errado no departamento de RH. Desde que Decotelli saiu do FNDE, outros três já ocuparam o cargo, além dele: Rodrigo Sérgio Dias, que serviu até dezembro; depois, Karine Silva dos Santos; e, a partir de 1 de junho, Marcelo Lopes da Ponte, este indicado pelo PP, um dos partidos do Centrão.

O próprio Decotelli torna-se um caso bizarro de servidor que é demitido duas vezes pelo mesmo governo e em menos de um ano, sendo que, na segunda vez, depois de voltar da primeira demissão com uma promoção no próprio ministério onde serviu. foi também o terceiro ministro da Educação de Bolsonaro em um ano e meio de governo, já se sabendo que haverá ainda um quarto.

Bolsonaro reúne todas as características do administrador atrabiliário. No Palácio do Planalto, é conhecido por seu temperamento mercurial. Não gosta de ser contrariado, grita com colaboradores, fala palavrões e instaura o medo ao seu redor, porque ninguém sabe o que vai lhe causar a ira.

Com esse Calígula  por perto, os estamentos do Executivo entram em paralisia, porque, se o próprio Bolsonaro não aprova uma medida qualquer, ela não vai à frente. Como os subordinados receiam perder o emprego por qualquer coisa, tudo tem de passar por ele antes. No meio empresarial, isso tem nome: incompetência. É assim que, nas emrpesas, os chefes perdem seu emprego.

O sintoma dessa deficiência é o fato incontestável de que Bolsonaro tem primado pelo entra e sai do ministério, tão instável quanto o presidente, com reflexos sobre o país. Com Decotelli, que entrou e saiu por uma porta giratória, o presidente atingiu o ápice na arte de executar um manual de administração pelo avesso: mesmo quando acerta, dá errado.

Dessa forma, a paralisia decisória do governo vai subindo a escada hierárquica. Como seus filhos são o 01, 02, 03 e 04, ele corre o risco de ser chamado ainda de Presidente 00.