19 Nov 2019

O desafio da educação: fazer o Brasil crescer

Por   Sex, 23-Nov-2018
Stanford: a educação para o desenvolvimento Stanford: a educação para o desenvolvimento

Ainda no início da campanha eleitoral, o presidente eleito Jair Bolsonaro visitou a cidade de Araxá, no triângulo mineiro, para ver as escavações de nióbio feitas pelas mineradoras que exploram a região. Deixou registrado um vídeo no Youtube, com seu entusiasmo. "Se o Estados Unidos têm o Vale do Silício, podemos ter aqui o Vale do Nióbio", disse ele.

 Bolsonaro acertou num outro alvo. No Vale do Silício, apesar do nome, não há nenhuma exploração de silício, embora esteja lá a grande fonte de recursos da economia americana e global, responsável pela brutal concentração de renda mundial nos Estados Unidos. Ali não existe extração mineral: "Vale do Silício" é uma referência metafórica às empresas de alta tecnologia, que ali gravitam em torno de uma universidade e da verdadeira fonte de riqueza do mundo contemporâneo: a educação.

Localizada em Palo Alto, a meia hora de carro de San Francisco, a Universidade de Stanford é a escola de onde saíram alunos brilhantes que fundaram empresas como o Google. Ao seu redor, mutiplicaram-se negócios voltadas para a tecnologia, que não produzem os chips dos computadores, onde o silício entra como componente, mas um valor ainda maior: a inteligência e o conhecimento. Na era digital, esse é o novo grande capital.

Com a nomeação do próximo ministro da Educação, o colombiano Ricardo Vélez Rodríguez, professor colaborador da UFJF e da Escola de Comando e Estado Maior do Exército, um crítico do Enem e simpatizante da Escola Sem Partido, Bolsonaro deixou claro que sua intenção é desmantelar a doutrinação política deixada como herança educacional pelos governos do PT. Porém, Rodríguez tem na Educação um desafio bem maior.

Não basta desideologizar o material didático elaborado pelo PT nos últimos anos. É preciso um projeto tanto de base, capaz de tirar a população brasileira do seu estado de indigência educacional, como ir além. É urgente mudar o perfil do Brasil extrativista, território de exploração para mineradoras internacionais, e celeiro do mundo" - exportador de soja e outros produtos agrícolas de baixo valor agregado. Para chegar ao primeiro mundo, de fato, o país precisa fazer um investimento sério em conhecimento e tecnologia - a nova fronteira da riqueza mundial.

Nova moeda

Os Estados Unidos são o melhor exemplo de qual é a nova moeda do mundo contemporâneo. Seu Produto Interno Bruto representa a metade de toda a riqueza produzida pelas dez maiores economias do mundo, com a exceção da China. E o PIB americano é quase o dobro do PIB chinês, que também vem crescendo exponencialmente, de acordo com os dados do departamento de Agricultura americano. Na lista das maiores economias do mundo, o Brasil, que já ocupou a sexta colocação, caiu para oitavo, com um PIB sete vezes menor que o americano.

Mais que o nível de atividade, a diferença de renda está no valor dos bens e serviços produzidos por cada país. A economia brasileira baseia-se na produção com baixa qualificação humana e tecnológica, com mais custo e, no fim, menor valor agregado.

A educação é em grande parte responsável por isso. A radiografia do ensino brasileiro é alarmante. Nunca houve tanta gente na escola (45 milhões de brasileiros), mas a qualidade do ensino caiu na mesma proporção em que aumentou a politização do conteúdo do material escolar. Segundo dados recentes coletados pelo próprio Ministério da Educação, 95% dos alunos saem do ensino médio sem conhecimentos básicos em matemática, 78,5% sem saber português num nível adequado e 40% dos universitários são considerados analfabetos funcionais.

A falta de qualificação é apontada por estudos econômicos como um grande empecilho à produtividade na indústria brasileira hoje. "Diferentemente dos países que conseguiram ascender à condição de 'desenvolvidos' no século XX, o Brasil fundamentou seu crescimento econômico essencialmente na acumulação de fatores de produção e não em ganhos de produtividade", afirma o relatório "Produtividade no Brasil", do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), encomendado pelo governo federal. "A conclusão é que o ambiente de negócios do Brasil permaneceu praticamente estagnado entre 2003 e 2014, sem melhorias em quase nenhum indicador. Em um mundo em que a maioria dos países apresentou melhorias significativas nos seus ambientes de negócios, a estagnação do Brasil piorou significativamente a posição relativa do país."

No estudo, fica clara a influência direta da educação, do conhecimento e da tecnologia no desempenho econômico dos países. "O avanço do setor de serviços, em detrimento da indústria, nos países mais desenvolvidos (notadamente Estados Unidos e Alemanha), calcado em atividades mais intensivas em tecnologia da informação, foi capaz de sustentar uma trajetória de expansão da produtividade, contribuindo para a ampliação de seu diferencial em relação à economia brasileira", afirma o Ipea.

Segurança nacional

Como intelectual próximo dos militares, Rodríguez pode pensar na Educação em termos de segurança nacional. Ocorre hoje uma drenagem de recursos e um apoderamento do país pela tecnologia e o conteúdo de empresas estrangeiras. Com o meio digital, elas romperam a barreira legal dos 30% de capital estrangeiro permitido pela Constituição para instituir no Brasil veículos de informação com influência política. Com força de negócios em escala mundial, surgiu uma concorrência massacrante para as empresas locais.

O conteúdo de informação e seu mercado passaram a ser praticamente monopolizados pelo Google e redes sociais organizadas por empresas como o Facebook e o WhatsApp. As redes de varejo, logística e transporte são substituídas progressivamente por empresas como a Amazon, que, depois de fazer a venda, passou a atuar também na distribuição.

Outros países começaram a desenvolver tecnologia competitiva. A China hoje aparece como a maior desafiante dos Estados Unidos em tecnologia digital. Esse desenvolvimento se permitiu não somente com financiamento do governo, mas com a lei: a China, que desde 2001 passou de zero a 700 milhões de smartphones no país, simplesmente proibiu a competição de empresas estrangeiras. 

Como resultado, a Tencent, maior rede digital chinesa, que começou como um simples chat virtual em 1998, é hoje avaliada pelo mercado em 560 bilhões de dólares, mais que o Facebook. Depois de uma era em que se tornaram conhecidos pela cópia, os chineses passaram a produzir tecnologia original, de scanners portáteis para tomografias do corpo humano a cérebros e robôs artificiais e sistemas de radar e bombardeio. 

 “A tecnologia de radar da China está se aproximando do nível mundial ou é tão avançada como a tecnologia estrangeira em geral", afirmou Hu Mingchun, diretor do instituto de pesquisa No.14 da China Electronic Technology Group Corporation (CETC), e também deputado do Congresso Nacional do Povo. "Agora estamos no estágio de avançar para o protagonismo.”

"Como mudaremos o mundo?"

Para produzir alta tecnologia, os americanos começaram também por conta própria, e pelo começo: a educação pública de qualidade. Participaram desse processo muitos empresários do setor privado, como o irlandês radicado nos Estados Unidos Andrew Carnegie, que doou a maior parte de sua fortuna para a criação de uma rede de bibliotecas, e Leland Stanford, outro empresário do aço, que fundou Stanford.

Hoje, no Knight Management Center, os professores recebem os alunos de empreendedorismo na primeira aula com uma pergunta: "Como podemos mudar o mundo?" Em qualquer outro lugar, poderia parecer pura retórica. Lá, é bastante real. De Stanford, saíram alguns dos empresários mais brilhantes do mercado contemporâneo, que, mais do que emprego e renda, estão criando um novo mundo.

Dali, saíram os fundadores de empresas como Google, Yahoo, Cisco, Gap, Dolby, eBay, Linkedin, Netflix, Nvidia e Silicon Graphics, entre outras. Na porta da escola, gravada no cimento, está a pegada de Phil Knight, fundador da Nike, gravada no concreto diante da Business School, depois de doar 105 milhões de dólares à Universidade, em agradecimento para a escola onde se formou.

Por causa da mão de obra, outras empresas migraram para o Vale do Silício, como a Apple de Steve Jobs, que radicou-se ali e foi paraninfo de Stanford em 2005. Seu discurso na Universidade, com mais de 30 milhões de visualizações no Youtube, tornou-se o mais célebre evento do Stanford Stadium. Seus restos mortais estão no cemitério de Alta Mesa, em Palo Alto, numa tumba não identificada, para não se tornar objeto de romaria por parte dos aficcionados em tecnologia que circulam pela universidade e as ilustres empresas ao seu redor.

 “Nossa marca na universidade é agregar gente capaz de causar impacto, que procura mudar organizações e o mundo”, diz o chefe do programa Stanford Ignite, Yossi Feinberg. “Vamos onde se pode causar impacto e dar as ferramentas a pessoas de talento.” Com 16 ganhadores do prêmio Nobel, 4 vencedores do Pullitzer, o mais importante prêmio de jornalismo nos Estados Unidos, e 19 laureados com a National Medal of Science, a universidade produz profissionais de ponta em todas as áreas, estimulando-os com as mesmas ferramentas: ousadia, flexibilidade e espírito crítico.

É uma antiga receita da educação. No Vale do Silício, em vez de se extrair  minério, se cultiva a sabedoria - algo que hoje vale ouro. Uma lição que está aí para o Brasil aprender.