23 Jul 2019

No governo da incerteza, Levy sai do BNDES

  Dom, 16-Jun-2019
Levy: ninguém está seguro Levy: ninguém está seguro

O presidente do BNDES, Joaquim Levy, pediu demissão na manhã de domingo, dia 16, depois que o presidente Jair Bolsonaro declarou publicamente que ele estava “com a cabeça a prêmio”. Bolsonaro não gostou da indicação por Levy de Marcos Barbosa Pinto para a diretoria de Mercado de Capitais do banco, porque este foi assessor do BNDES no governo do PT. "Governo é assim, não pode ter gente suspeita", reclamou Bolsonaro, ameaçando "passar por cima" do ministro da Economia Paulo Guedes, chefe de Levy.

Levy foi ministro da Fazenda no governo de Dilma Rousseff - e nem por isso deixou de ser convidado em primeiro lugar. Sua saída acaba sendo um passo em falso do ministro Guedes, responsável pela sua contratação, mas que chegou a lançar no ar a suspeita de que ele poderia estar colaborando com o acobertando de falcatruas cometidas no BNDES dos tempos do PT.

Com mais esse estrago no próprio governo, Bolsonaro vai acumulando baixas. A demissão de Levy vem logo em seguida à saída do ministro da secretaria de Governo, o general Santos Cruz, demitido por segurar contratações "não técnicas" para os cargos comissiondos - uma diretriz inicial do próprio presidente - e impedir que o assessor ideológico de  Bolsonaro, Olavo de Carvalho, assumisse um programa educativo na TV Escola e outros veículos do governo.

Sem Cruz no caminho, Bolsonaro indica que deve promover agora uma verdadeira caça às bruxas dentro da máquina pública.  "No governo de Jair Bolsonaro, a ideologia virou um outro nome para inquisição", escreveu o colunista Josias de Souza, do UOL. "Sob o capitão, todas as perversões são permitidas, exceto as recaídas ideológicas."

A demissão de Levy expôs um atrito com o próprio Guedes, que cresceu desde março, quando o ministro da Economia declarou ao jornal O Estado de S. Paulo, que o BNDES teria de devolver R$ 126 bilhões, mesmo contra a resistência de Levy.

Mais que as devoluções, incomodava a lentidão com que Levy levava adiante a abertura da chamada "caixa preta" do BNDES, que, segundo Bolsonaro prometeu em campanha, teria que ser aberta no início do governo.

Levy esbarrava nos funcionários do banco, para quem não existe "caixa preta". Em março, apontou o fato de que só em 2016 o BNDES criou uma área de verificação do cumprimento de normas e leis e afirmou que não se surpreendia por terem acontecido "coisas esquisitas". Em maio, afastou a chefe do Departamento de Meio Ambiente do banco, depois que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, divulgou uma análise apontando má aplicação dos recursos do Fundo Amazônia.

 "Ninguém fala em 'abrir a caixa-preta' e ainda nomeia um petista", disse Guedes no sábado ao jornalista Gerson Camarotti, do G1. "Então, fica clara a compreensão da irritação do presidente." Contudo, foi Guedes quem colocou Levy em primeiro lugar.

Cruz no caminho

Além de Cruz, que se opunha às contratações ideológicas no cargos comissionados e barrou a ideia de colocar secretários de comunicação ligados a Olavo de Carvalho nos ministérios, também foi demitido na semana passada o general Juarez Aparecido de Paula Cunha, presidente dos Correios.

Dessa  vez, o problema foi Cunha ter posado para fotos com deputados do PT e do PSOL e se posicionado contra a privatização da estatal. Bolsonaro comunicou a decisão num café da manhã com jornalistas no Palácio do Planalto, antes mesmo de informar o próprio demitido.

Enquanto as vítimas ideológicas de Bolsonaro se sucedem, o rigor ético não se aplica a ministros sob suspeita. Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, foi condenado em primeira instância por improbidade administrativa. Henrique Mandetta, da Saúde, denunciado pelo Ministério Público por fraude em licitação, tráfico de influência e caixa dois. Marcelo Álvaro Antônio, do Turismo, é investigado pela Polícia Federal pelo esquema de candidaturas de laranjas para apropriação das verbas de campanha.

Mau presságio

Embora esteja dentro da lógica do governo Bolsonaro, a saída de Levy do BNDES se torna um mau presságio em vários aspectos. Primeiro, pelo fato de que não é a primeira vez que ele sai do governo - e as coisas pioram depois.

Ex-funcionário do Bradesco, no governo Dilma Rousseff ele era uma espécie de interventor negociado com o setor privado. Garantia apoio a Dilma, em troca de um esforço para colocar em ordem as contas públicas e moralizar a administração.

Sua saída acabou sendo entendida como a opção de Dilma pela ideologia acima da razão. A presidente sinalizou que continuaria com as políticas do PT que estavam levando o país ao desastre - e precipitou sua queda.

Agora, Levy cai de novo, num governo de outra ideologia, e a sensação é a mesma. Sua saída, assim como a de militares recém-defenestrados, mostra que não há hoje dentro do governo poder com capacidade de resistência diante das decisões intempestivas de Bolsonaro, um incinerador de colaboradores em praça pública. E que a ideologia vai ganhando espaço sobre a lógica e a razão econômicas.

"Uma pena [o país] ter perdido um nome como o Joaquim Levy", disse o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que afirmou ter ficado "perplexo" com a forma pela qual ele foi defenestrado. "Em especial, a forma como ele saiu foi uma covardia sem precedentes. Não digo nem do presidente [Jair Bolsonaro], digo de quem nomeou, que é o ministro da Economia [Paulo Guedes]."

Some-se esse episódio à incerteza em relação a um governante que não dá qualquer segurança aos seus colaboradores. Com o ministro Sérgio Moro, o presidente adotou uma posição dúbia, depois que vieram à tona gravações de suas conversas com o promotor Deltan Dallagnol, usadas para desestabilizar os processos da Lava Jato. "Meu pai dizia para mim: 'Confie 100% só em mim e minha mãe'", afirmou o presidente sobre Moro, apenas dois dias depois de dizer que confiava nele "irrestritamente".

Como fica claro no caso de Levy, assim como no das demissões anteriores, promovidas direta ou indiretamente por Bolsonaro, neste governo ninguém está seguro. O que inclui o próprio presidente.