19 Fev 2020

Neo-deputados indicam vida dura no Congresso

  Qua, 12-Dez-2018
Zaratini, Agostinho e Kataguiri: dureza Zaratini, Agostinho e Kataguiri: dureza

Na manhã de sexta-feira, em um auditório na rua 13 de Maio, em São Paulo, três deputados de diferentes partidos reuniram-se para discutir como será o relacionamento do governo com o Congresso, em um evento promovido pela Associação Brasileira de Relações Governamentais e Institucionais (Abrig). Um deles era veterano, Carlos Zaratini, líder do PT na Câmara, deputado desde 2007. Dois eram estreantes: Rodrigo Agostinho (PSB-SP) e Kim Kataguiri (DEM-SP). Os três indicaram que o governo de Jair Bolsonaro terá muitas dificuldades para aprovar reformas no Legislativo.

Além da pulverização partidária, que não dá mais que 10% das cadeiras na Câmara a nenhuma legenda, preveem obstáculos ainda maiores por conta dos prazos regimentais, a acomodação aos trâmites do Congresso pelos eleitos de primeira viagem, que são metade da Câmara, e uma novidade política de efeito ainda imprevisível: a independência em relação às próprias legendas e blocos suprapartidários, por conta da base eleitoral conquistada, em grande parte, nas redes sociais, que devem mantê-los sob pressão constante e individualizar a atuação dos parlamentares, transformando em pó a fidelidade partidária.

"Há uma grande expectativa em relação ao Congresso, mas também muitas dúvidas", afirmou Agostinho. Ex-prefeito de Bauru e surfista político do movimento ambiental, ele observou que 90% dos votos de deputados eleitos no estado de São Paulo vieram da capital. Para ele, os deputados estão mais conectados a uma base virtual difusa que a uma base regional, projetos específicos ou mesmo temas capazes de aglutinar blocos partidários. "Quem decide agora é o eleitor na rede social, com um canal direto com o político", disse ele. "É uma situação nova para as relações de força e como será feita a política daqui para a frente."

Quarto deputado mais votado, que nasceu para a política nas redes sociais com o Movimento Brasil Livre, Kataguiri afirmou que não votará de acordo com a bancada, por recomendação de grupos de interesses e nem mesmo pelo que dizem seus eleitores nas redes sociais.

"Votarei por mim mesmo", disse ele, para quem, ao elegê-lo, os eleitores escolheram "um filtro". "Há nisso uma vantagem, porque o Congresso será menos fisiológico", disse. "Por outro lado, o convencimento dos deputados [na aprovação de projetos] ficará mais difícil, porque será muito individual."

Kataguiri se coloca como uma peça livre no tabuleiro, independente do próprio partido pelo qual se elegeu. Posto como virtual candidato à presidência da Câmara, ele afirma que o cargo "tem sido usado para negociar vantagens". "Hoje o presidente da Câmara tem um poder grande", disse. "Questiono os seus vícios e práticas não republicanas. Quem se lança é para fazer política de gabinete, achacar ministros e o presidente da República. Minha proposição é mudar isso."

O detalhe é que o presidente da Câmara hoje é Rodrigo Maia, do mesmo DEM de Kataguiri. Perguntado se já fez esse discurso diante de Maia, ele sorriu: "Não é a conversa que ele quer ter comigo".

Guerra interna

Kataguiri apontou ainda a existência de cerca de 40 deputados "sem ideologia definida" e que, assim, seriam votos incertos. Por último, apontou as dissensões internas do próprio governo, que tem exposto conflitos entre futuros ministros e as alas civil e militar sobre as políticas a serem adotadas, além de "conflitos internos do próprio PSL", segundo ele um partido "heterogêneo" com muita gente eleita também pelas redes.

Enquanto os três deputados debatiam essas questões no auditório em São Paulo, o próprio PSL de Bolsonaro de fato patrocinava mais uma de suas guerras internas diárias, que costumam ser expostas a céu aberto pela prática de exibir tudo pelas redes sociais - sinal de que está longe sequer de alcançar a unidade interna, quanto mais de agregar uma base ainda mais ampla.

Dessa vez, a deputada Joice Hasselman abriu fogo contra o deputado federal Eduardo Bolsonaro, por conta da disputa da vaga de líder do PSL na Câmara. Articuladora e grande agente de propaganda virtual do partido, Hasselman primeiro chamou Bolsonaro de "bebê" e, depois que a conversa engrossou, de "machão da vez".

O filho de Bolsonaro não deixou por menos. Acusou-a de "atropelar" colegas de partido, chamou-a de "sonsa" e afirmou que "tem fama de louca".

Contra Joice, levantou-se também o Major Olímpio, eleito senador pelo PSL paulista. "Se houve manifestação no imaginário dela de que não existia liderança e que só ela é capaz de exercer, isso é um grande equívoco", afirmou. "Joice sempre fala por ela, não pelo partido." Por fim, acusou-a de vazar para a imprensa conversas de WhatsApp com a discussão. Jair Bolsonaro chegou a indicar que faria uma reunião para apaziguar os ânimos, mas, ainda convalescente, deixou a briga para depois.

Reformas complicadas

Para os três deputados, a aprovação dos projetos polêmicos, a começar pela previdência, não será fácil.  "A reforma previdenciária é algo que mexe com toda a sociedade", observou Zaratini, que apontou que segundo o regimento há mais de 40 sessões para discussão somente na comissão para a confecção do relatório que vai ao plenário. 

Para eles, será inviável votar a reforma já apresentada pelo governo, que seria uma forma de ganhar tempo, já que ela ficará marcada como "a reforma do Temer". "Há diversas dificuldades jurídicas e legislativas", disse Kataguiri. "Complica ainda mais porque é a primeira reforma. É como se a primeira partida fosse a final do campeonato. E, se o governo perder, no primeiro jogo terá perdido todo o campeonato."

"Uma reforma tributária será ainda mais difícil", previu Zaratini. Além das reformas da previdência e da tributária, ele acredita que deveria ser discutida prioritariamente uma reforma do sistema financeiro, dada a concentração em "cinco grandes bancos", cujo oligopólio mantém altas as taxas de juros. "Não é possível ter um setor ganhando tanto, em prejuízo de todos os outros", disse ele.

Entre os representantes de entidades do setor privado, o realismo dos deputados, embora anuncie obstáculos, acabou agradando. Nem mesmo a pulverização partidária pareceu ser um problema, diante das vantagens. "Eleitos com voto pulverizado ou empoderados pelo eleitor, esses novos deputados são ativistas", afirmou Lucien Belmonte, superintendente da Abividro. "Esse ativismo no mandato dará uma nova lógica à política, com mais transparência no Congresso, porque se acontecer algo, isso logo virá à tona por meio deles. Isso vai mudar a regra do jogo, o que nos dá muita esperança."

Esperança, há. Mas não virá fácil, nem como um milagre.