19 Set 2019

Na fritura extrema, Moro fica em silêncio

  Sáb, 24-Ago-2019
Moro: silêncio Moro: silêncio

O ministro da Justiça, Sérgio Moro, sabe agora que os maiores obstáculos para sua nova vida como político se encontram mais dentro que fora do governo. O ataque constante das conversas vazadas pelo site The Intercept de seus tempos como juiz da Lava Jato morreram na praia, mas ele enfrenta um problema maior, que é seu proprio chefe, o presidente Jair Bolsonaro.

A interferência de Bolsonaro na Polícia Federal, especialmente a troca do superintendente no Rio de Janeiro, onde seu filho Flávio é investigado por lavagem de dinheiro e corrupção, criou uma onda de desmoralização do ministro perante os próprios policiais de carreira. Para eles, o

ministro tem sido atropelado e humilhado pelo presidente.

Mais que defender a corporação, eles enxergam o risco de paralisação das investigações da Lava Jato. A retirada do Coaf da zona de influência de Moro, bem como a ação de Flávio no STF barrando as investigações sobre seu gabinete, colocaram o ministro de repente num governo que vai contra tudo o que ele se propôs e pelo que deixou o cargo de juiz.

Bolsonaro, que prometeu "liberdade total" a Moro quando o levou ao ministério, agora afirma que ele, o presidente, é "quem manda".

Na campanha, Bolsonaro afirmou publicamente que a escolha do chefe da Polícia Federal era atribuição do ministro da Justiça. "Concordei com 100% do que ele [Moro] propôs", disse o então presidente eleito Bolsonaro.

Agora, com a família investigada, Bolsonaro diz que a atribuição de nomear os chefes da Polícia Federal é dele, segundo a lei.

Na quarta-feira passada, o presidente ameaçou trocar também o diretor-geral da PF, Maurício Valeixo, uma escolha de Moro, com quem ele trabalhou na Lava Jato. O ministro nada disse.

Em oito meses de governo, o ex-juiz vai colecionando desapontamentos. O presidente do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, Roberto Leonel, um de seus maiores aliados, foi demitido.

Bolsonaro assinou uma Medida Provisória que permite, uma vez aprovada no Congresso, fazer nomeações políticas no órgão, contrariando normais internacionais - um órgão que investiga políticos não pode ser dirigido por políticos ou gente por eles indicada.

A primeira frustração do ministro no governo foi a edição do decreto das armas, em que sequer foi uvido pelo presidente. Em fevereiro, precisou revogar a nomeação de Ilona Szabó de Carvalho, sua indicação pesoal, como membro suplente do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, por ordem de Bolsonaro.

O projeto anticrime de Moro nunca foi adiante no Congresso, pro falta de interesse tanto dos congressistas quanto do próprio governo. Bolsonaro disse apenas que ele teria de esperar um pouco mais.

Recentemente, Moro indicou um nome ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica. Ficou sabendo que sua indicação tinha sido recusada pela imprensa. Perdeu o Coaf para o Ministério da Economia, em decisão do Congresso, contra a qual o governo nada quis fazer - ao contrário, usou o Coaf como boi de piranha para fazer andar a reforma previdência.

Será difícil, diante de tantos problemas, continuar em silêncio ou fazer cara de paisagem. Para Bolsonaro, expelir Moro do governo terá sido também uma má ideia. O presidente anti-corrupção de repente vai se tornando o inimigo número 1 da Lava Jato.

Com Moro fora, ele não apenas corre o risco de passar para a próxima eleição como o defensor da corrupção familiar como eventualmente ganhará um adversário que, sem poder voltar atrás na carreira como juiz, terá reforçada sua imagem de combatente da corrupção, contra tudo e contra todos.