6 Jun 2020

Governo passa por metamorfose radical

  Ter, 19-Mai-2020
O presidente: desmanche O presidente: desmanche

O desmanche realizado pelo presidente Jair Bolsonaro nos ministérios e demais escalões, trocando nomes que representavam alianças ou propostas de campanha, coloca não apenas novas caras no governo como muda completamente sua proposta. Empurrado pelas investigações contra sua família, por seus novos aliados do centrão e as circunstâncias da crise econômica na esteira da pandemia, Bolsonaro vai se afastando dos compromissos eleitorais originais e dá início a uma nova fase de governo que, pelos nomes e intenções, fica mais parecida com o governo de Michel Temer. E pode rumar para um descolamento completo da sua configuração inicial, ameaçando inclusive o seu último pilar mais importante - o ministro da Economia, Paulo Guedes.

O principal objetivo de Bolsonaro mudou. Deixou de ser o presidente anti-corrupção e o reformador da economia. Com pouco mais de um ano de mandato, já passou do ataque para a defesa, acossado pelas investigações contra sua família no Rio de Janeiro, que de um lado quebrou seu discurso contra a corrupção, e pela pandemia do coronavírus, que desmontou sua estratégia econômica.

Vulnerável por uma coleção de desmandos, recorreu ao expediente de seus antecessores, que antes criticava: aliou-se à ala fisiológica do Congresso. Aproximou-se do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que de arqui-inimigo se transformou em aliado de última hora. A guinada repentina tem dado seus resultados, mas lança desconfiança sobre sua natureza - e seu futuro.

"O que eu não entendo e pergunto para minha caneta de estimação: o que se está esperando no Parlamento para se começar um impeachment?" - perguntou nesta terça-feira o jurista Wálter Maierovitch, em entrevista ao UOL. 

Para ele, as informações sobre as ações do próprio presidente, como a nomeação de um novo diretor-geral da Polícia Federal, que implicou na demissão do ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, valem mais que as denúncias feitas pelo próprio Moro e o empresário Paulo Marinho, que engendrou a campanha eleitoral de Bolsonaro. "Todos falam que o [procurador-geral, Augusto] Aras vai prevaricar, mas ninguém fala do parlamento? [O Congresso] está esperando o quê?" - disse ele.

Na conta dos militares

No momento, o governo procura um substituto para o segundo ministro da Saúde a sair de seu governo em um mês - Nelson Teich pediu demissão por não querer assumir a mudança do protocolo de uso da hidroxicloroquina no tratamento do Covid-19, como insistia o presidente.

A princípio, Bolsonaro pensou em promover o secretário executivo que já tocava a pasta - o general Eduardo Pazuello, um militar instalado no Ministério para "cumprir a missão" antes de voltar ao quartel, como ele mesmo definiu. Pazuello não tem o compromisso do médico, que nesse caso manda seguir as recomendações dos estudos clínicos e científicos já realizados e descartaram o emprego da hidroxicloroquina no início do tratamento. 

O presidente, porém, foi convencido pelo círculo de colaboradores militares a não efetivar Pazuello no cargo.  Pesa na decisão o receio dos militares de que o presidente use as Forças Armadas somente para fazer o serviço sujo, que ninguém mais faria, prejudicando a imagem da corporação.

Mesmo assim, Bolsonaro decidiu deixar Pazuello ali o tempo ao menos necessário para mudar o protocolo da hidroxicloroquina - e depois trazer alguém da área. "Vai ficar por muito tempo, esse que está lá", disse o presidente a um grupo de faxineiros que tirava lixo do palácio da Alvorada, num vídeo gravado pelo canal Foco do Brasil, da tropa digital do governo, no Youtube. "Isso aí não vou mudar, não. Ele é bom gestor e vai ter uma equipe boa de médicos abaixo dele."

Realmente não é simples encontrar um profissional de Saúde que aceite o papel de marionete, fazendo o que o presidente quer, mas incinerando a reputação. Por isso, apesar da resistência militar, Bolsonaro deve usar Pazuello pelo até terminar a pandemia, juntando ao seu redor cada vez mais gente que está lá apenas para lhe bater continência, sejam quais forem as consequências, levando com ele as Forças Armadas para o buraco.

Queda de prioridades

O governo caminha de um lado para as ideias próprias do presidente, distantes dos acordos de campanha que ampliaram sua base eleitoral, e agora também à revelia de pareceres técnicos e de eficiência. De outro lado, cedendo a nomeações políticas de integrantes dos partidos fisiológicos que já ocuparam outros governos, deixa sua gestão parecida com os anteriores, assim como fica com as feições dos mesmos políticos que combateu para eleger-se.

Para evitar sua "dilmização", bloqueando um processo de impeachment no Congresso, Bolsonaro vai progressivamente agregando aos sues quadros nomes frequentadores de governos do passado. Um bom exemplo é Carlos Marun, ministro da Casa Civil no governo Temer, aliado e agente próximo de Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara preso pela Lava Jato. Marun foi reconduzido ao conselho de administração da hidrelétrica de Itaipu. Com ele, foi nomeado o deputado José Carlos Aleluia, do DEM , citado na delação da Odebrecht na Lava Jato.

Bolsonaro já deu indicações de que pretende entregar mais vagas aos seus novos aliados políticos. Seu próximo alvo é o ministro da Ciência e Tecnologia, o astronauta Marcos Pontes, cuja cadeira já foi pedida pelos aliados do Centrão. 

A metamorfose do governo ainda não está completa. Num governo baseado na cessão de cargos, será difícil vender estatais, utilizadas como cabide de empregos e centrais de negociatas pelos fisiológicos. Com essa associação, Bolsonaro dinamita um dos pontos essenciais do projeto acertado com o ministro da Economia, Paulo Guedes, que tinha um plano de enxugamento máximo do Estado.

A nova configuração do governo vai se tornando desconfortável para Guedes, não apenas pela ocupação protecionista do aparelho de Estado que ele pretendia desmontar. Seu projeto de controle fiscal e redução do papel do estado para dar espaço à  iniciativa privada ficou prejudicado pela pandemia, que obrigou o governo federal a abrir o caixa para o auxílio a pessoas físicas e jurídicas atingidas pela paralisia dos mercados.

Guedes queria limpar a redondeza, mas acabou se vendo em águas adversas, cercado de tubarões. Pior: sob as asas de um presidente enfraquecido, assim como aconteceu com Moro, entre ele e os tubarões, já sabe com quem Bolsonaro irá ficar.