23 Jul 2019

O governo enfim começa a funcionar

  Qui, 06-Jun-2019
O presidente: esforços no lugar errado O presidente: esforços no lugar errado

Depois de um longo período de vacilação, o governo do presidente Jair Bolsonaro finalmente começou a andar. Não porque Bolsonaro abandonou o estilo dinamitador da própria gestão, mas apesar dele.

O presidente continua o mesmo, mas colecionou na última semana alguns avanços, sobretudo dentro do Congresso, onde os projetos tinham dificuldade para andar.

No último dia, antes de caducar por decurso de prazo, foi aprovada no Senado a Medida Provisória de saneamento do INSS. A reforma da Previdência, cujo prazo também se próxima do final, andou algumas casas, dentro da mesma negociação.

O presidente continua aparecedo onde é desnecessário e criando confusão. Na mesma semana, convidou e desconvidou María Teresa Belandria como representante diplomática da Venezuela no Brasil - ela é alinhada com o autoproclamado presidente Juan Guaidó.

A ideia foi considerada pela ala militar do Palácio do Planalto como uma provocação desnecessária a Nicolás Maduro, justo na hora em que o Brasil tinha conseguido restabelecer o fornecimento de energia venezuelana a Roraima, cortada em protesto contra a postura do governo brasileiro.

Bolsonaro ainda atravessou a pé Praça dos Três Poderes para participar no Congresso de uma homenagem ao comediante Carlos Alberto da Nóbrega, do programa de TV "A Praça É Nossa". Apoiou publicamente o jogador Neymar Júnior, acusado de estupro, como se sua opinião fosse de alguma utilidade nesse caso.

Multado por andar de moto sem capacete, enviou ao Congresso um projeto de lei que altera o Código Nacional de Trânisto, ampliando de 20 para 40 os pontos para suspensão da carteira de motorista - e declarou que, por ele, "seriam 60".

Almoçou com motoristas de caminhão num posto de beira de estrada, chamado "Presidente", e lhes recomendou, como medida de segurança, que comprassem uma arma.

Foi para a Argentina, onde faz questão de mostrar seu desconhecimento de economia ao tratar de discutir a criação de uma moeda comum, o "peso-real" - mera jogada de marketing para dar um pouco de alento na próxima eleição ao presidente Maurício Macri,  quem mais simpatiza. 

"Saudades do Presidente que é pró-armamento da população e contra o aborto", escrevia enquanto isso seu filho Carlos no Twitter. "Volte logo, Presidente de verdade!"

A caravana passa

Enquanto Bolsonaro se envolvia com essas coisas, a caravana passava. A Medida Provisória da reforma administrativa, que reduziu de 29 para 22 o número de ministérios, passou no Congresso, também na hora H. Em contrapartida, o governo cedeu na troca do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) do Ministério da Economia para o da Justiça, de Sérgio Moro.

O senador Fernando Bezerra (PSB_PE), que passou a azeitar as relações de Bolsonaro com o Congresso, foi o homem que o convenceu a retirar o Coaf da medida, como forma de não fazer o governo voltar atrás na reforma inteira.

O presidente, afinal, parece ter começado a ouvir alguém. Com outro acordo, que prorrogou o prazo de inscrição no Cadastro Nacional de Informações Sociais (CNIS) na reforma previdenciária, ainda tramitando na Câmara, Bezerra viabilizou também a aprovação da Medida Provisória de combate às fraudes do INSS.

O texto aprovado endurece as regras de concessão do auxílio-reclusão, pago a dependentes de presos. Permite ainda o pagamento de bônus a servidores que ajudarem a identificar irregularidades no pagamento de benefícios do INSS. Chamada de MP do "pente fino", ela procura economizar cortando 5,5 milhões de benefícios, estimados no total em R$ 9,8 bilhões.

"Sem autoridade"

O líder da oposição, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), criticou Bolsonaro por estar sempre no lugar errado - foi a Congresso entregar o projeto de lei que altera o Código de Trânsito, mas não foi discutir a previdência, considerada prioridade do governo.

O tom do senador com relação ao presidente, cada vez mais corrente em Brasília, é de que os projetos do governo são tocados adiante não por causa de Bolsonaro, mas apesar dele. O chefe do executivo vai virando mais uma figura folclórica. "Bolsonaro é autoritário sem ter autoridade", disse.

Assim tem sido o Brasil, que avança não por causa da política, mas apesar da política. Em Brasília, Bolsonaro deveria assumir a postura dos juízes de futebol - aqueles de quem se diz que, numa partida, quando menos aparecem, melhor.