2 Jul 2020

Epidemia deixa Bolsonaro em isolamento político

  Ter, 31-Mar-2020
O presidente: contra tudo e contra todos O presidente: contra tudo e contra todos

"Não se esqueçam de que eu sou o presidente", disse Jair Bolsonaro, nesta quarta-feira, na entrevista que se acostumou a dar na saída do Palácio do Planalto, na qual a segurança permite a presença de uma claque para constranger e dificultar o trabalho dos jornalistas ali de plantão diariamente. Alguns deles abandonaram o local, deixando Bolsonaro falar sozinho. "Imprensa que não quer ouvir o povo", disse ele.

Quando um presidente tem de lembrar que ele é o presidente, é porque as coisas não vão bem. Desde o fim de semana, Bolsonaro perdeu a liderança mesmo junto a seus ministros. Atingiu o ápice de um processo de isolamento, colocado em uma quarentena política dentro do próprio governo.

No final de semana, Bolsonaro surpreendeu o escalão ministerial ao ir a um mercado na Ceilândia, no domingo, após ter discutido no dia anterior a unificação do discurso na política de enfrentamento da pandemia do vírus corona.

Ministros como Paulo Guedes, da Economia, e Sérgio Moro, da Justiça, juntaram-se no apoio ao ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, cujo propósito é continuar promovendo a política de isolamento para manter o crescimento da epidemia sob relativo controle do sistema de saúde. Moro afirmou ao jornal Folha de S. Paulo que defende, na saúde, o "critério técnico".

Bolsonaro foi isolado até mesmo pelo Twitter, que retirou do ar as postagens dos seus vídeos no domingo. A empresa emitiu um comunicado afirmando que decidiu eliminar todo conteúdo contrário às recomendações de saúde pública durante a pandemia. E derrubou o presidente.

Cizânia

Enquanto lideranças de todo o mundo passaram a aceitar que o isolamento é a melhor forma de enfrentar a pandemia, Bolsonaro tem insistido no retorno à vida normal e a criação de um "isolamento vertical", isto é, de segmentos específicos da sociedade, como os mais velhos e pacientes de outros males que os colocam também no grupo de risco.

Tem reiterado que o país pode caminhar para o descontrole, por receio de que a paralisação econômica leve parte da população ao desespero. Joga com essa ideia para manter o apoio das Forças Armadas, mesmo que ele, Bolsonaro, venha sendo o maior e principal fator de desestabilização institucional do país, levando o governo e a sociedade à cizânia.

Passou a classificar seus ministros segundo um único critério: quem concorda com ele e quem não. Ele pode trocar o ministério inteiro, mas a realidade é que se encontra numa posição cada vez mais difícil, que beira a sublevação.

Na segunda-feira, Moro publicou no Twitter um elogio a um artigo do ministro do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, publicado pelo jornal O Globo, no qual elogia o trabalho de Mandetta na Saúde e pede "respeitar a ciência". "Prudência no momento é fundamental", adiciou Moro.

O governo funciona na prática á revelia do que o presidente fala. Nesta quarta-feira, foi para sanção de Bolsonaro o projeto do próprio governo, já aprovado no Congresso, para a criação de uma bolsa-auxílio para a população a um custo estimado por Guedes em mais de 100 bilhões de reais, como uma ponte pelo período de isolamento.

Nessa ajuda, o governo pretende cadastrar e pagar 600 reais por mês, durante um período de três meses, a profissionais autonômos prejudicados pela retração  econômica. Agora, o governo pretende aprovar medidas de auxílio aos trabalhadores formais, isto é, com carteira assinada.

A equipe econômica trabalha  ainda para abrir o pagamento do seguro-desemprego a quem tiver contrato suspenso ou redução da jornada de trabalho. E estuda permitir um saque de até R$ 1 mil do FGTS.

Já aconteceu

O presidente defende que a economia tem de ser mantida, mas a realidade é que ela já caiu. Mesmo sem a determinação dos governos estaduais de fechar o comércio, entre outras providências, setores inteiros já sofreram o impacto da retração, como a hotelaria e o varejo em geral.

Além de não superlotar os hospitais, a política do isolamento permite uma volta à economia regular de forma mais rápida e segura, conforme é o entendimento geral.

Enquanto todo o governo trabalha para atacar a crise com a receita do isolamento e a ajuda governamental, Bolsonaro permanece como a última liderança mundial a fazer o discurso anti-isolamento, como uma forma de dissociar-se da crise que já vinha minando seu governo.

Até mesmo o presidente americano, Donald Trump, abandonou o discurso da volta rápida ao trabalho. Passou a indicar uma normalização a partir de abril, mas suas previsões têm sido atropeladas pelos resultados da pandemia no território americano, onde já foram contabilizados mais de 100 mil casos oficias, com cerca de 5 mil mortes.

Irritadiço, Bolsonaro tem se voltado contra os próprios colaboradores. Segundo O Estado de S. Paulo, disse em conversas reservadas que Moro é um "egoísta". de acordo com a Folha de S. Paulo, tem dito a assessores que está "de saco cheio" de Mandetta.

Na semana passada, que passou batendo boca com os governadores, o presidente mostrou que seu estado de nervos reflete a gravidade de sua condição política. Ainda usa os militares como apoio, mas o que está mais perto dele - o vice Hamilton Mourão - balançava a a cabeça durante um discurso no qual o presidente atacava o governador paulista, João Dória.

Diante da pandemia política de Bolsonaro, é um gesto sintomático.