17 Out 2019

Em meio a crise do laranjal, Bolsonaro se afasta do PSL

  Ter, 08-Out-2019
O presidente: isolacionismo O presidente: isolacionismo

O presidente Jair Bolsonaro precipitou uma crise com seu partido, o PSL - e, como nada do que ele faz, não é por acaso. Primeiro, pediu a um apoiador que não publicasse um vídeo ao seu lado, no qual ele falava que era pré-candidato à prefeitura de Recife, com apoio do presidente e de Luciano Bivar, presidente da legenda. Bolsonaro disse que Bivar estava "queimado" e iria "queimar o filme" dele também. Depois, o presidente cochichou-lhe ao ouvido: "esquece o PSL". O episódio  criou na legenda um movimento de apoio a Bivar - e acelerou seu afastamento do presidente.

Bolsonaro poderia querer ficar longe do PSL por conta do escândalo do laranjal - desvio de dinheiro das campanhas femininas para o bolso de medalhões do partido, em caso investigado hoje pela Polícia Federal. O presidente, porém, não demitiu o principal implicado no esquema hoje dentro do governo - o ministro do Turismo, Marcelo Antônio. O problema, então, é outro.

Flagrada por alguém que enviou o vídeo ao canal do Youtube "Cafezinho com pimenta", a fala de Bolsonaro caiu mal junto ao PSL e, para variar, desdisse o porta-voz do presidente, o general Rêgo Barros, que horas antes hava granatido á impensa que não havia qualquer "formulação com relação a uma suposta transição de partido".

O tiroteio interno começou. Os caciques do PSL encontraram seus próprios motivos para o ataque do presidente. “Temos o caso do [Fabricio] Queiroz e o do ministro do Turismo, e o presidente tenta encobrir esses dois assuntos ao mesmo tempo em que desfere ataques indevidos ao PSL”, disse o deputado Júnior Bozella (PSL-SP). "O partido é um partido de bem, conduzido por pessoas de bem. Se Bivar não tivesse aberto as portas, o presidente fatalmente não teria tido legenda para concorrer em 2018. Se hoje ele é o que é, deve isso ao deputado Bivar e ao PSL."

Major Olímpio, senador pelo PSL de São Paulo, afirmou que Bolsonaro sair do PSL seria como "alguém morar sozinho e fugir de casa".

"Ou vai começar do zero em outro partido, e aí não vai conseguir ter o tamanho da robustez que construiu, ou vai para uma legenda maior e não vai ter garantia de ser o personagem principal e tão disparadamente diferenciado de todos os demais, como ele é no PSL", disse.

 A tropa de choque do presidente saiu incontinenti em sua defesa. "Fico estarrecido pela maneira com que este senhor trata o Presidente hoje!" - escreveu Carlos Bolsonaro no Twitter, jogando a plateia bolsonarista contra o senador.

Olímpio, por sua vez, não esconde sua divergência em relação ao núcleo familiar do poder, em especial o senador Flávio Bolsonaro (PSL-SP)

"Flávio Bolsonaro para mim acabou, não existe", afirmou à agência Broadcast. Criticou a atuação do filho de Bolsonaro, que tentou barrar a Comissão Parlamentar de Inquérito da Lava Toga, cujo objetivo é investigar os ministros do Supremo Tribunal Federal - justamente a instituição onde conseguiu suspender as investigações sobre ele próprio, dentro do inquérito sobre as atividades financeiras em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

"O pai dele ganhou a eleição dizendo que seria intransigente no combate à corrupção dentro de qualquer um dos Poderes, inclusive do Judiciário", afirmou Olímpio. "Estou defendendo a CPI, estou me mobilizando por ela, porque é necessária", disse.

Ainda que vá para outra legenda, Bolsonaro tem mais cortado que agregado forças dentro do Congresso. Ao entrar em choque com o partido que não apenas o elegeu como poderia ser sua base de sustentação parlamentar, o presidente pende cada vez mais para o isolacionismo e a apelação às massas que procura mobilizar pela internet. É uma jogada de quem tem pouco apreço pelas instituições republicanas.