6 Jun 2020

Disputa entre os donos do Poder

Por   Sex, 24-Abr-2020
Guedes: ajuda aos bancos Guedes: ajuda aos bancos

Paulo Guedes, desde o inicio, tem um plano coerente para tentar ajustar a economia por meio do incentivo aos bancos. O mercado financeiro amou e ainda confia nele. 

Mas nunca fez uso da expressão "emprego" e relegou o setor produtivo, sobretudo indústria, ao zero à esquerda. Não recebia sequer o presidente da CNI, nem da Fiesp, que eram obrigados a enviar emissários para chorar diante do sub do sub do sub de uma tal Secretaria de Produtividade, sucessora do outrora poderoso Ministério da Indústria e Comércio, rebatizado de Desenvolvimento.

A indústria pediu socorro aos generais do Palácio em nome da velha aliança firmada em 1964, que desaguou no Milagre. Generais e industriais nada conseguiram com Guedes. Mas pelo menos o Exército criou plano estratégico de tentar ressuscitar as industrias química e bélica.

E agora, diante do Apocalipse Econômico Global, Guedes apresentou um plano emergencial liberal que, em sintese, consiste em ajudar os bancos para que emprestem dinheiro a juros menores às empresas. Isso mesmo! Tentar retomar a economia incentivando um pouquinho as empresas por meio dos bancos. 

Metade do Orçamento da União já ia para os bancos a título de amortização da divida pública. Agora, segundo admitiu o próprio Guedes, deve chegar a 80%. Essa é a solução Guedes: bancos.

O setor produtivo está furioso. Como resposta, esta semana o general Braga Neto, da Casa Civil, anunciou um plano de reconstrução do pais por meio de obras públicas ou privadas. Sem a presença de Guedes ou de qualquer assessor da Economia. Foi chamado de Plano Marshall, ainda que esteja mais para o New Deal de Roosevelt.

Agora temos um governo bipolar. De um lado, controlando as fortalezas burocráticas de seis ministérios (Fazenda, Planejamento, Desenvolvimento, Previdência, Trabalho e Administração), temos o representante dos bancos. Conta com o apoio incondicional do setor financeiro, que tem o presidente da Câmara como outro representante.

Do outro lado, ressurgindo a velha aliança entre militares, industriais e empreiteiras, que buscam a retomada do poder e o tradicional projeto nacional-desenvolvimentista. Contam com a hegemonia no Senado e com outras fortalezas ministeriais, como Infraestrutura, Energia e Tecnologia, redutos militares. Como tática, tentam convencer o presidente a fazer uma reforma ministerial na qual lutam por esquartejar a Economia em quatro pastas.

O grande problema desse "Plano Marshal" é que ainda é muito rudimentar. 

Cesar Benjamin, atento analista econômico, o compara ao PAC de Dilma. "Na verdade, ele não apresentou plano nenhum (acho que ele mesmo reconhece isso). E suspeito que ele e sua equipe não saibam fazer nada que mereça este nome. Como, aliás, o PT também não sabia".

O agronegócio, ao que tudo indica, ainda não tomou posição. 

No meio, um presidente da República que emite indícios de que ainda não teria entendido o que realmente está em jogo. Ora tem dito aos generais: "Deixa o Guedes"; ora se mostra irritado com a falta de resultados de seu superministro. Ainda não se sabe para qual lado vai pender. Ou quando.

Enquanto isso, deflagra novas brigas desnecessárias dentro do próprio governo e ações fisiológicas junto aos parlamentares para tentar alugar o apoio da maioria deles e evitar a corrosão de seu poder. Tudo indica que vai conseguir. Ainda que o preço de hoje esteja três  vezes maior do que há um ano.