19 Set 2019

Carlos contra a democracia: desnecessário ou perigoso

  Ter, 10-Set-2019

O vereador agora licenciado do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro se destacou no governo do pai, o presidente Jair Bolsonaro, como seu suposto mentor nas redes sociais - área em que atuou com sucesso desde a campanha eleitoral. Por isso, sempre foi visto como uma espécie de "deep throat" de Bolsonaro - o garganta profunda, aquele que fala em público o que o próprio pai não pode falar, fazendo algum tipo de jogo. Dessa forma, seus tuítes são sensíveis. E, por vezes, proféticos - como as críticas a ministros como Gustavo Bebbiano e Carlos Alberto dos Santos Cruz, que caíram logo depois.

Agora, também pelo Twitter, Carlos atacou a própria democracia - segundo ele, um sistema deficiente e sujeitado pelas "classes dominantes". Uma ideia que, partindo de quem parte, e com esse histórico, levantou preocupação sobre os verdadeiros interesses do clã Bolsonaro, que por sinal só está onde está pelo voto democrático popular.

"Por vias democráticas a transformação que o Brasil quer não acontecerá na velocidade que almejamos... E se [é que] isso [vai] acontecer", escreveu o filho do presidente. "Só vejo todo dia a roda girando em torno do próprio eixo e os que sempre nos dominaram continuam nos dominando de jeitos diferentes!"

O próprio Bolsonaro não se manifestou imediatamente - muito embora o que ele diga seja relativo, pois em outras ocasiões colocou publicamente panos quentes nas falas do filho, mas na prática, de uma forma ou outra, as endossou.

Toda a comunicação dos Bolsonaro sempre foi calculada, o que acelera as preocupações de que seu projeto de poder não seja tão diferente assim tanto do PT, - pelo menos no que diz respeito à implantação, lá no final, de algum tipo de regime autoritário.

A declaração de Carlos logo chamou outras autoridades à responsabilidade. O primeiro a emergir foi o vice-presidente Hamilton Mourão, que tem falado pouco depois de ser enxovalhado publicamente por meio do franco-pensador Olavo de Carvalho, e enquadrado pelo presidente, após viver aparando arestas do clã criadas por suas declarações públicas. 

"[A democracia] é fundamental, são pilares da civilização ocidental", disse Mourão. "Vou repetir: pacto de gerações, democracia, capitalismo e sociedade civil forte. Sem, isso, a civilização ocidental não existe."

Mourão, porém, é o mesmo que durante a campanha eleitoral defendeu a redação de uma nova Constituição por um grupo de "notáveis", em defesa da agilidade e da maior eficiência do texto final.

É evidente que num regime autocrático as decisões são mais rápidas, porque não é preciso ouvir ninguém, ou pouca gente, ou ainda a consulta é pró-forma. A democracia verdadeira torna tudo mais lento, assim como as Constituições criadas por assembleias constituintes. Isso é, porém, justamente o que impede um país de ficar à mercê das ideias de uma única pessoa - e garante que tudo, após o debate em busca do consenso, acabe sendo, no final, melhor. Ao menos para a maioria.

Mourão entrou na hora exata, por saber que a palavra dos militares no atual contexto é importante. Eles já evitaram uma guinada autoritária no governo Dilma Rousseff, quando a presidente pediu-lhes para intervir nas manifestações pacíficas em favor de seu impedimento. Ouviu um não.

Resta agora saber se continuarão dizendo não. E qual a intenção de Carlos, ao fazer seu comentário. Feito sem pretensão, ele teria sido desnecessário. Com pretensão, ele se torna mais um elemento desestabilizador de um governo onde a instabilidade vai se tornando um método.