18 Set 2019

Boneco de piche, Moro continua com alta popularidade

  Qui, 05-Set-2019
Moro e Bolsonaro: subordinado pode ser algoz Moro e Bolsonaro: subordinado pode ser algoz

O ministro da Justiça, Sérgio Moro, é visto como o integrante com maiores dificuldades no governo, mas quanto mais as coisas parecem complicadas para ele, maior é sua popularidade. A mais recente pesquisa de opinião, reliada pelo Datafolha, indica que ele é conhecido por 94% dos brasileiros e 54% avaliam sua gestão no Ministério da Justiça como ótima ou boa e outros 24% como regular - há 20% que a consideram ruim ou péssima É bem mais que o presidente Jair Bolsonaro, que tem apenas 29% de aprovação, com 30% de avaliação regular e 38% de "ruim ou péssimo".

Identificado não apenas com a Lava Jato como o juiz que é contra todo o sistema, Moro virou uma espécie de boneco de piche: quem bate nele fica grudado e, quanto mais batem, ou bloqueiam suas ações, mais ele se fortalece. Isto pelo simples fato de que quem se coloca lado contrário passa a ser considerado adversário do combate à corrupção, bandeira tão colada hoje a Moro como a cruz em Cristo.

O político mais recente a se colocar em choque com Moro é o próprio presidente Jair Bolsonaro, que resolveu passar por cima do ministro, indicando o superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro, onde é investigado seu filho, o senador Flávio Bolsonaro. O presidente chegou a retirar publicamente a carta branca que teria dado a Moro ao convidá-lo para o ministério, com a autocrática frase "quem manda sou eu", jogando no lixo a independência do órgão para investigar autoridades do próprio governo, que não foi atacada sequer pelo PT na investigação sobre os negócios do partido e de Lula.

De acordo com uma reportagem de Folha de São Paulo, que ouviu membros da cúpula da PF, eles consideram que Moro é o verdadeiro alvo do presidente, que estaria tentando humilhá-lo, como já fez com outros subordinados - como os ex-ministros Gustavo Bebbiano e Carlos Alberto Santos Cruz, todos já expurgados do governo.

Moro, porém, resiste. E, para isso, basta ficar em silêncio. Aumenta a sua popularidade na mesma medida em que vai sofrendo oposição e derrotas. A campanha de divulgação de áudios com a escuta de Moro e do promotor da Lava Jato Deltan Dallagnol, movida pelo site The_Intercept com apoio do PT e da Folha de S. Paulo, que passou a publicar seu conteúdo em parceria com Glenn Greenwald, não parece ter causado o menor arranhão no ex-juiz. Ao contrário, ver Moro sob ataque por gente que defende a libertação do presidente Lula, como Greenwald já declarou abertamente, apenas o deixa mais sólido.

Ruim para os outros

Agora, Bolsonaro quer uma mudança de ares na PF e exige a demissão de Maurício Valeixo, cujo trabalho é bem visto por Moro desde os tempos de juiz da Lava Jato. "Se eu estivesse lá, eu já estaria fora", disse o ex-presidente Fernando Henrique, em entrevista ao jornalista da TV Globo, Pedro Bial.

FHC diz que Moro é um juiz sem talento para a política - mas talvez ele saiba melhor o que está fazendo que qualquer outro. Ocorre que ser o inimigo número 1 de Brasília é justamente o que faz o ex-juiz crescer no imaginário da população brasileira. Até agora, ele não viu seu pacote anti-crime sequer ser discutido ou ter data marcada para exame pelo Congresso. Ruim para Moro? Ao contrário - ruim para o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, outro investigado pela Lava Jato que não aparenta ter pressa alguma em ver as medidas propostas por Moro andarem.

Para os espectadores brasileiros, que nada têm de burros, ruim é a lei de abuso de autoridade, algo bastante real no país, mas que da forma foi colocado pelo Congresso serve apenas de escudo contra as ações da Lava Jato - usando algo em nome do bem para fazer mais uma vez o mal, uma das artes da política brasileira (Leia aqui o artigo "Abuso de autoridade: o interesse dos indiferentes"). 

A proposta estabelece, entre outras coisas, penalizar como abuso de autoridade obter provas por meios ilícitos, o que esconde uma tentativa de anular muitas das provas colhidas pela Lava Jato e, por conseguinte, os processos por meio dos quais foi condenado, entre outros, o ex-presidente Lula.

Penaliza também a execução de mandado de busca e apreensão em imóvel de forma ostensiva ou a condução coercitiva de testemunha ou investigado sem intimação prévia - o que equivale a avisar antes ao bandido que se está indo na casa dele.

E, com uma espada sobre a cabeça dos juízes, propõe detenção de até quatro anos para aqueles que decretarem prisão "em manifesta desconformidade com as hipóteses legais". Termos que abrem margem a um vasto caleidoscópio de dúvidas, o que deve paralisar sentenças pelo simples receio de suas consequências ao próprio magistrado.

Eleito mediante seu discurso anti-PT e anti-corrupção, Bolsonaro não tem outra saída que não concordar com Moro. "Ouvidos os ministros da Justiça, AGU, CGU e Secretário Geral, decidi acolher, integralmente, suas manifestações de vetos", escreveu Bolsonaro no Twitter. Esta semana, Bolsonaro afirmou que deve acolher integralmente as sugestões de veto ao texto. Seriam 36 trechos de artigos entre os 108 existentes.

Contudo, o presidente se mostra cada vez mais preocupado com a defesa familiar que com seus compromissos de campanha. Isso é percebido pela opinião pública, um dado relevante a se juntar ao fato de que a eocnomia demora a reagir, numa frente de problemas que vai desgastando sua imagem rapidamente.

A onda de suspeitas de que o presidente tenta conter as investigações sobre Flávio e seu ex-assessor Fabrício Queiroz, amigo de Bolsonaro desde os tempos de capitão para-quedista, é um ponto de deflexão do governo, subvertendo seus propósitos.

É um momento chave para o futuro de Bolsonaro, que passa a ter contestada a sua legitimidade e tem visto Moro crescer à sua sombra - não apenas como o ministro popular que poderia ser o próximo presidente, mas como o seu potencial algoz.