28 Nov 2021

Bolsonaro reabre ministério na fase das concessões

  Qui, 11-Jun-2020
Faria: dupla vantagem Faria: dupla vantagem

O presidente Jair Bolsonaro tem voltado atrás numa série de compromissos de campanha, como o de realizar nomeações técnicas e não políticas para cargos públicos, assim como reduzir a máquina estatal. Contrariou ambas as promessas com a recriação do Ministério da Comunicação, e colocando à sua frente do deputado do PSD Fábio Faria, que é genro de Silvio Santos, dono do SBT, casado com sua filha, Patrícia Abravanel.

Com a nomeação de Faria, "sem nenhum aumento de despesa", segundo a nota oficial do governo, Bolsonaro pode parecer que traz o PSD para perto. Porém, Faria não é próximo do presidente da legenda, Gilberto Kassab, que ocupou o ministério das Comunicações no governo Michel Temer. "Isso não traz o partido para o governo, eu não acompanhei essa escolha pessoal do presidente", afirmou Kassab, que, no entanto, se dispôs a "ajudar".

Ao colocar um parente de Sílvio Santos no Ministério, Bolsonaro cria mais um espantalho para a Rede Globo, concorrente histórica do SBT, que o presidente assumidamente gostaria de destruir. Este ano, a TV Globo terá de renovar a concessão pública de seu canal aberto, decisão que agora cairá nas mãos de Faria.

Tecnicamente, trata-se de claro conflito de interesses, mas Bolsonaro não tem se preocupado sequer com as aparências de lisura nas decisões de governo. Ele quer ainda atrair os 37 votos do PSD na Câmara, de maneira a fortalecer a base construída com o Centrão, e bloquear um possível processo de impeachment, obtendo com a nomeação de Faria dupla vantagem.

"Confusão"

Kassab, por seu lado, pode se manter do governo próximo o bastante para obter dele o que quiser, por um lado, e de outro fica à distância necessária para não se associar a uma possível derrocada. "O PSD é um partido independente", disse ele, para quem confundir o partido com o centrão é uma "confusão" da imprensa. "É um partido que tem, nos seus quadros, pessoas com total liberdade para dar seu voto com suas convicções e visões de Brasil."

Com a decisão, o chefe da Secretaria de Comunicação, Fabio Wajngarten, passará a secretário-executivo do recriado Ministério. Como um dos sócios da Controle de Concorrência, empresa que monitora inserções comerciais em veículos de mídia para o mercado publicitário, ele tem o SBT entre seus principais clientes.

Outro efeito colateral da recriação do Ministério das Comunicações é que, com a saída da Secom da esfera de controle do ministro da Secretaria de Governo, o general Luiz Eduardo Ramos, a ala militar do Palácio do Planalto perde poder.  A Secom já vinha sendo controlada por seu antecessor, o também general Carlos Alberto dos Santos Cruz, que, como Ramos, é amigo de Bolsonaro dos tempos de caserna, mas bloqueava ações que exorbitavam a razoabilidade técnica.

Também eram obstáculo para ações livres de Wajngarten outros dois militares, os generais Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional, e Walter Braga Netto, da Casa Civil. A pressão sobre Wajngarten aumentou depois do vazamento da informação de que a Secom retirou 84 milhões de reis do Bolsa Família para uso em propaganda oficial. Mas ele trabalha sob a direção direta de Bolsonaro, de maneira que tirar os generais do meio do caminho facilita as coisas.

Foi Wajngarten quem aproximou Bolsonaro de dois de seus principais clientes: Sílvio Santos e o bispo Edir Macedo, da Record. Ambos chegaram a ficar ao lado do presidente publicamente, no palanque durante o desfile da Independência, no último 7 de setembro.

A Secom já foi flagrada distribuindo dinheiro por critérios políticos, que discriminavam a maior audiência da TV Globo em favor de redes apoiadoras e amigas, além de uma série de sites de fake news e de apologia ao presidente, conforme apurado pela CPI. Contudo, em vez de podar tais ações, Bolsonaro resolveu dar mais corda à área de comunicação. "Foi recriado o Ministério da Propaganda", ironizou o ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro.

Não é difícil obter aliados na grande mídia, ainda mais num momento de crise para a comunicação, com a perda de receita publicitária, face o crescimento das mídias digitais. A crise do mercado coloca os veículos de imprensa fragilizados, já que, ao depender do governo também financeiramente, além da concessão pública, perdem seu principal capital: a independência e a credibilidade.