2 Jul 2020

Bolsonaro em guerra com o próprio governo

  Ter, 14-Abr-2020

O bolsonarismo, entendido como as forças que gravitam ao redor do presidente Jair Bolsonaro, capitaneadas por seus filhos, Carlos e Eduardo, passaram a atacar sistematicamente ministros e outros membros do governo, como uma forma de retomá-lo pelo próprio presidente.

O alvo mais vistoso é o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que comanda no plano nacional o isolamento domiciliar contra a pandemia do coronavírus, contra a vontade de Bolsonaro. Não importa o nome do substituto de Mandetta: o presidente quer assumir ele mesmo o comando da área, com suas convicções pessoais, liquidando com a quarentena.

Não é só Mandetta a quem o bolsonarismo declarou guerra. A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, vem sofrendo a pressão nos meios virtuais da milícia digital bolsonarista, que quer um fechamento dos portos brasileiros ao comércio com a China. Também atacado nas redes sociais por tentar aglutinar as forças do governo em torno da política do isolamento, o ministro-chefe da Casa Civil, general Braga Netto, sequer apareceu na mais recente coletiva de imprensa sobre o tema.

Nesta segunda-feira, Carlos e Eduardo Bolsonaro impulsionaram ainda tuítes da tropa de choque bolsonarista contra o ministro da Justiça, Sérgio Moro, por conta do projeto para a aquisição de 600 tablets para presidiários conversarem virtualmente com familiares, depois da proibição de visitas nos presídios, adotada com a pandemia.

"Excelente prioridade, hein? Valeu!"retuitou Eduardo. "Enquanto o civil sentado sozinho em parque público é preso de maneira brutal, o bandido na cadeia recebe um tablet novinho para falar com seus familiares", disparou Carlos, como se a possibilidade de forçar a reclusão estudada por alguns governadores, como o paulista João Dória, já estivesse acontecendo.

Bolsonaro está em guerra contra o próprio governo e todos os que participam da campanha pelo isolamento, incluindo todo seu ministério, e conta com sua guerrilha paralela para controlar as ações.

Tem sustentado que a curva de mortes estaria em queda, como sinal de que a pandemia está a caminho do fim, mas não diz que isso só ocorre  justamente por conta da política de isolamento, da qual não apenas os ministros participam, como governadores, prefeitos e outras instituições republicanas. Dessa forma, o presidente se coloca na posição de sabotador dos esforços de controle da pandemia.

Em março, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio de Mello. deferiu uma liminar que assegurou o o direito dos governadores de bloquear estradas e interromper o transporte público, como parte das medidas de isolamento. Bolsonaro quer que esse tipo de determinação fique a seu cargo.

Outro ministro do STF, Alexandre de Moraes, contrariou Bolsonaro ao determinar que o Executivo não pode derrubar decisões de estados e municípios sobre isolamento social e outras medidas na área de saúde pública.

Bolsonaro quer tomar o controle da política de saúde nacional porque acredita que uma hecatombe econômica derrubará seu governo. Parece n]ao ter se dado conta de que a queda na economia já aconteceu, e seguirá de qualquer forma, e que somente o isolamento pode apressar a retomada, conforme adotado na maioria dos países do mundo.

Diante da perda de poder, inclusive dentro do pró-prio governo, onde os ministros agem contra sua vontade, Bolsonaro parte para o ataque. Divide o governo em dois, opondo de um lado a área ideológica, onde está o ministro da Educação, Abrahan Weintraub, encarregado de atacar a China, e os integrantes do chamado "gabinete do ódio" - incluindo os filhos do presidente, que não ocupam cargos no governo, mas atuam para pressionar os ministros diretamente, em nome do pai.

Um deles, Carlos, chegou a tentar fazer uma ingerência junto a Mandetta para fazê-lo "obedecer ao meu pai" - saiu do gabinete dos ministros com ofensas de baixo calão (leia aqui).

Mesmo os integrantes militares, que procuram assessorar Bolsonaro sem confrontá-lo, como fez Mandetta, procuram um caminho para manter o presidente em seu lugar e tocar adiante um plano racional de controle da pandemia. Assim como no tempo em que acabou sendo afastado das Forças Armadas, ele continua sendo um problema que os militares têm de resolver.