19 Fev 2020

Bolsonaro cria partido da aliança sem aliados

  Qua, 13-Nov-2019
O presidente reúne os dissidentes: "casei errado" O presidente reúne os dissidentes: "casei errado"

O presidente Jair Bolsonaro reuniu 42 parlamentares e alguns colaboradores para anunciar a criação de um novo partido, a Aliança pelo Brasil. Apesar do nome, trata-se na verdade do fim das alianças. Embora nenhum dos parlamentares possa desfiliar-se do PSL, sob pena de perder o mandato, de acordo com a lei da fidelidade partidária, o partido seguirá dividido. Bolsonaro se afasta da ampla frente que o elegeu no segundo turno. E aproveitou a ocasião para anunciar  ainda mais uma desavença.

Na reunião, disse a João de Orleans e Bragança, conhecido como "príncipe", por ser descendente da família real, que teria preferido que ele tivesse sido o seu vice-presidente, e não o general Hamiltom Mourão. "Casei errado", disse ele, de acordo com o apurado pela colunista Monica Bergamo. "E agora é tarde."

O forte de Bolsonaro não é fidelidade partidária - passou por oito legendas, antes do PSL. No governo, em vez de procurar aumentar o apoio político ao redor de seus projetos, vem se isolando cada vez mais.

Criou um núcleo de governo mais ligado à extrema direita e isolou militares e membros do PSL, como o ex-ministro Gustavo Bebbiano, ex-presidente do PSL, um dos comandantes da campanha eleitoral, defenestrado do Palácio do Planalto no primeiro mes de gestão. "Ninguém desse núcleo duro esteve presente na campanha", disse Bebbiano, em entrevista ao canal de jornalismo do Youtube MyNews.

Ao afirmar sua divergência de Mourão, Bolsonaro mostra que seu projeto é fechar-se cada vez mais na concha ideológica de onde saiu, anterior à campanha eleitoral. Com exceção do Ministério da Economia de Paulo Guedes, e da Justiça, onde está Sérgio Moro, vai ocupando a máquina do governo com suas afinidades ideológicas. Seja no campo do comportamento, seja no projeto sectário na educação e comunicação, vinculados ao projeto de hegemonia cultural que o presidente compartilha com o franco-pensador da extrema direita, Olavo e Carvalho.

Nem mesmo o discurso de que deseja se afastar do PSL por motivos morais, já que seus integrantes são acusados de usar candidatos laranjas para desviar dinheiro do fundo partidário, faz sentido na formação do Aliança. Sobretudo porque esse purismo não existe. O ministro Álvaro Antônio, do Turismo, que é do PSL, já indiciado pela Polícia Federal no inquérito do laranjal, continua firme no governo.

Outro que já anunciou sua saída do PSL para o Aliança é o senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente, cujas contas estão sendo também investigadas, em razão dos depósitos de origem não identificada em seu gabinete como deputado estadual no Rio de Janeiro, até o ano passado. "O novo partido nem veio à luz e já está, por assim dizer, enlameado", afirmou o colunista da Folha de S. Paulo, Josias de Souza.

A maior contradição do Bolsonaro da campanha com o Bolsonaro do governo, porém, não é essa. Bolsonaro não casou "errado". Fez alianças que lhe permitiram chegar ao poder. Ao se desfazer delas, abandona também compromissos que fizeram parte da sua plataforma de governo. Ao desfazer a ampla frente que acabou por elegê-lo, o presidente vai perdendo a legitimidade, ao mesmo tempo que constrói um muro de oposição e de insatisfeitos ao seu redor.

Caminha, assim, para o confronto contra o emparedamento.