6 Jun 2020

Bolsonaro confronta setores de peso

Por   Ter, 14-Abr-2020
Caiado: o agronegócio tem peso Caiado: o agronegócio tem peso

Há no Brasil algo maior e mais sofisticado do que esse debate banal e coloquial sobre Henrique Mandetta -- se sai ou se fica, quando cai e quem vem. Mas ainda não foi possível vislumbrar a silhueta do mosaico, ou do quebra-cabeças, se preferirem outra imagem.

O que dá para saber, por enquanto, é que tem peças que não se encaixam, e que para compreender o que estaria por vir é relevante de prestar muita atenção nos movimentos do governador Ronaldo Caiado, de Goiás, e do senador Tasso Jereissati, do Ceará.

Mandetta não representa a si mesmo. É indicação de Caiado, uma das poucas lideranças políticas de peso que apoiou de forma decisiva e efetiva a campanha de Jair Bolsonaro.

Caiado, por sua vez, não fala por si. É a liderança mais importante do agronegócio brasileiro, setor que já ultrapassou 20% do PIB e que deve ser o carro-chefe da retomada da economia pós coronavírus.

Caiado também indicou a ministra Tereza Cristina, da Agricultura. Mas Tereza representa a bancada ruralista no Congresso e, sobretudo, o agronegócio. Já Mandetta representa Caiado. Formado em Medicina, fez carreira como executivo de plano de saúde em Campo Grande e, ato contínuo, como político. Conquistou dois mandatos de deputado federal. Mas era apenas ex-deputado quando o médico Caiado o indicou a Bolsonaro.

A esta altura pouco importa lembrar que foi Bolsonaro quem começou a implicar com seu ministro quando constatou que estava brilhando mais que o chefe - e que o ministro transborda confiança nesse momento difícil.

Há lógica em supor que Mandetta jamais enfrentaria abertamente o presidente da República sem estar alinhado com o padrinho. São amigos pessoais de frequentarem as casas ao lado das mulheres. Mandetta esteve com Caiado por horas antes de provocar ao máximo Bolsonaro no programa Fantástico de domingo.

Mas por qual razão Bolsonaro ainda não demitiu Mandetta? Tem mais de um mês que quer demiti-lo e não consegue. Proliferam notícias de que os generais não deixam. Mas por qual razão o quadrunvirato de generais no Planalto está tão prudente com a mera substituição de um ministro que não representa as academias de Medicina, nem a indústria farmacêutica, muito menos um partido político ou bancada temática? De nomes, há fartura.

Tem algo maior por trás desse movimento de Caiado estimulando seu protegido a peitar o presidente. E acredito que nada tenha a ver com as políticas de combate ao coronavírus. Aprendi a respeitar a prudência e a visão estratégica dessa atual geração de comandantes militares, que tem em Augusto Heleno e Eduardo Villas Bôas as lideranças mais respeitadas.

Também é relevante prestar atenção aos movimentos do senador Tasso Jereissati.

Desde o fim do regime militar, o Brasil vem sendo controlado por cerca de 35 grandes grupos econômicos, que se organizam em oligopólios e dominam os 15 maiores setores da economia. Esses oligopólios são responsáveis por quase 60% do PIB brasileiro e vinham financiando mais de 60% das campanhas políticas até a eleição de 2014. São os Donos do Poder -- uso aqui como referência o título a obra clássica de Raymundo Faoro.

As forças mudaram na eleição de 2018, quando um outsider que não mantinha diálogo preliminar com os Donos do Brasil conseguiu ser eleito Presidente da República. Como vetores adicionais a Lava Jato e a proibição de financiamento público de campanha. Um ano depois de tomar posse, ainda não foram estabelecidos os canais de diálogo permanente entre o governo e o setor produtivo..

O grupo econômico da família Jereissati (Iguatemi, Oi, dentre outras empresas) é um dos Donos do Brasil. E o senador Tasso, por sua vez, representa no Congresso Nacional quase todos os setores produtivos da economia, sobretudo a Indústria.

Só não representa o setor Financeiro, que está sendo representando no governo por Paulo Guedes e, no Congresso, por Rodrigo Maia. Tasso tem ascendência total e absoluta sobre a maioria de seus pares. Foi ele quem escolheu e elegeu David Alcolumbre com pouca ou nenhuma participação do novo governo.

Tasso aguardou abrir diálogo com o governo até novembro passado. Antes dele, o presidente da Confederação Nacional da Indústria, Robson de Andrade, passou quatro meses tentando ser recebido por Guedes. Teve que pedir ajuda de Villas Bôas para ser escutado. Mas não foi.

Paciente e prudente, Tasso se ofereceu para conversar. Era relator da reforma da Previdência. Mandou vários recados públicos e privados. Contudo, nenhum ministro ou líder governista o convidou para um café. Nem Paulo Guedes, nem o general Ramos, coordenador político do Planalto..

Não que ele quisesse aderir a Bolsonaro, mas esperava apresentar a pauta de reivindicações do setor produtivo, indústria e comércio. Irritado, passou a falar mal do governo ainda no ocaso de 2019. Agora, na crise do coronavirus, está batendo de forma contundente.

Andei novamente dialogando sobre a conjuntura com o bom amigo Jorge Henrique Cartaxo, um dos mais argutos analistas políticos de Brasília. Chegamos juntos à conclusão de que ainda não deu para vislumbrar a silhueta do mosaico que está sendo armado nos bastidores do poder.

Mas já dá para saber que o nome do ministro da Saúde, se fulano ou beltrano, não tem qualquer relevância diante das crises econômica e política que nos assombra, ou diante dos movimentos do governador Ronaldo Caiado e do senador Tasso Jereissati. Pois um representa o agronegócio brasileiro. O outro, o setor produtivo. E ambos romperam de forma pública e contundente com o presidente Jair Messias Bolsonaro.