19 Set 2019

"Aproveitem o momento", diz Eduardo. Mas para quê?

  Ter, 10-Set-2019
Eduardo: "lactobacilo" Eduardo: "lactobacilo"

Depois de visitar o presidente Jair Bolsonaro pela manhã, momento registrado numa foto em que apareceu com uma pistola enfiada na cintura, o deputado Eduardo Bolsonaro foi na tarde da última segunda-feira a um evento criado para discutir o incentivo aos investimentos estrangeiros no Brasil, promovido pela Abrig, associação de profissionais de relações entre as empresas privadas e o governo. No encontro, para o qual ele chegou antes da hora, ouviu palestrantes e fez anotações com letra de forma miúda, como um aluno aplicado, Eduardo afirmou que o empresariado brasileiro tem na gestão de seu pai uma oportunidade única para atrair novos negócios e prosperar.

"Aproveitem o momento", disse ele, "porque não sabemos como será depois". Afirmou que seu "maior sonho" seria uma "reforma da Constituição e das leis, de forma que, se vier um novamente um governo estatizante, não poderá agir" - referência clara ao PT e aos partidos mais de esquerda. Resta, porém, saber exatamente qual é o projeto para o desenvolvimento deste governo, além do discurso liberal. E, dentro dessa política ainda em formação, o papel de Eduardo tem se revelado mais importante do que parece aos críticos, que vêem nele erroneamente somente o filho que o pai quer colocar na embaixada em Washington.

Os dados mostram que os investimentos do exterior nas economias em desenvolvimento cresceram 3% em 2018, para US$ 694 bilhões, mas esse dinheiro foi em grande parte para a Ásia e África. No Brasil, o investimento direto caiu 12%, de 68 para 59 bilhões, segundo o Monitor de Tendências de Investimentos Globais, conforme divulgado pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento.  Na reunião da Abrig, a coordenadora de investimento direto da Apex, Maíra Rezende, estimou para este ano uma pequena recuperação, para 61 bilhões.

O maior problema brasileiro hoje nem é a retomada do investimento estrangeiro, e sim reanimar o próprio capital nacional. Apesar do discurso liberal do governo, nem o empresariado nacional voltou a investir de forma significativa no país, razão pela qual a economia patina e o desemprego se mantém perto dos 13 milhões de pessoas.

Sem essa reação, o governo começa a adotar medidas que contrariam seu próprio discurso liberalizante. Nesta segunda-feira, o ministro da Economia, Paulo Guedes, anunciou oficialmente a volta da CPMF, o imposto obre operações financeiras, um tipo de medida ortodoxa já usada no passado, que tem um claro efeito recessivo.

Em entrevista ao jornal Valor, Guedes afirmou que a nova CPMF terá alíquotas de 0,2% a 1%, com o objetivo de arrecadar mais 150 bilhões de reais este ano e tapar os buracos do Orçamento, que vai sendo minado pela própria paralisação econômica.

É mais um sinal desfavorável ao investimento, que se junta a um receio criado pelo próprio presidente ao seu redor. "Não adianta o Brasil fazer discurso liberal e o presidente ir na China e falar que a mulher do chinês é feia", ironizou um dos lobistas presentes ao encontro, à entrada do salão.

Falta internacionalização

Na prática, o governo começa a dar vários passos atrás no seu projeto liberal, diante da falta de reação do mercado. O Ministério da Economia apresentou na semana passada a ideia mudar a lei trabalhista, de forma a permitir que mais de 60 bilhões de reais em dinheiro hoje bloqueado na Justiça, garantia de pagamento em processos ainda em julgamento, possam voltar ao mercado na forma de investimento. A medida, que depende ainda da decisão final de Guedes, se junta a outras concessões e incentivos fiscais na tentativa de reativar o emprego (Leia aqui).

A falta de investimento revela também a falta de uma perspectiva adequada à economia contemporânea. Enquanto governo e empresários ficam discutindo como atrair investimento ao mercado interno, e criticando os desacertos de governança e a insegurança jurídica, o país deixa de entrar no rol dos países que não apenas investem como se voltam para a internacionalização dos negócios, com investimentos globais. Hoje, a internacionalização das empresas brasileiras é essencial para que se fortaleçam, de forma a sobreviver inclusive no próprio mercado brasileiro.

Enquanto empresas de economias menores como Portugal e Espanha entram no mercado brasileiro investindo em setores estratégicos, são poucas as empresas brasileiras dispostas a entrar no mercado global e competir de verdade - como a Ambev, que comprou as cervejarias belgas e a Budweiser, marca mais popular e ícone do consumo nos Estados Unidos. Em vez de buscar essa competitividade no mercado global, o empresário brasileiro continua na postura velha e tacanha de esperar dinheiro de fora para tirar um pedaço do negócio e a ajuda do governo para continuar ganhando sem risco. Isso pode ser confortável do ponto de vista empresarial, mas é a fórmula da morte no mercado global, que vai levando ao sucateamento toda indústria brasileira de bens serviços, requerendo uma mudança que o governo deveria liderar.

Decisões definidoras

Fica, então, a pergunta: aproveitar o momento, mas para quê? A própria mudança de rumo nas iniciativas de Guedes mostram que o governo ainda não encontrou seu próprio projeto, construído com o avião em pleno voo.

Nesse cenário, Eduardo é peça-chave. Dentro do universo de pessoas que orbitam o presidente,ele é provavelmente o mais ativo na área econômica. "O liberalismo vai dar certo e vão dizer que foi sucesso do Paulo Guedes", afirmou ele, em sua palestra na Abrig. "Mas não importa para nós quem fica com o crédito, vai importar o resultado." 

Na palestra da Abrig, Eduardo afirmou que "por sorte" seu pai "tem a mente aberta". E que ele, como filho e deputado, é um "lactobacilo" - entendido como um microorganismo capaz de levar boas ideias para dentro do Palácio do Planalto. Como radar em busca de soluções para Bolsonaro, depois do evento, Eduardo juntou-se com os membros da Abrig no salão superior do restaurante Figueira Rubayat, para ouvir pessoalmente um a um, em uma mesa redonda que entrou pela noite. 

Aos 35 anos, o "lactobacilo" mimetiza Bolsonaro, fazendo pouco de si mesmo, para na realidade destacar sua importância. É uma atitude que tem um certo gosto de revanchismo contra todos aqueles que nunca acreditaram nos Bolsonaro. Contudo, existe também aí a vontade e certa determinação de acertar. Eduardo já contribuiu bastante para arejar as ideias paternas, incluindo a virada da antiga mentalidade nacionalista e estatizante de Bolsonaro, própria de certa ala militar, para um modelo "conservador nas ideias e liberal na economia", aos moldes do  republicanismo americano.

Resta saber com qual projeto o governo ficará: se o das concessões a um empresariado que vive à sombra do poder público, que deseja atrair capital externo e continuar encolhido no mercado brasileiro como antes, ou investir num projeto para tornar o Brasil realmente grande. O que significa ser maior que o seu próprio território, por meio da internacionalização competitiva - a receita das grandes potências, como os Estados Unidos, e agora a China.

Essa é a diferença que as ideias certas podem fazer: decidem e definem o destino de uma Nação.