2 Jul 2020

A sociedade em alerta pela democracia

  Seg, 29-Jun-2020
O presidente: silêncio inédito O presidente: silêncio inédito

Foi um domingo silencioso, sem aquelas manifestações que o presidente Jair Bolsonaro classifica como espontâneas, contra as instituições democráticas da República. Bolsonaro também não apareceu para dar as declarações de costume, coincidentemente após o avanço das investigações sobre as relações dos negócios operados pelo ex-assessor Fabrício Queiroz.

Também este domingo, o DataFolha divulgou os resultados de pesquisas segundo as quais para 68% da população tais manifestações ameaçam a democracia. E 75% apoiam o regime democrático como a melhor forma de governo - esse índice era de 62% em dezembro passado.

O resultado indica que as manifestações pró-golpe do bolsonarismo causaram não um movimento de apoio a uma intervenção militar, e sim um aumento da defesa democrática. Para 10% dos brasileiros, de acordo com o DataFolha, uma regime militar seria "aceitável".Embora o apoio à democracia seja majoritário, ainda restam 12% da população para quem tanto faz o regime.  

Trata-se do maior índice de apoio à democracia no Brasil desde 1989, quando a pesquisa começou a ser feita. Durante a presidência de Fernando Collor, primeiro presidente eleito democraticamente em 30 anos, o apoio à democracia era de 42%. Quando Collor renunciou, pouco antes da votação do seu impeachment, 23% dos entrevistados diziam ser favoráveis à ditadura.

A pesquisa entrou em matéria de discussão histórica, pelo fato de que Bolsonaro defende que o regime instalado em 1964 não foi golpe nem ditadura. Para 78% dos brasileiros, o regime militar foi uma ditadura.

Uma fatia de 81% dos brasileiros condena o uso de Fake News contra personalidades do STF e o Congresso. E 68% consideram que a orquestração de notícias é uma ameaça à democracia. São 29% os que não veem risco democrático nas Fake News e 3% não sabem dizer.

O presidente Bolsonaro procurou forçar a expansão do seu apoio ideológico, mas na prática a ação dos extremistas tem causado apenas uma reação contrária da opinião pública, unida em torno dos valores democráticos. 

O refluxo da ofensiva do presidente é sintomático. Além de desmontar as manifestações e manter-se em silêncio, Bolsonaro enviou auxiliares para dialogar com ministros do Supremo Tribunal Federal, levando a bandeira da paz, de acordo com apuração da coluna Painel, da Folha de S. Paulo.

Segundo o Painel, os ministros André Mendonça (Justiça) e Jorge de Oliveira (Secretaria-Geral), além de José Levi do Amaral (Advocacia-Geral da União) reuniram-se com o presidente do STF, Dias Toffoli, além dos ministros Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes. Teriam na agenda ainda Luís Roberto Barroso.

Corre no STF o inquérito das Fake News, que coloca todo o esquema da milícia digital do bolsonarismo a céu aberto. Também pode parar no STF o inquérito sobre os negócios de Fabrício Queiroz no gabinete do filho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro, quando era deputado estadual no Rio de Janeiro.

Na sexta-feira, um desembargador determinou que o inquérito deve correr dentro de foro privilegiado, o que transferiu as investigações do âmbito da Justiça comum também para o STF.

Assim se explica a súbita guinada de Bolsonaro para sua versão do "Lula paz e amor". Resta saber se ele permanecerá assim por muito tempo, contrariando seu temperamento. E se isso servirá para manter a minoria antidemocrática no lugar de onde nem deveria ter saído.