24 Ago 2019

A roda começa a girar contra Bolsonaro

  Ter, 14-Mai-2019
Dória com Alcolumbre, Toffoli e Maia em NY: presentes Dória com Alcolumbre, Toffoli e Maia em NY: presentes

Um jantar de gala em Nova York, onde o presidente Jair Bolsonaro deveria ser homenageado na noite desta segunda-feira, deu um sinal de que a boa vontade de uma ala importante do seu eleitorado começa a voltar-se contra ele - a elite política e econômica do Brasil. Bolsonaro recusou o convite, depois de ser declarado persona non grata pelo prefeito da cidade, Bill de Blasio - "nova iorquinos não fazem vista grossa à opressão", tuitou  ele. Bolsonaro não foi à festa, assim como seus ministros. Mas estava lá o alto empresariado brasileiro, assim como as outras figuras de proa da República: o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, da Câmara, Rodrigo Maia, e do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli.

A homenagem de "Homem do Ano", da Câmara Americana de Comércio, foi transferida para Dallas, depois da desistência de patrocinadores e a pressão sobre a sede do evento - o Museu de História Natural. O jantar foi levado para um hotel.

Em vez de deixar de comparecer à festa, em solidariedade a Bolsonaro, empresários de primeira linha do país compareceram em peso. No meio deles, estava o governador de São Paulo, João Dória Júnior, apoiador de Bolsonaro no segundo turno das eleições e um dos articuladores do suporte empresarial ao presidente.

No Brasil, o pêndulo que decide o futuro do chefe do Executivo é a economia. E, mais do que um jantar, no qual foi servido salmão com aspargos, o convescote em Nova York serviu para medir a temperatura da elite brasileira em relação ao governo.

Com a notícia de que o Brasil não deve crescer mais que 2% este ano, e possivelmente não passe de 1,5%, os humores começam a voltar-se contra Bolsonaro. Apesar da sua bandeira liberal, a turbulência constante na gestão é um inibidor do principal trunfo capaz de fazer voltarem os investimentos ao país, tantos nacionais quanto privados: a paz.

O dinheiro não gosta de instabilidade - o prato que Bolsonaro mais tem servido no dia a dia de seu início de gestão. Nas conversas, predominou a preocupação quanto às incertezas no futuro do país, decorrentes da insólita gestão presidencial.

"Há otimismo sobre o que pode ocorrer com a economia e as reformas", disse um investidor americano ao jornalista Jamil Chade, do UOL, presente ao evento. "Mas uma preocupação diante da realidade e do caos no governo."

Estabilidade

O empresariado sabe que somente um clima de paz pode fazer o setor privado voltar a investir no Brasil. Boa parte desses recursos foi ganho com a larga distribuição pelos governo do PT de dinheiro público aos brasileiros de baixa renda, fenômeno que catapultou o consumo e acabou entesourando a riqueza nas mãos do empresariado, detentor da venda de bens e serviços.

Para estimular a recolocação desses recursos em circulação, a questão essencial é a diminuição do risco - algo para o que Bolsonaro não vem contribuindo.

A estagnação econômica vai assim gerando um círculo vicioso com as decisões erráticas de uma administração que vive dando tiros em si mesma, mostra-se perdida em áreas como a Educação e vai cuspindo fora seus ministros por força centrípeta.

Dória flutua

Enquanto Bolsonaro se recolhia, longe dali, o governador paulista navegava entre os cerca de 300 convidados como uma pluma. Desfiou elogios a Toffoli e Maia e garantiu aos investidores que "a democracia está absolutamente sólida".

A democracia, talvez. Bolsonaro, nem tanto. Conseguiu divorciar-se de seu partido, o PSL, ao demitir o ministro Gustavo Bebbiano; foi confrontado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia; atacou e isolou os militares de seu governo, isolando-se deles; e parece cada vez mais agarrado e restrito ao seu pequeno círculo de seguidores fervorosos, entre os quais estão seus filhos e o franco-pensador Olavo de Carvalho.

A história recente, com Dilma Rousseff, mostra que a benção das urnas basta para legitimar a posse de um presidente, mas não para mantê-lo. No Planalto, Bolsonaro vai virando um náufrago, enquanto ao seu redor parece haver um grupo cada vez maior de tubarões à procura de um simples pretexto para devorá-lo e devolver o Brasil a um pouco de paz e prosperidade.