19 Nov 2019

A quem interessa o conflito

  Sex, 08-Nov-2019
O perfil fake e seus seguidores: manipulação O perfil fake e seus seguidores: manipulação

Depois que o Supremo Tribunal removeu na noite de quinta-feira a prisão automática após a segunda instância, por 6 votos a 5, as redes sociais se encheram de fake news e material de propaganda sugestivos de um golpe militar. Associam a decisão do STF a uma demonização da libertação do ex-presidente Lula, principal interessado na reviravolta jurídica perpetrada na mais alta corte do país. Esse conteúdo revela justamente a quem interessa exacerbar o conflito - e os riscos que corremos com essa tentativa de manipulação da opinião pública.

Pela manhã da sexta-feira, horas após a decisão do STF, circulava uma mensagem de Twitter de uma conta falsa em nome do general Eduardo Villas Bôas, na qual alguém pregava o golpe militar usando seu nome.

"Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e a democracia", dizia o texto falso, referindo-se implicitamente à decisão do STF. "A alta cúpula militar irá se reunir para definir ações das Forças Armadas e assegurar a estabilidade."

Embora seja ainda uma liderança respeitada, Villas Bôas está fora da ativa e não pode convocar as Forças Armadas ou mesmo incitá-las a nada. Todas as vezes em que se pronunciou, sobretudo quando estava no comando do Exército, foi em defesa da liberdade democrática. A República confirmou que se tratava de um perfil fake com a equipe do próprio Villas Boas.

Pouco depois de publicada a mensagem, a conta fake mudou de nome. Villas Bôas virou "Pinga", ou @Pinguç0. No final da manhã de sexta-feira, foi desativada. Existia desde 2012. Entre seus seguidores, estavam duas autoridades republicanas. Uma é o filho do presidente, Carlos Bolsonaro. O outro é o presidente, Jair Bolsonaro.

Pelo WhatsApp, multiplicaram-se mensagens pró-golpe. Como um vídeo, que recorta um trecho da série da Netflix O Mecanismo, uma obra de ficção. No pedaço escolhido, presos da Lava Jato comemoram da cadeia a notícia de que poderão ser libertados, gritando: "Foi para o STF!". 

Manipulação

Por mais que se possa discutir a decisão do tribunal, cujas reviravoltas dão margem à insegurança jurídica por onde navegam as forças desestabilizadoras da democracia, está claro que esse jogo, com apoio das redes virtuais e a disseminação de fake news, só beneficia as duas vertentes radicais que procuram manipular a opinião pública - hoje com vistas claramente a buscar a instalação de um regime autoritário no Brasil.

Para o presidente Bolsonaro, a possibilidade da libertação de Lula soa como música. Como rivais do futebol, eles criaram uma sinistra simbiose. Dependem um do outro para acirrar os ânimos e manter-se vivos na luta pelo poder, mesmo sendo representantes hoje das minorias radicais. Assim na campanha eleitoral, seguem apostando no medo que a maioria tem de um lado ou outro para tomar o poder - no caso de Bolsonaro, livrando-se de amarras institucionais que são próprias do regime democrático.

Como se vê pelo perfil fake do @pinguçO, os milicianos virtuais do bolsonarismo procuram usar nessa manipulação até mesmo as Forças Armadas . Hoje, Bolsonaro conta com a possibilidade de que, criando o medo do caos, os militares de definam pela intervenção em nome da ordem. 

"Mais esquerda"

Da cadeia, onde ainda se encontra Lula, não vêm melhores notícias. O presidente já avisou, por meio das visitas que recebe, que pretende voltar à luz solar "mais de esquerda". O homem que o STF beneficia ao fazer a Lava Jato retroceder está longe do velho "Lulinha paz e amor". Ele também quer insuflar os ânimos.

A CPMI das Fake News segue seu curso, mas ainda está longe de demonstrar como funciona a milícia virtual bolsonarista, por onde os Bolsonaro mostram suas verdadeiras intenções. A coordenação da milícia começa com os filhos do presidente, que adotam, no terreno virtual, a tática da guerrilha militar: atacam e se retiram.

Tanto Carlos quanto Eduardo Bolsonaro já deram declarações contra a democracia pelo Twitter e depois, diante da repercussão, publicamente recuaram. É assim que a guerrilha funciona: eles lançam a ideia, depois a retiram, mas a cada ataque sua posição vai avançando.

 A suposição de que Bolsonaro tenderia ao centro, uma vez no governo, caiu rapidamente por terra em seus pouco mais de dez meses de governo. Enquanto usa o liberalismo do ministro Paulo Guedes para reanimar a economia, age rapidamente para estabelecer uma hegemonia ideológica dentro do próprio governo, o que incluiu o isolamento do vice-presidente Hamilton Mourão e dos militares por ele indicados para o primeiro escalão.

Expurgos

Muitos já foram expurgados. O mais recente deles foi o general Maynard Santa Rosa, que depois de longa fritura pediu demissão da Secretaria de Assuntos Estratégicos.

"Considero uma falta de respeito com as Forças Armadas", disse o ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno. "O general Santa Rosa não é um general qualquer."

Bebianno é outro dos defenestrados por Bolsonaro em sua curta gestão. Aos poucos, o presidente vai expurgando do governo também todos os que embarcaram na grande aliança de campanha que inflou sua candidatura e permitiu sua eleição.

Isso incluiu o rompimento público com a ala majoritária do PSL, que agora tem membros importantes na oposição aberta, como o deputado Alexanfre Frotta, que passou para o PSDB e reverteu as investigações da CPMI das Fake News, contra o próprio governo. E a ex-líder de Bolsonaro no Congresso, Joice Hassellmann, que tem experimentado o que é estar do lado oposto ao da milícia virtual bolsonarista.

“Os interesses do Palácio do Planalto e do núcleo duro do governo estão longe de serem os mesmos interesses do Brasil", afirmou Bebbiano, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. O fato é que Bolsonaro parece disposto a arriscar tudo pela radicalização. Por ironia, aproximou-se somente do STF, que acabou por suspender a investigação sobre o gabinete de seu filho Flávio, no Rio de Janeiro.

Assim é a política, feita de aliados de ocasião, os mesmos que, amanhã, se pode derrubar.